CRÍTICA: O Diabo Veste Prada (e propósito) na otimista sequência de 2026
Atenção: o texto abaixo não contém spoilers. Leia tranquilo(a)!
Em 2006, uma geração inteira de futuros jornalistas saía dos cinemas de O Diabo Veste Prada com o sonho de vestir os sapatos de Andy Sachs e, quem sabe, herdar o império de Miranda Priestly. Parte dela, de fato, fez a faculdade de jornalismo e até entrou na redação das grandes revistas de moda. Duas décadas mais tarde, no entanto, a realidade não teve nada do glamour que ostentava a revista Runway. O cargo de Miranda virou lenda de museu e o idealismo de Andy foi soterrado pela urgência do clique. A realidade de hoje, na verdade, é muita inteligência artificial, briga por audiência, busca por relevância, banalização do conteúdo e redução de custos.
É nesse cenário pessimista, visto por muita gente como uma rua sem saída, que estreia nesta quinta-feira, 30, o otimista O Diabo Veste Prada 2. A sequência foi gravada 20 anos após o lançamento do original e, pelo bem da nostalgia — esse sentimento um tanto quanto rentável no cinema —, retornam às telonas a icônica Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci. O diretor, David Frankel, também é o mesmo do longa de 2006, assim como a roteirista, Aline Brosh McKenna.
A produção chega envolta em expectativa de relevância e bilheteria. Foram US$ 150 milhões investidos em 2026, contra os modestos US$ 35 milhões do original. O salto financeiro também vem acompanhado de uma nova era de parcerias: se há 20 anos as grifes temiam a ira de Anna Wintour (a diretora da Vogue em quem Miranda é inspirada) e fugiam do set, hoje elas se estrebucham por um segundo de tela.
Mas o gostoso de assistir ao filme tantos anos depois da estreia do primeiro, muito além do simples retorno por nostalgia, é o alívio de ver em tela uma sequência que faz sentido nos dias de hoje. Sem spoilers, é o melhor a ser dito do novo longa: O Diabo Veste Prada 2 é tão necessário nos dias de hoje. Quem diria?
Uma nova moda para um novo jornalismo
Ao melhor estilo do primeiro filme, que se tornou um clássico de atuação, o novo título chega às telonas como um espelho da transformação que o setor enfrentou nas últimas duas décadas. A premissa é que a fictícia revista Runway está em risco de extinção, e Miranda Priestly precisa achar um jeito de manter a moda (e o jornalismo) viva como um ato de resistência.
O problema é que tudo parece o contrário do que era. Ainda é a mesma redação e os mesmos cenários, mas o funcionamento de tudo respira por aparelhos.
Andy Sachs retorna como a nova editora de projetos especiais da revista, a princípio para recuperar a reputação do veículo após um escândalo. Eventualmente, ela entra na briga pela retomada da relevância ao lado de Nigel e Miranda.
É um bom motivo para filmar a sequência, em paralelo com todo o potencial financeiro que o filme certamente terá como retorno de bilheteria. Em 2006, o primeiro longa mostrava uma jovem idealista tentando encontrar sua voz em meio aos pedidos impossíveis de uma chefe tirana. Agora, Miranda paira ali como uma lembrança de um passado de glória, sem o respeito e nem o prestígio, em um presente em que o conteúdo pouco importa se ninguém o lê ou paga por ele.
Ver a personagem de Streep tão complacente com marcas e pessoas é um estranhamento por si só, mas reflete uma verdade dura que o jornalismo enfrenta nos últimos tempos. No mundo inteiro, jornais e revistas patinam descalços no gelo para encontrar uma estratégia para manter a relevância que resista à nova era tecnológica.
A sátira do filme, diante desse cenário, foi o jeito do cinema mostrar como o setor anda sobrevivendo na era dos algoritmos, sustentado pelos anunciantes e seus caprichos, como bem mostra a personagem de Emily Blunt à frente de uma gigante de luxo. É uma forma dúbia de dizer que a moda pela moda ocupa os dois espaços: o do glamour cultural, pelo qual O Diabo Veste Prada foi tão obsessivo, e o de financiador — para o bem e para o mal.
