Conheça a família chinesa que fatura R$ 1,2 bilhão com carros no Brasil
Antes de vender SUVs de quase meio milhão de reais em São Paulo, a família Tsung vendia tecido no norte da China — com a ajuda de máquinas da Toyota. A conexão entre as empresas existe há 88 anos. Atravessou guerras, continentes e gerações para dar origem a um grupo de concessionárias que projeta faturar R$ 1,2 bilhão no Brasil.
No centro dessa trajetória está Richard Tsung, atual presidente do conselho do Grupo T-Line, que transformou uma herança industrial em um negócio alinhado às novas demandas da mobilidade.
“Meu avô começou com máquinas da Toyota na indústria têxtil. Quando a empresa entrou no setor automotivo, nós fomos junto”, diz o empresário, que faz parte da segunda geração da família que comanda a empresa.
A virada mais recente do grupo acompanha uma mudança estrutural do mercado: a eletrificação dos veículos. É esse movimento que sustenta a nova fase de crescimento — e ajuda a explicar o salto nas projeções financeiras.
Qual é a estrutura do Grupo T-Line
O Grupo T-Line fechou o último ano com faturamento de R$ 590 milhões. Já a operação paralela, conduzida em sociedade sob o nome de Aliança — responsável pela venda de marcas chinesas e pela Kia, da Coreia do Sul — movimentou R$ 461 milhões no mesmo período.
Para este ano, as duas empresas somadas devem ultrapassar R$ 1,2 bilhão em receita, com R$ 600 milhões vindos de cada frente.
Segundo Tsung, o crescimento vem, principalmente, da demanda por veículos eletrificados, que ganhou tração em grandes centros como São Paulo.
“Tem dois fatores importantes: a isenção do rodízio (de carros que ocorre em São Paulo) e a eficiência energética. Além disso, o aumento do combustível impulsionou muito a procura por carros elétricos e híbridos”, afirma Tsung.
Expansão com marcas e novos mercados
A trajetória do grupo no Brasil como rede de concessionárias começou em 1992, com a abertura das importações na época. Desde então, a empresa expandiu seu portfólio: começou com a Toyota, incorporou a Jeep, trouxe a Ram em 2023 e, mais recentemente, passou a atuar com a BYD.
Hoje, a T-Line opera diretamente com Toyota, Jeep e Ram em cidades como São Paulo, São José dos Campos e Caraguatatuba. Já a Aliança concentra as operações de marcas como BYD e Kia no interior paulista.
O próximo passo, segundo Tsung, é a expansão da rede de concessionárias voltadas a marcas chinesa. Atualmente, são cinco unidades — e a meta é dobrar esse número até 2028, com foco em regiões ligadas ao agronegócio.
Richard Tsung, atual presidente do conselho do Grupo T-Line: empresa quer dobrar número de lojas até 2028 (Grupo T-Line/Divulgação)
A aposta nos elétricos
A entrada das marcas chinesas não é apenas diversificação — é estratégia. O grupo surfa uma onda de crescimento acelerado dos veículos eletrificados no país.
Além da demanda crescente, há fatores estruturais que favorecem esse mercado, especialmente em grandes cidades.
Esse movimento também chega à própria Toyota. O grupo se prepara para vender, ainda neste semestre, o primeiro carro 100% elétrico da montadora no Brasil, o modelo BZ4x, importado do Japão.
Megaloja como vitrine do futuro
Parte dessa nova fase está materializada na recém-inaugurada concessionária na Avenida Washington Luís, em São Paulo — considerada a maior da Toyota na América Latina.
O espaço recebeu investimento de R$ 13 milhões e foi pensado para ir além da venda de veículos. A unidade inclui área de coworking para clientes, bar temático japonês e um sistema de manutenção acelerada chamado DuoTec, no qual dois técnicos trabalham simultaneamente no mesmo carro.
Na prática, isso reduz o tempo de uma revisão de cerca de uma hora para até 30 minutos.
“Hoje, o cliente quer conveniência. Ele não quer deixar o carro e voltar depois. Quer resolver tudo ali”, diz Tsung.
Os veículos vendidos no local variam de cerca de R$ 150 mil a R$ 490 mil, incluindo modelos como Corolla Cross, RAV4, Hilux e SW4.
Gestão familiar e próxima geração
Apesar da expansão e da diversificação, a empresa mantém sua característica familiar. Tsung hoje ocupa a presidência do conselho, enquanto a operação do dia a dia está nas mãos da sobrinha, Rachel Tsung, CEO do grupo.
A transição reflete um movimento comum em empresas familiares longevas: a combinação entre tradição e profissionalização da gestão.
O que vem pela frente
Com cerca de 300 funcionários somando as duas operações, o Grupo T-Line entra em um novo ciclo de crescimento apoiado em três frentes: expansão geográfica, ampliação do portfólio e avanço dos eletrificados.
Se no passado a empresa cresceu acompanhando a evolução da Toyota, agora aposta em um cenário mais diverso — e competitivo — para sustentar seu próximo salto.
Segundo o Tsung, a relação iniciada com máquinas de tear há quase um século ainda deve render muitos quilômetros pela frente.
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