RWA: entre promessa e realidade, o que realmente sustenta a tokenização de ativos
Por Rodrigo Caggiano*
O avanço dos chamados ativos do mundo real tokenizados, conhecidos como RWAs (Real World Assets), trouxe uma nova narrativa para o mercado cripto. A ideia de levar ativos tradicionais para a blockchain parece, à primeira vista, inevitável. No entanto, quando analisamos casos concretos e dados recentes, fica claro que nem toda tokenização faz sentido e, mais importante, nem toda tokenização cria valor.
O mercado já começa a amadurecer nesse ponto. No Brasil, por exemplo, dados recentes do RWA Monitor, mostram que a tokenização já movimentou mais de R$ 410 milhões apenas no primeiro trimestre de 2026, com uma taxa média de retorno próxima de 18% ao ano, indicando não apenas interesse, mas execução efetiva.
A relação entre emissão e captação supera 95% em diversas estruturas, sinalizando que existe demanda real por esses ativos. Além disso, o uso se concentra em crédito privado de curto prazo, especialmente antecipação de recebíveis, o que mostra que a tokenização já resolve um problema concreto: acesso a capital para pequenas e médias empresas em um ambiente onde o crédito tradicional ainda é caro e burocrático.
No entanto, o sucesso do Brasil pode criar a falsa ilusão de uma tokenização global. Em determinados casos analisados no mercado asiático, estruturas completas foram construídas, com compliance, produto e tecnologia, mas sem compradores externos genuínos. Parte relevante da demanda vinha dos próprios emissores ou de estruturas relacionadas, evidenciando que o problema não estava na execução, mas na escolha do ativo.
Esse ponto é central para entender o futuro dos RWAs. Tokenizar um ativo não cria demanda por ele. No máximo, melhora o canal de distribuição. Quando não existe interesse real, a blockchain apenas expõe essa ausência com mais transparência. Por isso, qualquer discussão séria sobre RWAs precisa começar com uma pergunta simples: esse ativo realmente precisa ser tokenizado?
RWA não cria demanda apenas por ser tokenizado
A resposta passa por dois fatores fundamentais. O primeiro é o nível de fricção no acesso a esse ativo no sistema financeiro tradicional. Barreiras geográficas, restrições regulatórias, valores mínimos elevados e limitações operacionais aumentam o valor da tokenização. O segundo fator é a densidade de demanda. Quantas pessoas realmente querem exposição a esse ativo? E essa demanda é estrutural ou apenas especulativa?
Quando cruzamos esses dois eixos, surge um quadro mais claro. Ativos com alta demanda e alta fricção representam o espaço onde os RWAs fazem mais sentido. É nesse quadrante que a tokenização deixa de ser uma narrativa e passa a ser uma solução real.
Esse padrão já aparece em diferentes segmentos. Ativos que oferecem rendimento previsível ou exposição amplamente desejada (como o caso do ouro ou de ações de empresas americanas) mas que enfrentam barreiras de acesso, tendem a se beneficiar mais da tokenização. O valor não está no ativo em si, mas na redução de fricção. A blockchain funciona como uma nova infraestrutura de distribuição.
Por outro lado, ativos com alta demanda, mas baixa fricção, dificilmente se beneficiam de forma relevante. Se o acesso já é simples, barato e eficiente no sistema tradicional, a tokenização apenas muda o trilho e não cria valor adicional. Nesses casos, o crescimento tende a vir de mercados onde o acesso ainda é restrito, e não da tecnologia em si.
O cenário mais problemático aparece quando combinamos baixa demanda com alta fricção. Aqui, a tokenização se transforma em uma solução para um problema que não existe. Alguns ativos são difíceis de negociar simplesmente porque poucos investidores têm interesse neles. Levar esses ativos para a blockchain não resolve essa questão. Apenas transfere a falta de liquidez para um novo ambiente.
Desafios da tokenização
Além da escolha do ativo, existe um segundo filtro igualmente importante: o uso real dentro do ambiente on-chain. Não basta que o ativo seja desejado; ele precisa ter utilidade prática dentro da blockchain. E essa utilidade costuma se manifestar de três formas principais: como ativo para holding, como instrumento de negociação ou como peça de composição dentro de protocolos financeiros.
Quando um ativo consegue atender a esses três usos, ele tende a ganhar tração. Quanto mais cenários de uso coexistem, maior a probabilidade de gerar liquidez sustentável. Isso acontece porque diferentes perfis de participantes passam a interagir com o mesmo ativo.
Por outro lado, quando apenas um desses usos existe, o crescimento se torna limitado. Há exemplos claros de ativos que funcionam bem como instrumentos de negociação, mas não conseguem atrair investidores para holding ou integração em protocolos. Esse desequilíbrio cria um ciclo difícil de romper: sem liquidez, não há integração; sem integração, não há demanda adicional.
Muitos projetos ainda tratam liquidez como objetivo principal, quando na verdade ela surge apenas depois que o ativo encontra utilidade real. Sem casos de uso consistentes, qualquer tentativa de “forçar” liquidez tende a falhar.
Outro fator que limita o crescimento dos RWAs como uma economia global, sem fronteiras, está na própria infraestrutura. Diferente dos ativos nativos do universo cripto, ativos tokenizados dependem de conexões com o mundo real. Isso envolve desafios como precificação, atualização de dados e integração com sistemas externos. Em muitos casos, essas limitações reduzem a eficiência dos mercados e dificultam a formação de liquidez.
Além disso, há uma questão estrutural importante: a assimetria regulatória. Participantes em diferentes jurisdições enfrentam regras distintas ao interagir com o mesmo ativo tokenizado. Isso fragmenta a liquidez e impede que o mercado funcione de forma plenamente integrada.
Tokenização é um futuro que interage com o passado legado
Mesmo assim, o potencial dos RWAs permanece relevante.
O avanço da digitalização financeira, especialmente em mercados emergentes, mostra que existe espaço para soluções que reduzam fricções operacionais. Infraestruturas que integram originação, validação, distribuição e liquidação em um fluxo digital único já começam a transformar setores como crédito privado. Esse tipo de evolução aponta para um futuro onde a tokenização não será apenas uma camada tecnológica, mas parte de um sistema financeiro mais eficiente e programável.
No entanto, esse futuro não será uniforme. Diferentes classes de ativos terão trajetórias distintas, dependendo das fricções que enfrentam e da demanda que conseguem capturar. Alguns segmentos devem crescer de forma consistente, enquanto outros podem desaparecer à medida que o mercado se torna mais seletivo.
Tokenizar por tokenizar não basta. O mercado já começou a perceber isso. E, à medida que essa percepção se consolida, o setor deve sair de uma fase dominada por narrativas para um estágio mais pragmático, no qual apenas os ativos que realmente resolvem problemas sobrevivem.
*Rodrigo Caggiano é fundador da Capitare e do RWA Monitor
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