Conflito no Oriente Médio pressiona preços globais de alimentos, alerta a FAO
A escalada do conflito no Oriente Médio já começou a pesar no bolso e no prato do consumidor em todo o mundo.
Pelo segundo mês consecutivo, os preços globais dos alimentos registraram alta, impulsionados diretamente pelos custos crescentes de energia e frete decorrentes da guerra. O Índice de Preços de Alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) subiu 2,4% em março, em um sinal de que as ondas de choque geopolíticas estão atingindo as cadeias de suprimentos mais essenciais.
A alta foi liderada por óleos vegetais, açúcar e cereais. Embora o índice geral ainda esteja cerca de 20% abaixo do pico histórico visto no início da guerra da Ucrânia, em março de 2022, a tendência de alta acende um alerta para a inflação e a segurança alimentar nos próximos meses.
O impacto imediato só não foi mais severo porque os estoques globais de grãos, em níveis considerados confortáveis, funcionaram como um amortecedor inicial contra a volatilidade.
O efeito dominó nos insumos
A principal engrenagem por trás da alta de preços é a disrupção logística e o encarecimento de insumos vitais para o agronegócio.
O fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais artérias do comércio marítimo global, interrompeu o fluxo de cerca de um terço da produção mundial de fertilizantes. Sem acesso a esses insumos, ou com acesso a custos proibitivos, a produção agrícola global fica ameaçada.
A FAO adverte que, se o conflito se estender por mais de 40 dias, agricultores ao redor do mundo podem ser forçados a reduzir o uso de fertilizantes ou diminuir a área plantada. O resultado seria uma quebra nas safras futuras, perpetuando a pressão sobre os preços em 2027.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) ecoa a preocupação, projetando que os preços globais podem ficar, em média, de 15% a 20% mais altos no primeiro semestre de 2026 se a crise persistir.
“Embora a guerra molde a economia global de diferentes maneiras, [todos os caminhos levam a preços mais altos e crescimento mais lento”, afirmou o FMI em um comunicado assinado por seus principais economistas.
Os dados de março já refletem essa realidade. O índice de óleos vegetais subiu 5,1%, com o óleo de palma atingindo seu maior valor desde meados de 2022. A alta do petróleo bruto eleva a demanda por biocombustíveis, puxando os preços.
O açúcar avançou 7,2%, com a expectativa de que o Brasil, maior exportador mundial, desvie mais cana para a produção de etanol. Já o índice de cereais subiu 1,5%, com o trigo saltando 4,3% devido a secas nos Estados Unidos e à previsão de menor plantio na Austrália.
O dilema para os bancos centrais
A inflação de alimentos representa um desafio particularmente complexo para os bancos centrais. Diferente da energia, cujos preços são voláteis, os custos dos alimentos têm um impacto mais persistente e psicologicamente relevante sobre as expectativas de inflação da população. Afinal, as famílias podem adiar a troca de um eletrônico, mas não podem deixar de comer.
Analistas da Reuters Breakingviews apontam que a inflação de alimentos costuma ser o "gosto amargo" que permanece após o choque inicial da energia.
Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), afirmou recentemente que sua principal preocupação é a duração desses efeitos e como eles se espalham pela economia, gerando uma segunda onda inflacionária à medida que trabalhadores buscam reajustes salariais para compensar a perda de poder de compra.
O problema é que a ferramenta tradicional dos bancos centrais, o aumento da taxa de juros, é pouco eficaz para combater uma inflação de oferta causada pela escassez de commodities. Pior, ao encarecer o crédito, a medida pode até agravar a situação para os produtores rurais, elevando seus custos de produção e, consequentemente, os preços finais.
No Brasil, governo busca um escudo
Enquanto o cenário global se deteriora, o governo brasileiro tenta costurar medidas para mitigar o impacto interno, especialmente no preço do diesel, um componente crucial para o escoamento da safra e para a logística do país. O Ministério da Fazenda negocia com os estados um subsídio de 1,20 real por litro de diesel, cujo custo seria dividido igualmente entre a União e os governos estaduais.
No entanto, a proposta enfrenta resistência.
Quatro estados ainda não deram aval à medida, e a falta de unanimidade pode comprometer o modelo de compensação. A complexidade operacional é alta, já que o combustível importado entra por poucos portos e é distribuído nacionalmente, dificultando rastrear o destino final para aplicar o subsídio de forma justa entre os estados participantes.
O Ministério de Minas e Energia afirmou que as medidas seriam temporárias e excepcionais, visando administrar um choque de preços externo.
Além do diesel, há grande preocupação com o gás de cozinha (GLP), cujo fornecimento depende em cerca de 20% de importações e tem um peso social significativo.
Ainda que o Brasil seja uma potência agrícola, ele não está imune às turbulências globais. O aumento dos preços internacionais de soja e açúcar já beneficia os exportadores, mas a pressão sobre os custos de frete e insumos ameaça corroer as margens e, no fim da cadeia, chegar à mesa do consumidor.
A busca por um escudo contra a crise externa revela as dificuldades de coordenação interna e os desafios de equilibrar as contas públicas com a necessidade de proteger a população de um choque inflacionário.
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