Crise no Peru: por que o país teve 8 presidentes nos últimos 10 anos

Por Matheus Gonçalves 19 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Crise no Peru: por que o país teve 8 presidentes nos últimos 10 anos

Uma crise política no Peru que se alastra há anos no país resultou na deposição de todos os seus líderes, sem nenhum presidente eleito completar o mandato completo, de 5 anos, em quase uma década. José Jerí, até então presidente interino, foi o mais recente a ser afastado, nessa terça-feira, 17.

Na última década, a lista já soma 8 presidentes. O último líder eleito a cumprir seu mandato sem ser deposto deixou o poder em julho de 2016. Desde então, o tempo que presidentes passaram no poder variou entre alguns anos e poucos dias, marcado por governos interinos, protestos reprimidos violentamente e as mais baixas taxas de aprovação da América Latina.

Veja a lista dos últimos líderes do Peru, quanto tempo passaram no poder, e por que foram depostos:

Ollanta Humala (28 de julho de 2011 – 28 de julho de 2016: 1.827 dias)

A primeira-dama peruana Nadine Heredia (à esquerda) com Ollanta Humala (à direita) (Cris Bouroncle/AFP via Getty Images) (CRIS BOURONCLE/AFP/Getty Images)

Humala foi o último presidente peruano a completar seu mandato, que durou de 2011 a 2016. Por mais que tenha sido capaz de se manter todos os cinco anos no poder sem ser afastado, Humala já herdou um Peru politicamente fragmentado, e seu mandato foi marcado por divisões internas.

Em fevereiro de 2016, enquanto ainda estava no poder, Humala foi implicado em um depoimento pela Polícia Federal brasileira por ter aceitado subornos em contratos públicos pela Odebrecht. Em 2022, o ex-presidente e sua esposa passaram por julgamento sob acusações de lavagem de dinheiro relacionada a Odebrecht, e, em 2025, foi condenado junto a sua esposa a 15 anos de cadeia por seu envolvimento no escândalo.

Humala está preso em Barbadillo, enquanto sua esposa, Nadine Heredia, vive em Brasília sob asilo político com seu filho Samin Humala Heredia desde o veredito.

Pedro Pablo Kuczynski (28 de julho de 2016 – 23 de março de 2018: 601 dias)

O ex-presidente do Peru Pedro Pablo Kuczynski (Manuel Medir/Getty Images) (Manuel Medir/Getty Images)

Depois de Humala, veio Pedro Pablo Kuczynski, que se tornou o presidente mais velho do Peru ao assumir o cargo com 77 anos. Ao apontar apenas ministros de esquerda, seu governo ficou conhecido nas etapas iniciais como progressista e inclusivo, o que resultou na inimizade de conservadores que previamente o apoiaram, culminando em um voto de desconfiança contra todo o seu gabinete em 2017.

No mesmo ano, sua administração se tornou alvo de um processo de impeachment protagonizado pela oposição no Congresso sob alegações que o presidente teria perdido a “capacidade moral” para liderar o país após Kuczynski ter admitido receber pagamentos também da Odebrecht, enquanto era ministro da economia entre 2004 e 2005.

Apesar de Kuczyinski ter se mantido no poder, derrotando o voto de impeachment, um outro processo que se iniciaria em março de 2018 levaria ao fim do seu mandato, depois de um vídeo ter sido vazado de seus aliados tentando comprar votos contra o impeachment. No dia 21 de março, um dia antes da votação, o ex-presidente renunciou, deixando o cargo com seu vice, Martín Vizcarra, que assumiu no dia 23 de março.

Martín Vizcarra (23 de março de 2018 – 9 de novembro de 2020: 962 dias) e Manuel Merino (10-15 de novembro de 2020 – 5 dias)

Martín Vizcarra, ex-presidente do Peru (Miguel Yovera/Bloomberg via Getty Images) (Miguel Yovera/Bloomberg via Getty Images/Getty Images)

Ao assumir, Vizcarra protagonizou uma série de iniciativas contra a corrupção, propondo um referendo que buscava proibir financiamento privado para campanhas, banir a reeleição de legisladores e criar uma segunda câmara legislativa.

Suas iniciativas geraram uma sensação de esperança no povo e no Congresso, com Vizcarra sendo capaz de atrair a admiração até de rivais políticos que o criticavam. Todavia, outros legisladores buscaram prejudicar o referendo. Após uma breve luta política, todas as propostas foram aceitas, com exceção da criação de uma câmara adicional.

