Crise no Estreito de Ormuz pressiona custos e desafia soja do Brasil
A guerra no Oriente Médio já deixou de ser um evento distante para se tornar um fator decisivo dentro das fazendas brasileiras, principalmente para a soja. O aumento dos preços dos fertilizantes e o risco de interrupção no fornecimento estão forçando produtores a rever planos em pleno início das decisões para a safra 2026/27, mostra um estudo da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos.
O ponto de inflexão ocorreu no fim de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã. Desde então, o mercado global de insumos entrou em alerta. “O fechamento do Estreito de Ormuz tem repercussões nos mercados de energia, fertilizantes e commodities”, diz o estudo.
O impacto acontece justamente porque a região é responsável por escoar cerca de um terço dos fertilizantes transportados por via marítima, o que transforma qualquer instabilidade em choque imediato de preços e oferta. No caso do Irã, o país é um dos principais fornecedores globais de ureia, muito utilizado no plantio do milho.
O impacto da crise segue uma cadeia clara: tensão geopolítica, gargalo logístico e, por fim, alta de custos no campo. Os preços dos fertilizantes dispararam mais de 50% e já superam médias históricas, segundo o levantamento.
No Brasil, esse efeito chega mais rápido do que em outros países. Isso porque o calendário agrícola coloca os produtores no centro da turbulência exatamente agora. “As decisões usuais sobre fertilizantes para soja estão sendo tomadas neste momento”, diz a pesquisa.
E há um agravante estrutural: a dependência externa. O Brasil importa 85% dos insumos que utiliza. Na prática, isso significa que o produtor brasileiro está exposto tanto ao preço quanto ao risco físico de falta do produto.
Essa dependência se distribui entre diferentes nutrientes: o nitrogênio é importado principalmente na forma de ureia, com forte presença de Rússia e China; o fosfato depende de países como Marrocos e Rússia; e o potássio é fornecido por Canadá, Rússia e Bielorrússia.
Para o milho, o impacto imediato é menor porque a safra atual já foi plantada. Ainda assim, os preços da ureia e do fosfato também se aproximam de máximas históricas, o que pode influenciar as decisões para 2027.
Nos Estados Unidos, o cenário é mais equilibrado. A produção doméstica de nitrogênio e fosfato reduz o risco de desabastecimento, enquanto o potássio vem majoritariamente do Canadá, um parceiro estável. Essa diferença estrutural limita a exposição americana a choques como o atual — algo que não ocorre no Brasil.
Agro brasileiro
Se o choque já seria relevante por si só, o timing torna a situação ainda mais delicada. A compra de fertilizantes para a próxima safra ocorre entre fevereiro e maio, justamente durante a escalada do conflito.
E os números mostram cautela no campo. “Apenas cerca de 30% do volume estimado havia sido adquirido, abaixo da média dos últimos anos”, diz o estudo.
O produtor está comprando menos porque o fertilizante ficou relativamente mais caro. A relação de troca — que mede quantos grãos são necessários para adquirir o insumo — se deteriorou, especialmente no caso do fosfato, próximo do pior nível dos últimos cinco anos.
Isso coloca o agricultor diante de um dilema: comprar caro agora ou correr o risco de enfrentar escassez mais adiante. Tudo isso em um momento no qual o produtor precisa tomar decisões sobre o que plantar para a safra 2026/27, que começa em 1º de julho. O plantio da soja, por exemplo, começa em meados de setembro.
Nos EUA, por outro lado, boa parte dos insumos para a safra atual já havia sido adquirida antes da escalada do conflito, o que dá mais margem de manobra aos produtores americanos.
No Brasil, o problema vai além da compra. O conflito também elevou os preços do petróleo, impactando diretamente a logística. “O aumento nos preços do diesel. pressiona os custos logísticos”, aponta o estudo.
Como o transporte no país depende majoritariamente de caminhões[/grifar], o efeito se espalha por toda a cadeia — dos portos às lavouras e das lavouras à exportação.
O resultado é uma pressão dupla: custos mais altos e menor previsibilidade. No limite, isso pode afetar decisões de plantio, uso de insumos e produtividade, principalmente da soja, a principal commodity do país.
Segundo dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), o Brasil encerrou 2025 com exportações recordes de soja, totalizando 108 milhões de toneladas — alta de 11,7% em relação às 97 milhões de toneladas de 2024.
A China permaneceu como o principal destino, respondendo por 87,1 milhões de toneladas — o equivalente a 80% de todo o volume exportado. Para este ano, a Anec estima que os embarques de soja brasileira para a China devem ficar em torno de 77 milhões de toneladas.
Para 2026, o Brasil deve renovar o recorde de exportação de soja, com embarques estimados em 114 milhões de toneladas, segundo projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
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