Crise da Raízen sinaliza mudança de ciclo para o etanol no Brasil; entenda
A euforia que marcou os investimentos no setor brasileiro de etanol começa a dar sinais de fragilidade à medida que a crise financeira da Raízen se aprofundam, de acordo com fontes consultadas pela Bloomberg.
A joint venture entre Shell e Cosan, uma das principais do setor, fechou um acordo para reestruturar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas, movimento que pode alterar a configuração da parceria e sinalizar uma mudança de ciclo para o biocombustível no país.
A companhia, criada em 2011, apostou em expansão acelerada, mas o aumento dos custos e os juros elevados pressionaram sua dívida.
Em documento judicial citado pela Bloomberg, a empresa reconheceu um descompasso entre a alta das despesas financeiras e a geração de receita dos investimentos.
A crise também tem reflexos societários. A Cosan deixou negociações para uma injeção de capital e pode ter sua participação diluída após divergências sobre uma proposta de reorganização dos negócios.
Além disso, a aposta em uma expansão rápida dos combustíveis renováveis não se confirmou no ritmo esperado, e este cenário coincide com a saída de investidores relevantes. A Louis Dreyfus vendeu sua unidade Biosev, enquanto a Bunge deixou uma joint venture com a BP.
A consultora sênior da J.Pacta e ex-executiva do setor de biocombustíveis da BP, Ana Bastos afirmou à Bloomberg que havia uma visão de que as energias renováveis cresceriam mais rapidamente e ocupariam um espaço maior, mas que esse avanço acabou levando mais tempo e sendo menor do que o esperado.
Pressões sobre preços e mercado
O setor também enfrenta mudanças estruturais, visto que a expansão do etanol de milho tem limitado os preços no mercado doméstico. O produto deve responder por até 28% da produção brasileira na safra atual, ante 21% no ciclo anterior, segundo dados citados pela Bloomberg. Ao mesmo tempo, as exportações seguem com peso reduzido.
Historicamente, as vendas externas não ultrapassaram 10% da produção e vêm perdendo participação, diante de barreiras regulatórias e maior competição internacional.
Já a concorrência entre etanol de cana e de milho deve se intensificar. "Em 2026, pela primeira vez, veremos competição e conflito entre os dois tipos de etanol", disse o presidente da SCA Brasil, Martinho Ono.
Ele pontuou, ainda, que haverá simultaneamente maior oferta de etanol de cana e crescimento do produto à base de milho.
Enquanto os desafios batem à porta, a política de preços da Petrobras tem limitado reajustes da gasolina e, como a maior parte da frota é flex, essa diferença reduz o incentivo ao consumo de biocombustíveis.
Isso porque o combustível fóssil ficaria mais competitivo, o que prejudicaria a demanda por etanol — principal produto da Raízen.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: