Conflito no Irã eleva preço da gasolina nos EUA: no Brasil vai subir também?
Os conflitos no Irã, que entraram no sexto dia nesta quinta-feira, 5, já provocaram efeitos concretos sobre os preços da gasolina nos Estados Unidos. A dinâmica reacende30 no cenário doméstico o temor de possíveis impactos dos confrontos no Oriente Médio no Brasil.
Segundo uma reportagem do Financial Times, a escalada militar envolvendo EUA, Israel e Irã fez os valores nas bombas dispararem e elevou o receio de um aumento inflacionário.
Dados da associação automotiva americana, citados pelo jornal, apontam que o preço médio da gasolina comum subiu para US$ 3,109 por galão na terça, 3, ante US$ 2,951 uma semana antes — e acima do nível registrado no fim do governo do ex-presidente Joe Biden.
A alta reflete interrupções no fornecimento global de petróleo bruto após os ataques de EUA e Israel ao Irã e a contraofensiva de Teerã. "O que aconteceu nas últimas 72 horas é altamente inflacionário", afirmou ao FT Tom Kloza, analista da Gulf Oil.
Na avaliação do especialista, os preços do combustível podem atingir entre US$ 3,25 e US$ 3,50 por galão nos próximos dias. Os contratos futuros de gasolina RBOB também avançaram para US$ 2,50 por galão, ante cerca de US$ 2,30 no fim da semana passada, indicando novas pressões.
Até o momento, os preços da gasolina têm variado significativamente entre os estados, indo de US$ 2,624 por galão em Oklahoma a US$ 4,674 na Califórnia. Eles permanecem, porém, abaixo dos picos superiores a US$ 5 registrados após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
Ainda assim, para muitas famílias americanas, a gasolina é o indicador mais tangível da inflação. "Se chegar a US$ 3,50 ou US$ 4, certamente terá impacto sobre uma grande parcela da população", disse Ed Morse, assessor sênior da Hartree Partners ao jornal, destacando que 40% da economia é composta por pessoas que vivem de salário em salário.
Por que a gasolina sobe nos EUA?
O contexto geopolítico ajuda a explicar a reação. O conflito deflagrado no último sábado, 27, ocorre em uma das principais regiões produtoras de petróleo do mundo.
Arábia Saudita, Iraque, Irã, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar estão entre os maiores produtores globais. E cerca de 20% do consumo diário mundial de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz — uma faixa de aproximadamente 33 quilômetros em seu ponto mais estreito — que foi declarado fechado pela Guarda Revolucionária do Irã, elevando o risco de choque de oferta.
De acordo com Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, o repasse rápido nos EUA tem relação direta com o desenho do mercado no país. "Lá é bem competitivo. Distribuidoras e redes de postos compram das tradings com base nos preços negociados, e isso é reajustado em horas ou dias", afirma.
Cruz explica que apesar de o combustível atualmente estocado tenha sido adquirido a preços mais baixos, os agentes antecipam o custo do produto que chegará nas semanas seguintes e já ajustam as bombas.
"Não é que o que está sendo abastecido agora esteja mais caro, mas o que vai chegar na semana que vem ou no mês que vem já vai ser mais caro, então ele já repassa", diz. Quando os preços caem, ainda segundo o analista, o movimento costuma ser mais lento, ampliando margens, uma prática comum em mercados competitivos.
O preço da gasolina pode subir no Brasil?
O modelo americano contrasta, contudo, com o brasileiro. Enquanto nos EUA há várias empresas operando refinarias e distribuidoras e os reajustes são baseados nas cotações futuras negociadas na Nymex, no Brasil o mercado é concentrado na Petrobras. "Aqui você depende muito do que a Petrobras vai fazer. Não temos esse reajuste muito rápido", afirma Cruz.
Ele lembra que, entre 2011 e 2015, a estatal segurou preços para conter a inflação doméstica, acumulando prejuízos bilionários. Mas desde o governo Temer, em meados de 2026, a estatal passou a adotar uma política de paridade internacional dos preços, ainda que com alguma defasagem para reduzir volatilidade.
Dessa forma, mesmo que o petróleo suba, o impacto na bomba tende a ocorrer com defasagem no Brasil.
Paulo Feldmann, professor da FIA Business School, observa que há um intervalo entre a alta da commodity e a chegada do produto refinado ao consumidor. "Esse tempo varia de, na melhor das hipóteses, uma semana até três semanas", afirma.
O repasse também não é integral, de acordo com o professor. Se o petróleo subir entre 4% e 5%, o efeito final na gasolina tende a ficar entre 3,2% e 4%, cerca de 80% da variação original. Isso porque parte do custo do combustível não está diretamente ligada ao petróleo.
Ainda assim, Feldmann destaca que gasolina e diesel têm efeito disseminado na economia brasileira. Um aumento, nesse caso, afetaria o transporte de mercadorias, alimentos, medicamentos e praticamente toda a cadeia produtiva.
"E, portanto, isso acaba afetando o orçamento das famílias, mas é claro que famílias de baixa renda sofrem muito mais", diz o professor.
Danilo Coelho, economista especializado em investimentos, pondera ainda que, embora o Irã seja grande exportador, boa parte de seu petróleo tem como destino a China, o que pode limitar o impacto global inicial. Ele também considera que a Petrobras possa absorver parte do choque para evitar repasses integrais.
"É provável, principalmente por este ser um ano eleitoral, que o aumento do petróleo não seja repassado na íntegra para a gasolina no Brasil e boa parte disso seja absorvido pela própria Petrobras, ela segurando os preços, utilizando boa parte do operacional dela, e aí isso não impacte diretamente no resultado final para o consumidor", afirma Coelho.
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