Cuidado familiar afasta 33% das mulheres do mercado de trabalho, diz estudo
Enquanto um terço das mulheres acima dos 16 anos desiste de procurar empregos por conta dos cuidados familiares, esse é o caso de apenas 3,6% dos homens. A informação é de uma nova pesquisa da J-PAL, centro de estudos focado na redução da pobreza global e ganhador do Nobel de Economia de 2019.
O material, desenvolvido em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome e a Fiocruz, aponta que a dinâmica do cuidado familiar recaindo principalmente sobre as mulheres é um dos principais impactos para a sua autonomia econômica e a participação delas no mercado de trabalho.
Quanto maior a necessidade de cuidado da família, maior o efeito negativo sobre a carreira delas: o levantamento aponta que 85% das mães de crianças menores de três anos afirma que as responsabilidades domésticas e de cuidado são os motivos para não trabalhar. Para os homens pais de crianças da mesma idade, o percentual é de apenas 17%.
A gerente de políticas públicas e economista do J-PAL Ariana Britto afirmou que os dados revelam uma dimensão da desigualdade de gênero, agora refletida sobre o trabalho das mulheres. "A responsabilidade com os cuidados continua recaindo majoritariamente sobre as mulheres, tendo impactos diretos sobre suas oportunidades de trabalho, renda e desenvolvimento profissional", explica.
Economia do cuidado
De acordo com a pesquisa, o que motiva essa dinâmica desigual no equilíbrio entre relação familiar e trabalho é a estrutura que ainda domina a economia do cuidado no Brasil. Um dos dados notados é que as mulheres dedicam 21,6 horas semanas ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerado. Os homens, por outro lado, dedicam cerca de metade desse total, com 11,8 horas.
Essa divisão, de acordo com a pesquisadora da J-PAL, tem influência direta na participação das mulheres na economia. "Quando o cuidado recai quase que exclusivamente sobre as mulheres, isso limita a inserção delas no mercado de trabalho", explica.
O principal impacto é a reprodução de desigualdades econômicas e sociais ao longo da vida.
Desigualdade racial
De acordo com o levantamento, as mulheres negras são ainda mais sobrecarregadas pela dinâmica do cuidado familiar. Em 2022, elas trabalharam 75 horas a mais por ano em cuidados não remunerados na comparação com as mulheres brancas. Esse total equivale a uma semana e meia adicional de trabalho.
As mulheres negras, que representam 28,3% da população brasileira adulta, são responsáveis por quase 40% de todas as horas de trabalho de cuidados não remunerados no país, o que, de acordo com a pesquisadora, é prova de como a raça se torna um agravante em critérios de desigualdade.
"As mulheres negras acabam assumindo uma parcela ainda maior das responsabilidades de cuidado, muitas vezes em contextos de maior vulnerabilidade econômica", explica Britto.
O peso desse trabalho a mais recai ainda sobre a educação: 5,6% das jovens negras de 15 a 17 anos abandonam os estudos para priorizar o cuidado com a casa a e a família, enquanto esse é o caso para 3,2% das jovens brancas.
As trabalhadoras da economia do cuidado
A pesquisa aponta que dos 5,8 milhões de trabalhadores domésticos no país em 2024, 90% eram mulheres, sendo 68% de mulheres negras. Essa é a principal ocupação de 12% de todas as mulheres ativas no país e de quase 16% das mulheres pretas ou pardas.
A informalidade, no entanto, atrasa a garantia de direitos: 47% das trabalhadoras domésticas atuam como diaristas e 91% trabalham sem carteira assinada.
"A economia do cuidado envolve milhões de trabalhadoras no Brasil e é fundamental para o funcionamento das famílias e da própria economia. Ao mesmo tempo, ainda é um setor marcado por baixa valorização e altos níveis de informalidade”, conta Ariana Britto.
Para a pesquisadora, reconhecer o cuidado com um direito e organizar políticas públicas que possam garanti-lo é parte importante para reduzir desigualdades e construir uma sociedade mais justa, especialmente para as mulheres.
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