Conferência na Colômbia realinha engrenagem travada nas COPs
O conflito do Irã expôs a vulnerabilidade global ao petróleo. O aumento no preço do barril recorda aos governos que a transição energética transcende a pauta ambiental. Os combustíveis fósseis, além de responderem por mais de 70% das emissões globais de gases de efeito estufa, ocupam atualmente o centro das discussões sobre segurança energética e soberania.
Foi nesse contexto que Colômbia e Holanda organizaram em Santa Marta a primeira conferência internacional dedicada à transição dos combustíveis fósseis, com a participação de 57 países. "Precisamos transicionar, não só pelo clima, mas porque isso fortalece nossa independência e segurança energética" - afimou Stientje van Veldhoven, ministra de Clima da Holanda, durante a abertura da plenária.
As negociações no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) dependem, por regra, do consenso entre as partes, fazendo com que, na prática, um único país possa bloquear uma decisão. Isso ficou claro na COP30, no Brasil, quando membros da OPEP barraram menções diretas aos combustíveis fósseis no texto final. A conferência em Santa Marta buscou romper esse impasse ao reunir somente países dispostos a avançar.
A ausência de convite aos grandes emissores confere à iniciativa um caráter ambivalente. Por um lado, a exclusão evita o "poder de veto" e permite que o grupo estabeleça metas técnicas rigorosas sem as diluições diplomáticas habituais, criando um referencial de ambição. Por outro, o valor prático da conferência é limitado, já que os países ausentes detêm a maior fatia do consumo e da produção mundial. Sem eles, o evento funciona menos como uma solução global e mais como um laboratório de coalizão, cujo sucesso dependerá da capacidade desses países de criarem mecanismos de mercado e pressão política que forcem os gigantes a seguir o mesmo caminho.
O diálogo avançou em três frentes: a elaboração de roadmaps nacionais de eliminação de combustíveis fósseis; a revisão de regras de comércio internacional para desincentivar produtos intensivos em carbono; e o combate aos subsídios aos fósseis, que em 2024 somaram US$ 1,2 trilhão.
A França, por exemplo, apresentou datas para interromper o uso dos combustíveis poluentes: carvão até 2030, petróleo até 2045 e gás natural até 2050, com eletrificação dos transportes, troca de caldeiras a gás por bombas de calor e expansão de nuclear e renováveis. Foi lançado também o Science Panel for the Global Energy Transition (SPGET), um painel científico independente para garantir que o rigor técnico prevaleça sobre as conveniências políticas.
O Brasil propôs seu roadmap ainda em 2025. Contudo, o cenário doméstico é desafiador: a corrida eleitoral de 2026 esvaziou o grupo de trabalho, com três dos quatro ministros articuladores deixando seus cargos para concorrer nas urnas.
A próxima conferência será em Tuvalu, com copresidência da Irlanda. Santa Marta demonstrou que, quando atores alinhados estão na mesma sala, o progresso é possível. Para o Brasil, o desafio é provar que a liderança demonstrada em Belém não foi apenas retórica, mas um compromisso de Estado.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: