Conexão deve sustentar a próxima economia trilionária do bem-estar, diz Kasley Killam

Por Juliana Pio 14 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Conexão deve sustentar a próxima economia trilionária do bem-estar, diz Kasley Killam

AUSTIN — Um ano depois de afirmar no SXSW que a saúde social estava hoje onde a saúde mental se encontrava há cerca de uma década, a pesquisadora Kasley Killam voltou ao festival para apresentar novos dados sobre o tema. A fala ocorreu no painel “Tendências e previsões em saúde social: a conexão é a nova fronteira”, realizado nesta quinta-feira, 12, no Hilton Austin Downtown, em Austin, nos Estados Unidos.

Na edição anterior do evento, Killam disse que o mundo se aproximava de um ponto de virada no reconhecimento da saúde social como parte central do bem-estar. Agora, alguns sinais já indicam que esse movimento começa a ganhar força.

“A maioria de nós fala de saúde apenas como saúde física e mental. Isso é um erro”, afirmou. “Milhares de estudos com bilhões de participantes ao longo de décadas mostram que conexão é essencial não só para a saúde mental, mas também para a saúde física e para a longevidade.”

Kasley Killam é uma cientista social canadense, especialista em saúde social e autora do livro The Art and Science of Connection (publicado no Brasil como Saúde Social: A arte e a ciência da conexão humana). Formada pela Harvard T.H. Chan School of Public Health, ela fundou o Social Health Labs e desenvolve pesquisas sobre o papel das conexões humanas para longevidade e bem-estar.

Segundo ela, a qualidade das relações sociais está associada a diferentes resultados de saúde. “Pesquisas mostram que pessoas com relacionamentos sociais fortes têm menos sintomas depressivos, respostas imunológicas mais fortes e melhor funcionamento cognitivo”, disse. “Elas têm menor risco de doenças como doenças cardíacas e também têm uma vida mais longa.”

Durante a apresentação, Killam citou dados recentes sobre mortalidade associados ao isolamento social. “No ano passado, a OCDE estimou que solidão e falta de interação regular estão associadas a até 817 mil mortes prematuras por ano”, disse. “Pessoas que não têm laços familiares fortes ou contato social frequente têm até 53% mais probabilidade de morrer por qualquer causa.”

O terceiro pilar da saúde

Killam definiu saúde social como a dimensão do bem-estar ligada às relações humanas. “Saúde social é a dimensão da sua saúde e do seu bem-estar que vem da sua conexão”, afirmou.

“Se pensarmos que a saúde física diz respeito ao nosso corpo e a saúde mental diz respeito à nossa mente, a saúde social diz respeito às nossas relações.”

Ela comparou o bem-estar a um templo sustentado por três pilares.

“Esses três pilares — físico, mental e social — estão interconectados. Se um deles enfraquece, toda a estrutura pode ser afetada.”

O conceito ainda é pouco conhecido, mas há sinais de que vem ganhando espaço. Quando começou a estudar o tema, há cerca de 18 anos, a pesquisadora quase não encontrava pesquisas sobre o assunto. “Nunca tinha ouvido falar de saúde social antes”, afirmou.

Recentemente, buscas globais no Google pelo termo “social health” atingiram níveis recordes. A expressão também aparece com mais frequência em livros digitalizados e em publicações acadêmicas.

“O que estou observando é que a saúde social, como conceito, está se movendo das margens para o mainstream”, disse.

'Mercado trilionário'

Killam citou ainda um relatório publicado em junho do ano passado por pesquisadores ligados à World Health Organization que classificou a saúde social como o “pilar que faltava” na definição de saúde.

“Esse é um marco global importante, porque mostra que a saúde social está sendo reconhecida como prioridade ao lado da saúde física e mental”, afirmou.

Outro relatório mencionado foi o estudo anual da agência VML, baseado em pesquisa com mais de 15 mil pessoas e entrevistas com 60 especialistas, que aponta a saúde social como uma das tendências que devem moldar indústria e cultura em 2026.

“A próxima economia trilionária do bem-estar será construída em torno da conexão”, disse, citando um relatório da VML. “A questão não é se a saúde social vai remodelar as indústrias, mas quem vai liderar esse movimento.”

Dados sobre solidão

Mesmo com o crescimento do debate, os dados indicam desafios. Nos Estados Unidos, 16% dos adultos dizem se sentir isolados ou solitários sempre ou na maior parte do tempo.

Além disso:

Ao mesmo tempo, alguns indicadores apontam percepções positivas:

No cenário global, dados da Organização Mundial da Saúde indicam que uma em cada seis pessoas no mundo se sente solitária.

Entre 5% e 14% da população mundial relata sentir solidão com frequência, com índices mais altos em países como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Japão.

Segundo a pesquisadora, 8% das pessoas no mundo não têm nenhum amigo próximo. Por outro lado, 90% dizem ter alguém em quem podem confiar quando precisam de ajuda. A satisfação média com relações pessoais também é alta. “A média global de satisfação com relacionamentos pessoais é 8 em uma escala de 0 a 10”, disse.

Menos tempo juntos

Killam também apresentou dados sobre mudanças no comportamento social. Nos Estados Unidos, o tempo dedicado a participar ou organizar eventos sociais caiu 50% nos últimos 20 anos.

Globalmente, também diminuiu a proporção de pessoas que encontram amigos e familiares presencialmente todos os dias. Outro indicador citado por ela mostra a queda das refeições em família ao longo das gerações. Entre integrantes da chamada Silent Generation, 84% diziam ter refeições diárias com a família. Entre a geração Z, esse número caiu para 38%.

“Estamos socializando menos, mas queremos socializar mais”, afirmou. Segundo ela, buscas no Google por termos como “como fazer amigos”, “apps de amizade” e “eventos comunitários” atingiram níveis recordes.

Escola, trabalho e tecnologia

Killam apontou quatro áreas para fortalecer a saúde social: escolas, trabalho, tecnologia e comunidades.

No campo da educação, defendeu o ensino de habilidades de relacionamento. “Já ensinamos educação física. Por que não ensinar conexão?”, disse.

No trabalho, citou estudos segundo os quais funcionários que se sentem conectados aos colegas têm sete vezes mais probabilidade de estar engajados e são menos propensos a deixar a empresa. "Toda equipe deveria ter uma estratégia interna de saúde social.”

Relações com inteligência artificial

A tecnologia também já impacta as relações sociais. Segundo dados citados no painel, 49% da geração Z já formaram algum tipo de relacionamento significativo com companheiros de inteligência artificial. Além disso, 37% dizem conseguir se imaginar apaixonados por um parceiro de IA.

Quando começou a estudar o tema para seu livro, em 2023, já havia centenas de milhões de usuários recorrendo a sistemas de inteligência artificial para companhia.

Comunidades e conexão presencial

Mesmo com o avanço da tecnologia, muitas iniciativas para fortalecer conexões surgem em nível local. “Algumas das melhores soluções não são tecnológicas. São iniciativas comunitárias e pessoas conectando vizinhos”, disse.

Ela também citou uma reação ao excesso de digitalização. “A geração Z declarou 2026 como o ‘ano do analógico’”, afirmou, referindo-se ao interesse crescente por encontros presenciais.

Diante do crescimento do debate sobre saúde social, Killam afirmou que o avanço do tema exige cautela. “Agora que a saúde social está passando do nicho para o mainstream, precisamos garantir que esse movimento seja baseado em evidência e ética.”

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