Crédito sustenta atividade mais forte no Brasil no 1º tri, diz Pessoa
A economia brasileira tem mostrado mais força do que o esperado nesse primeiro trimestre, impulsionada por medidas de crédito e estímulo adotadas pelo governo, segundo Samuel Pessoa. O economista analisou os indicadores economicos nesse início de ano no Macro em Pauta da EXAME.
Mesmo com juros elevados, indicadores de atividade, mercado de trabalho e consumo vêm surpreendendo positivamente.
“As divulgações domésticas surpreenderam na ponta de atividade mais fortes”, afirmou.
Para o economista, esse desempenho está diretamente ligado à expansão do crédito e à atuação da política fiscal nos últimos meses.
Segundo ele, parte relevante dessa dinâmica vem de medidas que aumentaram o acesso ao financiamento, especialmente para famílias.
Um dos principais exemplos é o consignado para trabalhadores CLT, que utiliza a multa do Fundo de Garantis GTS como garantia e reduz o risco das operações para os bancos.
“A gente tem visto nos dados que esse crédito está pegando na economia”, disse.
Na avaliação de Pessoa, a combinação entre crédito mais acessível e aumento de gastos públicos ajuda a explicar por que a atividade tem se mostrado mais resiliente do que o esperado no início do ciclo de alta de juros.
Como o crédito impulsiona a atividade
Na prática, a ampliação do crédito atua como um canal direto de estímulo à demanda. Ao facilitar o acesso a financiamento, famílias conseguem antecipar consumo mesmo em um ambiente de juros elevados.
Isso ocorre porque parte relevante das decisões de gasto — como compra de bens duráveis ou imóveis — depende menos da taxa básica de juros e mais das condições de crédito disponíveis.
Além do consignado, outras iniciativas também reforçam esse movimento, como a ampliação da faixa de acesso ao programa habitacional Minha Casa Minha Vida e medidas de renegociação de dívidas, como o Desenrola, que ajudam a liberar renda e reduzir o comprometimento financeiro das famílias.
Para Pessoa, esse conjunto de fatores tem compensado, ao menos em parte, o efeito contracionista da política monetária.
Segundo ele, essa força adicional pode estar associada justamente à combinação entre estímulo fiscal e expansão do crédito, que mantém a demanda aquecida.
Efeito colateral: pressão sobre juros
O impacto, no entanto, cria um desafio para o Banco Central. Ao sustentar o nível de atividade, o crédito reduz a velocidade com que a economia desacelera — e, com isso, diminui a eficácia dos juros elevados no controle da inflação.
Na prática, quanto mais forte a demanda, maior a necessidade de manter uma política monetária restritiva por mais tempo.
“A política fiscal não está sincronizada com a monetária”, disse.
Segundo Pessoa, esse desalinhamento entre estímulo ao consumo e controle inflacionário tende a exigir maior cautela na condução dos juros. O resultado é um cenário em que a queda da Selic pode ocorrer de forma mais gradual, à medida que o Banco Central busca equilibrar o ritmo da atividade com a trajetória da inflação.
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