Como uma tecnologia uruguaia faz o cartão da Caixa dar 30% de desconto no arroz e no feijão

Por Daniel Giussani 27 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Como uma tecnologia uruguaia faz o cartão da Caixa dar 30% de desconto no arroz e no feijão

O varejo alimentar brasileiro convive com uma equação difícil: margens apertadas, consumidor cada vez mais sensível ao preço e uma classe popular que decide a compra item a item, na frente da prateleira.

Dar desconto sem corroer a rentabilidade da loja virou um problema técnico — e é nesse problema que uma empresa uruguaia decidiu entrar.

A Scanntech, empresa de tecnologia para o varejo, fundada em 1992 no Uruguai e presente no Brasil desde 2013, acaba de lançar a Promo Bin, um serviço que permite que bandeiras de cartão e bancos ofereçam descontos diretamente no caixa do supermercado, em produtos específicos, sem que o cliente precise apresentar cupom, fazer cadastro ou ativar promoção em aplicativo.

A tecnologia lê a transação no ponto de venda, identifica a bandeira do cartão e os itens elegíveis, e aplica o desconto na hora.

O primeiro grande contrato da Promo Bin é com a Elo, terceira maior bandeira do país, em uma campanha com a Caixa Econômica Federal que oferece até 30% de desconto em itens da cesta básica nos cartões emitidos pelo banco.

Onde a tecnologia foi implementada, o fluxo de loja cresceu 6% no acumulado de 2026 contra 2025, e a quantidade de vezes em que o mesmo cartão voltou à loja quadruplicou entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026. Itens contemplados pela promoção tiveram saltos relevantes em volume de venda: arroz de 5 quilos subiu 27%, leite UHT de 1 litro avançou 22%, feijão de 1 quilo cresceu 7% e açúcar de 1 quilo, 6%.

Segundo Thomaz Machado, CEO da Scanntech Brasil, a Promo Bin opera em nível de SKU, código de identificação de produto, sem exigir mudanças na infraestrutura de meios de pagamento ou no sistema do varejo.

A diferença em relação ao cashback tradicional, que devolve um percentual sobre o ticket inteiro, é que aqui o desconto incide sobre itens estratégicos escolhidos pela bandeira ou pelo banco — o que torna a ação financeiramente mais eficiente para quem banca o desconto e mais visível para quem compra.

O próximo passo da Scanntech é levar a Promo Bin para além da cesta básica e do recorte de classe popular. A mesma tecnologia pode ser aplicada em outros itens, com bandeiras e emissores diferentes.

A empresa também trabalha para ampliar a base de varejistas conectados — hoje a plataforma já está presente em 95% das principais redes de supermercado do Brasil, e a meta é replicar o modelo em farmácias e perfumarias.

Como funciona a Promo Bin

A Promo Bin trabalha em uma camada de software que se integra ao sistema de frente de caixa do varejo, no qual a Scanntech já tem capilaridade.

Quando o consumidor passa o cartão, a tecnologia identifica a bandeira pelo bin, código de seis dígitos que identifica o emissor do cartão, cruza com a lista de produtos elegíveis daquela campanha e aplica o desconto antes do fechamento da venda. O cliente vê o abatimento direto no cupom fiscal.

Para o varejo, o ganho está no fluxo de loja e no ticket. A campanha com Caixa e Elo mostrou que a recorrência do mesmo cartão na mesma loja se multiplicou, o que sinaliza fidelização sem programa de pontos.

Para a bandeira e o banco, o incentivo está em transformar o cartão em meio preferencial de pagamento em compras frequentes — segmento dominado historicamente pelo dinheiro e, mais recentemente, pelo Pix.

A história da Scanntech

A Scanntech foi fundada em 1992 em Montevidéu pelos sócios Raul Polakof, Benny Szylkowski e Soledad Fernandez. Polakof, hoje CEO global, começou a empresa a partir de uma ideia da adolescência: capturar os dados de venda dos caixas da rede de supermercados dos pais para entender o que vendia, quando e a que preço — em uma época em que o termo big data ainda não existia.

A empresa cresceu primeiro no Uruguai, depois na Argentina e no Chile, e tentou entrar no Brasil oferecendo apenas serviços de automação comercial, sem sucesso.

A virada veio em 2016, quando passou a oferecer ao mercado brasileiro a plataforma de inteligência de dados que coleta informações ticket a ticket, item a item, diretamente do ponto de venda. Em 2023, recebeu um aporte de 200 milhões de reais da gestora americana Warburg Pincus, que tem na carteira outras empresas de tecnologia no Brasil.

Hoje, a Scanntech processa 13,5 bilhões de transações por ano no Brasil, está conectada a 95% das principais redes de varejo alimentar do país e atende ainda mais de 40 mil lojas independentes. Entre os clientes industriais estão Ambev, Coca-Cola, PepsiCo, Unilever e Mondelez.

A Promo Bin é a aposta mais recente para diversificar receita para além da venda de dados para indústria e varejo, entrando no ecossistema de meios de pagamento.

O principal obstáculo do novo projeto é de adoção. A tecnologia depende de três pontas se moverem juntas: a bandeira, que precisa contratar e bancar o desconto, o banco emissor, que precisa promover a campanha aos seus clientes, e o varejo, que precisa estar conectado à plataforma da Scanntech.

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