'Crise é uma certeza no Brasil', diz gestor que investe em empresas com dificuldades
Você investiria R$ 200 mil em um negócio que está mal financeiramente? Pois esse é o valor médio para se tornar cotista do novo fundo da 051 Capital, gestora especializada em investir em ativos sob estresse, também conhecidos como special situations. Parece contraintuitivo mas essa é lógica central de uma estratégia de investimento que vem crescendo no Brasil e encontra oportunidades justamente quando a economia piora.
O número de gestoras atuando no país atuando em special situations saltou de cinco, em 2015, para 51 em 2025, com cerca de R$ 13,4 bilhões disponíveis para investimento, de acordo monitoramento feito pela própria 051.
"Volta e meia tem algum tipo de crise, algum tipo de necessidade de capital nas empresas. Isso é quase uma certeza no Brasil", afirma diz Luciano Brochmann, sócio e gestor da 051 Capital. Desde a sua fundação, em 2018, a gestora vinha atuando como family office, estruturando produtos exclusivamente para clientes, como investidores de altíssima renda e tesourarias de bancos.
O novo fundo vai ser aberto para um público mais amplo, mesmo que ainda que restrito a bolsos maiores e acostumados a tomar mais risco.
O Special Situations IV é o quarto fundo da 051 focado em special situations. Nasce com R$ 250 milhões comprometidos pela própria gestora e pode captar até R$ 600 milhões de investidores externos, explica Brochmann. O prazo do investimento é de 10 anos, com chamadas de capital escalonadas ao longo dos três primeiros — o cotista não desembolsa tudo de uma vez, mas responde à medida que o fundo identifica oportunidades. O veículo projeta retorno de CDI + 12% ao ano.
A 051 não compra os ativos estressados diretamente. Ela estrutura fundos que compram cotas de outros fundos (o chamada FoF — ou fundo de fundos). O investimento direto no ativo é feito por casas especializadas em special situations, como JGP, Prisma, Quadra e Chimera. O FoF dilui o tíquete de acesso.
"A maioria desses ativos não estão sendo distribuídos em plataforma, nem em private de banco. E ainda que você seja um cliente muito grande e consiga ter acesso, provavelmente terá de assinar um cheque que vai te deixar muito concentrado em uma gestora só", explica o gestor.
Uma aposta no estresse alheio
Special situations é o nome dado a estratégias que buscam retorno em eventos extraordinários: empresas em recuperação judicial, reestruturações de dívida, fusões e aquisições, ativos precificados com desconto por complexidade jurídica ou falta de informação. A gestora entra onde outros saem — ou onde poucos conseguem entrar.
"O nosso juro real é muito alto. Isso comprime margem e balanço das empresas, gerando muita oportunidade, seja de empresa com necessidade de capital ou que já entrou em recuperação judicial", diz Brochmann.
O pipeline está bem aquecido e não é coisa de agora. "Sempre teve mercado. Até agora, não teve um mês que a gente deixou de alocar capital por falta de negócios", complementa o gestor Brochmann.
A forma como as cotas do novo fundo serão distribuídas para não-clientes da gestora ainda está sendo definida. A 051 avalia se vai ao mercado por distribuidor exclusivo, por múltiplos canais ou pela própria estrutura comercial.
O alvo são investidores profissionais, aqueles com portfólio acima de R$ 10 milhões, com perfil para tolerar falta de liquidez em troca de prêmio. "Nunca vai ser um investimento de massa", admite Brochmann. "Mas tem um grupo relevante de investidores que faz sentido ter uma parcela da carteira nessa classe."
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