No meio desse enrosco, é interessante observar como toda a trama do filme é costurada pelos tecidos. O glamour e o fashion estampam, além das páginas da Runway, os figurinos das personagens e, sobretudo, os sentimentos que elas passam ao público a partir deles. É fashion, sim, mas com propósito.
O filme também explora como são muitas as camadas a serem sanadas para que o retorno da relevância nas revistas seja recuperado. É uma mímica da realidade: sites de busca priorizam os resumos feitos por inteligência artificial, que em sua maioria não são fidedignos à verdade, e encurtam o caminho para que o leitor tenha vontade de ler o resto da notícia. O papel, ainda que relevante, é lido por uma minoria.
O caminho otimista que O Diabo Veste Prada 2 encontrou como solução é relembrar que ninguém resiste a uma boa e autêntica história. Como foi o compromisso assumido nessa reportagem, não teremos spoilers, então coloco em outras palavras: foi o jeito bonito de dizer que o jornalismo ainda tem salvação e que, uma hora ou outra, vai reassumir o papel da relevância.
O papo necessário sobre a longevidade
Mensagem moralista à parte, o filme volta às telas em um formato bem divertido. Relembra os engraçados e desesperadores momentos entre Miranda, Andy e Emily, recria cenas icônicas do primeiro longa para os fãs mais astutos. E entrega atuação, como já era de se esperar.
Meryl Streep, aos 76 anos, revela uma Miranda transformada, mas jamais domesticada. O brilho desse filme é ter acesso à personagem de forma mais íntima em seus anseios e estratégias. É uma mulher experiente que entende que o mundo mudou, mas se recusa a aceitar a mediocridade (ainda bem!).
Anne Hathaway é outra que vestiu o salto com muito mais confiança, 20 anos após o primeiro filme. Já em outro patamar, ela traz uma maturidade cintilante para a Andy de 2026 que respeita e muito o impacto do primeiro roteiro. Aquela jovem que não sabia diferenciar cerulean azul de azul-celeste agora é uma profissional que entende o mundo e não se curva mais para ele.
Somadas a um elenco mais jovem, as duas também trazem uma baita discussão sobre longevidade, experiência e a relação entre as novas e antigas gerações. Do topo que é Miranda escorrem ensinamentos a Andy e, por consequência, às repórteres e até à estagiária presente no filme. É um manifesto sobre a importância da experiência em uma indústria que descarta o "velho" sempre que tem uma oportunidade.
Quanto à técnica, o orçamento de US$ 150 milhões faz diferença, sobretudo na fotografia e na trilha sonora. A câmera tem espaço para focar no que a moda tem de melhor: a textura. As cenas gravadas durante a semana de moda de Milão capturam o caimento dos tecidos e a audácia das cores com um cuidado que respeita o figurino de Marci Rodgers.
Já a trilha sonora é outro acerto, com vozes contemporâneas e sinfonias que conversam um bocado com as campanhas de moda que as grifes de luxo andaram divulgando nos últimos anos. É daquelas para ficar grudada na cabeça, mesmo. Não diga que não avisei.
Ainda que seja impossível não notar o excesso de marcas em cena e a onipresença da Diet Coke, do Starbucks e de marcas de alta-costura beirando o publicitário, diante de um roteiro claramente hollywoodiano, não há tanto incômodo. Até porque, ironicamente, essa "invasão" serve à metalinguagem do filme.
Em resumo, fica a sensação doce de que O Diabo Veste Prada 2 acertou muito na retomada. É divertido, autêntico, bem roteirizado e produzido para celebrar a nostalgia com muito respeito. Para quem trabalha com o setor, como eu, também se comporta uma carta de amor ácida ao jornalismo, escrita por quem conhece profundamente suas feridas.
E deixa a certeza: Miranda Priestly continua sendo o "diabo". Em um mundo de algoritmos sem rosto, no entanto, ela talvez seja a última voz humana que resta.
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