Da cadeia de valor ao impacto social: Instituto Heineken atinge 45 mil pessoas
45 mil pessoas atendidas: esse é o balanço do Instituto Heineken, braço social do Grupo Heineken, fabricante de bebidas, ao completar quatro anos de atuação no Brasil.
São catadores de material reciclável, vendedores ambulantes e jovens em situação de vulnerabilidade — públicos que fazem parte direta da cadeia de valor e de consumo da companhia e que, desde 2022, estão no centro de uma estratégia de inclusão produtiva com projetos em diferentes regiões do país.
A trajetória, contada com exclusividade para a EXAME, é construída sobre dois pilares. O primeiro envolve projetos de médio e longo prazo voltados à mobilidade social e à melhoria das condições de trabalho.
O segundo se ancora em grandes eventos patrocinados pela companhia, como festivais e datas como o Carnaval, onde catadores e ambulantes são integrados à operação — com pagamento de diária, alimentação, água e espaços de descanso.
"A soma desses dois pilares explica o alcance atual de mais de 45 mil beneficiários", diz Vania Guil, head do Instituto Heineken. O método, segundo ela, foi construído ao longo do tempo com muito teste e correção de rota. "Trabalhar com impacto social exige constante testagem de hipóteses, pois o Brasil tem realidades regionais muito distintas", explica. "Projetos que funcionam em uma região podem não funcionar em outra."
Foi a escuta ativa que permitiu navegar essa complexidade. "O maior acerto do Instituto foi colocar a escuta como elemento central e garantir que catadores, ambulantes e jovens participem do pensamento estratégico dos projetos. Isso evita distanciamento da realidade e permite correções de rota mais eficazes."
Perspectiva de futuro para jovens
Mais de 11 mil jovens entre 18 e 29 anos já foram alcançados pelo Instituto. O carro-chefe nesse eixo é o Cri.Ativos da Favela, desenvolvido em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA), Rock World e Favela Filmes, com formação em audiovisual, tecnologia e inteligência artificial.
A estratégia partiu de uma descoberta incômoda. "A partir da escuta dos jovens, o Instituto entendeu que o consumo nocivo de álcool está ligado à falta de perspectiva de futuro", explica Guil.
A resposta foi inverter a lógica. "Em vez de focar apenas em consumo responsável, passamos a investir em educação, desenvolvimento socioemocional e acesso ao mercado de trabalho." O WeLab, outro programa do portfólio, une autoconhecimento e conscientização sobre o tema.
Os resultados aparecem em histórias como a de Jaguar, 25 anos, ex-participante do Cri.Ativos. "Com o curso, consegui construir meu portfólio e acessar oportunidades no audiovisual em grandes players do mercado. Hoje, curso cinema e também atuo para levar o audiovisual a um papel social na minha comunidade", conta ele.
Cri.Ativos da Favela: programa capacita jovens em vulnerabilidade social; estratégia foca na inclusão produtiva como recursos contra consumo nocivo de álcool (Instituto Heineken/Divulgação)
Catadores desde o início da reciclagem
Para o Instituto, apoiar catadores não é apenas uma agenda de responsabilidade social, mas também uma iinciativa que se conecta com a agenda de sustentabilidade da fabricante de bebidas.
"Não existe reciclagem no Brasil sem os catadores", afirma Guil. "Apoiar esses profissionais é fundamental, especialmente porque a cadeia de consumo gera resíduos que dependem diretamente do trabalho deles. Não reconhecer ou não oferecer condições dignas a essa população é negar a sustentabilidade no país."
Para a head, a responsabilidade é compartilhada. "Não é possível dissociar sustentabilidade ambiental de justiça social. Essa responsabilidade é do setor privado, da sociedade e do governo", conta.
Mais de 19 mil catadores já foram apoiados, sobretudo pelo Conexão Cidadã, desenvolvido com a Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT). O projeto promove inclusão, mapeamento e acesso a documentação e benefícios sociais para um público historicamente invisibilizado.
A iniciativa parte de uma equipe multidisciplinar, formada por especialistas como assistentes sociais e psicólogos, focados na melhoria das condições de vida e trabalho dos catadores. Tudo isso acontece dentro de um trailer, que roda pelas cidades prestando atendimento de forma gratuita, desde a renovação de documentos até a implementação de políticas públicas assistenciais.
A ANCAT ainda oferece alguns de seus catadores associados como mobilizadores da ação, ajudando a reconhecer os problemas enfrentados pela comunidade e levando aos demais colegas as soluções oferecidas pelo programa.
Para Vânia, o maior desafio enfrentado pelo projeto é acompanhar os profissionais que circulam de forma itinerante. Por conta da natureza do trabalho, esse desencontro é uma dificuldade para estabelecer relações de confiança. “Ver a quantidade de catadores atendidos é uma alegria, porque sabemos que não é fácil a aproximação e a continuidade dessa relação”, explica Vânia.
Dona Geralda, participante do projeto, resume o que ele representa em sua vida. "Eu comecei a trabalhar muito nova, com oito anos, e naquela época eu não era ninguém, era tratada como lixo. Hoje, sou tratada como cidadã. E é isso que o projeto traz: cidadania para o catador que anda na cidade com tanto sofrimento", afirma.
Instituto Heineken: catadores de material reciclado e vendedores ambulantes estão entre os elos vulneráveis da cadeia de produção da cervejaria (Instituto Heineken/Divulgação)
Ambulantes: da informalidade ao protagonismo
Mais de 13 mil vendedores ambulantes foram beneficiados pelo programa Esse Verão é Meu, que oferece qualificação, estrutura e geração de renda em grandes eventos. Só no Carnaval de 2026, em Recife e Olinda, mais de 4 mil profissionais receberam apoio estruturado.
Além das iniciativas externas, o Instituto mobiliza os próprios colaboradores do Grupo Heineken. Desde 2022, mais de 5.900 voluntários participaram de ações voltadas à recuperação ambiental, promoção da diversidade e fortalecimento de comunidades.
Para os próximos anos, a ambição é escalar sem perder profundidade. "Após anos de testes e ajustes, o Instituto se sente preparado para ampliar parcerias com o setor público e privado, levando seus projetos a mais pessoas e territórios", diz Guil.
A lógica, segundo ela, não é de protagonismo isolado. "A ambição não é mudar o mundo sozinhos, mas provocar movimento, gerar discussões e chamar mais atores para a responsabilidade social. O objetivo é ampliar impacto, dar visibilidade às causas e integrar cada vez mais o social ao centro das decisões de negócio."
O ponto central da estratégia permanece o mesmo desde o início. "O trabalho é feito em parceria com ONGs que já atuam diretamente junto a catadores, ambulantes e jovens, ajudando a promover reconhecimento, inclusão e protagonismo", explica Guil. Permanece ainda o foco especial no acesso a direitos e políticas públicas, que muitas vezes existem, mas não são conhecidas ou acessíveis a essas pessoas.
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