Após dissolver o parlamento em 2020 porque membros do Congresso estavam atrasando e adiando suas iniciativas contra a corrupção, Vizcarra viu a oposição contra ele crescer. Isso culminou em 2020, quando, durante a pandemia, o Peru se tornou o segundo país da América Latina com o maior número de casos. Vizcarra respondeu à emergência com um estado de lockdown implementado no dia 15 de março, fechando todos os negócios com exceção de serviços essenciais.

Com isso, o Peru viu a maior queda no PIB em 2020 entre economias grandes, com a cifra caindo mais de 30%. Taxas de emprego também caíram 40% em comparação ao mesmo período do ano anterior.

Assim, pressões políticas por parte de seus rivais no Congresso, em um cenário parlamentar composto majoritariamente por opositores, resultaram em um processo de impeachment em setembro de 2020, que Vizcarra venceu por 78 votos contra seu afastamento, e 32 a favor. A vitória se deu devido a alegações de que o protagonista do processo, Manuel Merino, que se tornaria presidente, estaria coordenando a formação de um novo gabinete com as Forças Armadas, o que custou seu apoio político.

Todavia, um outro processo de impeachment, protagonizado por legisladores de nove partidos da oposição, acusou Vizcarra de corrupção e má administração da pandemia. Esse voto passou com 105 votos (de possíveis 130) a favor do impeachment. Por mais que Vizcarra tenha considerado as acusações falsas e sem base, o ex-presidente aceitou o resultado e não buscou mais ações legais. Com isso, Merino se tornou presidente no dia 10 de novembro de 2020.

Até hoje, muitos consideram o processo como um golpe de Estado. Milhares de cidadãos protestaram contra o impeachment, e Merino renunciou ao cargo apenas 5 dias depois, no dia 15 de novembro. A repressão policial de 2020 foi intensa e violenta, com 3 mortes entre os civis por parte da polícia e mais dezenas de feridos.

Francisco Sagasti (17 de novembro de 2020 – 28 de julho de 2021: 253 dias)

Ex-presidente do Peru, Francisco Sagasti (Divulgação) (Presidencia Peru/Divulgação)

Assumindo após dois processos de impeachment contra o presidente e um mandato de cinco dias do vice, Francisco Sagasti emergiu ao cargo de presidente interino seguindo a linha de sucessão como segundo vice-presidente e foi capaz de concluir sua função como líder temporário sem ser deposto.

Em resposta a violenta repressão da polícia depois do impeachment de Vizcarra, Sagasti conduziu uma série de mudanças no alto comando da polícia. No total, 19 generais da polícia nacional foram afastados, o que resultou na renúncia do ministro do Interior, Rubén Vargas, que discordava das mudanças de Sagasti. O sucessor de Vargas renunciaria cinco dias depois, pelos mesmos motivos.

Por mais que a legalidade das mudanças de Sagasti tenha sido altamente questionada por outros oficiais do governo, incluindo Vizcarra, e por membros das forças armadas, o presidente interino foi bem-sucedido no controle da Covid-19, e conseguiu concluir seu papel sem ser deposto, saindo do poder logo após as eleições gerais de 2021, que ocorreram como planejado.

Por mais que Sagasti pudesse disputar as eleições presidenciais, seu partido elegeu outro candidato como representante, mas perdeu as eleições para Pedro Castillo.

Pedro Castillo (28 de julho de 2021 – 7 de dezembro de 2022: 497 dias)

Ex-presidente peruano, Pedro Castillo (Lucas Aguayo Araos/Anadolu Agency via Getty Images) (Lucas Aguayo Araos/Anadolu Agency/Getty Images)

Professor de formação, Castillo, que nasceu em uma família pobre, conseguiu embalo político como membro ativo de sindicatos e protestos em 2017. Ele buscou a Presidência ao ver as baixas condições de vida de seus alunos. Quando assumiu em 2021, ficou claro para observadores que tanto Castillo como seu partido não tinham experiência política nem uma direção clara para seguir.

Com o cenário político ainda fragmentado que herdaram, um total de quatro gabinetes foram formados e desfeitos, em meio a muitas controvérsias e alegações de corrupção contra o presidente e seus aliados.

