Crise climática: brasileiros cobram mais governos e empresas, diz Ipsos

Por Letícia Ozório 24 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Crise climática: brasileiros cobram mais governos e empresas, diz Ipsos

A percepção de que o combate à crise climática depende da ação individual perdeu força nos últimos cinco anos, segundo um relatório da Ipsos realizado em 31 países.

O movimento, porém, não é lido pela pesquisa como sinal de desinteresse diante do tema, mas como reflexo de uma cobrança crescente para que governos e empresas assumam papel mais decisivo na resposta ao aquecimento global.

No Brasil, 70% dos entrevistados afirmam que é preciso agir agora contra as mudanças climáticas para não comprometer as futuras gerações. O índice ainda é elevado, mas representa uma queda de 7 pontos percentuais em relação a 2021. Entre os países acompanhados desde então, a maior retração foi registrada na Polônia, com 29 pontos. Na média global, 61% defendem ação imediata.

A leitura da Ipsos é de que houve uma mudança na forma como a responsabilidade é distribuída. Se antes o discurso da ação individual ocupava espaço central, agora ganha força a expectativa de que a resposta venha de estruturas com maior capacidade de decisão e investimento.

“Os cidadãos estão, cada vez mais, buscando a liderança dos governos e das empresas, por entenderem que o peso da ação não pode recair apenas sobre os indivíduos. Nesse sentido, os dados nos mostram não uma história de indiferença, mas de exaustão e mudança de expectativas", afirma Priscilla Branco, Diretora de Opinião Pública da Ipsos no Brasil.

Combate às mudanças climáticas

Essa cobrança aparece de forma clara no recorte brasileiro. Segundo o levantamento, 71% dizem que o país deveria fazer mais para enfrentar a crise climática, acima da média global, de 59%.

O percentual é mais alto entre os Baby Boomers, grupo em que chega a 77%, e menor entre integrantes da geração Z, com 67%. Entre as mulheres, a cobrança também é maior do que entre os homens: 75% ante 66%.

O levantamento mostra ainda uma diferença importante entre países de renda média e nações mais ricas. Nos primeiros, 71% defendem que mais medidas sejam tomadas. Já nos países de alta renda, esse índice cai para 53%, apesar de essas economias concentrarem, historicamente, maior responsabilidade pelas causas das mudanças climáticas.

Ao mesmo tempo, a confiança na liderança dos governos segue baixa. Em 31 países, apenas 27% dos entrevistados concordam que seus países atuam como líderes globais no combate às mudanças climáticas, enquanto 34% discordam dessa afirmação. No Brasil, 34% veem o país nessa posição e 31% discordam. A percepção de planejamento também aparece dividida: 33% dos brasileiros afirmam enxergar um plano governamental claro para enfrentar o problema.

Transição energética

O relatório também dedica atenção ao peso crescente da transição energética sobre a percepção pública. A discussão, segundo a pesquisa, deixou de ser apenas ambiental e passou a reunir dilemas de custo, segurança e sustentabilidade. Em 31 países, 74% dos entrevistados dizem se preocupar com o aumento dos preços da energia.

“A transição energética deixou de ser um cenário futuro e se tornou o principal desafio econômico e de segurança da atualidade. Desde choques recordes nos preços do petróleo até o aumento da demanda por eletricidade impulsionada pela inteligência artificial, as forças que estão remodelando os mercados globais de energia impactam simultaneamente famílias e economias”, analisa Priscilla.

Nesse cenário, 55% afirmam que seus países deveriam priorizar a autonomia energética, mesmo diante de custos mais altos, para garantir sustentabilidade e independência no futuro. Ainda assim, a sensação de insegurança permanece: apenas 46% acreditam que haverá eletricidade suficiente para atender à demanda futura, e 39% dizem temer apagões no próximo ano.

Ao mesmo tempo, metade dos entrevistados defende que os governos priorizem energia mais barata, ainda que isso signifique aumento das emissões. “Isso ressalta a tensão entre a ambição climática e as realidades econômicas das famílias, dado o aumento dos custos de energia”, afirma Priscilla.

Os dados também mostram que os efeitos extremos do clima seguem no centro das preocupações. Ondas de calor e tempestades devastadoras são citadas por 63% dos entrevistados como riscos para suas regiões no próximo ano. Na sequência aparecem secas, com 60%, e poluição do ar, com 59%.

Realizada entre 23 de janeiro e 6 de fevereiro de 2026, a pesquisa ouviu 23.704 adultos em 31 países. No Brasil, a amostra foi de cerca de 1.000 pessoas. Segundo a Ipsos, uma pesquisa com esse universo tem margem de erro de aproximadamente 3,5 pontos percentuais.

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