Entre novembro de 2021 e fevereiro de 2022, Castillo foi alvo de dois processos de impeachment que defendiam que o presidente era “moralmente inadequado” para liderar o país. O processo foi alimentado por novas controvérsias ao redor de Castillo e seus aliados, como a descoberta de US$ 20.000 em dinheiro na casa de seu chefe de gabinete, Bruno Pacheco, que renunciou logo em seguida. Além disso, alegações contra Castillo também envolviam reuniões sem registro público.

Castillo foi capaz de vencer o primeiro processo por 76 votos contra 46 a favor. No ano seguinte, um novo processo sob as mesmas acusações foi iniciado, e dessa vez Castillo perdeu por 55 votos a favor a 54 contra, mas ele seguiu no cargo porque o impeachment exigia maioria mais ampla.

Em dezembro de 2022, com um terceiro processo de impeachment no horizonte, Castillo tentou se dar um “auto golpe”, dissolvendo o Congresso, impondo um toque de recolher e instaurando um estado de emergência governamental em todo o país. Congressistas viram as medidas como uma tentativa de cancelar o processo de impeachment, se qualificando como um golpe de estado. Pouco depois de anunciar as medidas, a maioria de seu parlamento renunciou e Castillo foi afastado do cargo depois que o processo de impeachment teve 101 votos a favor e apenas 6 contra.

Em 17 de novembro de 2023, Castillo foi condenado a 11 anos e 5 meses de prisão, pena que cumpre na prisão de Barbadillo, mesmo presídio de Ollanta Humala.

Dina Boluarte (7 de dezembro de 2022 – 10 de outubro de 2025: 1.038 dias) e José Jerí (10 de outubro de 2025 – 17 de fevereiro de 2026: 130 dias)

Dina Boluarte, ex-presidente do Peru (Getty Images). (Getty Images)

Vice presidente de Castillo, Boluarte se tornou a primeira mulher a assumir a presidência do Peru. Ela não apontou congressistas para seu gabinete – ao invés disso, apontou apenas membros controversos, como o advogado Pedro Miguel Angulo Arana, que enfrentou 13 investigações criminais desde que foi apontado. Além disso, tomou posse em meio a intensos protestos a favor de Castillo e contra ela, com os quais lidou mal.

Ao longo dos meses, sua governabilidade deteriorou-se, devido à crise de insegurança e aos protestos de diferentes setores. Muitos desses protestos foram protagonizados por jovens da Geração Z, com menos de 30 anos. A dura repressão aos atos deixou pelo menos 50 mortos, segundo organizações de direitos humanos. Com isso, diversas investigações foram lançadas contra a presidente.

A Procuradoria a investigava pelos excessos na repressão policial, além de outros dois processos: um por suposto abandono do cargo ao operar o nariz sem avisar ao Congresso, como determina a lei; e outro, pelo chamado Rolexgate, escândalo que estourou em 2024 quando apareceu com joias de luxo que não havia declarado em sua lista de bens.

Com isso, o Congresso do Peru aprovou, na madrugada do dia 10 de outubro de 2025, a destituição da presidente. Os deputados deram como motivo central de sua destituição uma “incapacidade moral permanente” para lidar com as fortes ondas de criminalidade que assolam o país.

Na sessão de impeachment, após aguardarem apenas 20 minutos pela presidente, convocada para apresentar sua defesa, parlamentares decidiram seguir em frente com o voto, que a depôs com maioria unânime e nenhuma abstenção. A equipe de defesa de Boluarte se recusou a participar do processo, que citou como ‘inconstitucional’.

Seu sucessor, o presidente interino José Jerí, foi destituído dessa terça, 18, após quatro meses no cargo. Jerí, de 39 anos, é investigado pelo Ministério Público em dois casos de suposto tráfico de influência. A saída ocorre a poucas semanas das eleições gerais marcadas para 12 de abril.

Jerí é alvo de investigação por suposto "tráfico de influência e patrocínio ilegal de interesses" depois de reunião com um empresário chinês que mantém negócios com o governo. Ele apareceu encapuzado em imagens de segurança vazadas e pediu desculpas por ter coberto o rosto.

Parlamentares da oposição também criticaram encontros noturnos com jovens em seu gabinete presidencial. Antes de assumir a presidência, Jerí foi acusado de agressão sexual. O caso foi posteriormente arquivado pelos promotores.

Um novo presidente interino do Peru será escolhido na noite desta quarta-feira, 18, pelo Congresso, para governar até julho, quando assumirá o vencedor das eleições presidenciais de 12 de abril.

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