Datacenters avançam para o interior dos EUA e a população tenta freá-los
A expansão acelerada de datacenters de IA pelo interior da América do Norte está gerando conflitos entre moradores e grandes empresas de tecnologia.
De acordo com dados da plataforma Data Center Map, existem 4287 estruturas nos Estados Unidos, sendo 1500 deles em construção. Essa nova onda de investimentos tem uma diferença essencial daquilo que já existe no país. Ao passo que 87% dos datacenters em operação estão em áreas urbanas, 67% dos novos estão sendo construídos em áreas rurais.
Nessa frente de expansão, porém, as empresas de tecnologia têm encontrado resistência da população. Centenas de organizações em 42 estados dos EUA já se mobilizaram contra projetos em suas comunidades, segundo levantamento da Data Center Watch divulgado pela Wired.
Os casos se multiplicam. Nos estados de Montana e Utah, comunidades com poucos recursos políticos e jurídicos tentam frear obras bilionárias.
Um estudo de 2023 estimou que gerar entre dez e cinquenta respostas de tamanho médio em chatbots de IA consome meio litro de água. A Agência Internacional de Energia calculou que datacenters usaram 140 bilhões de litros de água globalmente só para resfriamento em 2023, segundo a CBC.
Do lado das empresas e governos, o argumento é de segurança nacional e competitividade econômica. "O potencial do que estamos criando é muito importante para a defesa e para a economia", disse o investidor Kevin O'Leary, que apoia a construção de um datacenter de 4 mil acres em Utah, à CNN. O governador do estado, Spencer Cox, foi na mesma direção: "Cada estado tem uma obrigação de permitir que esses datacenters sejam construídos."
Do lado dos moradores, a demanda é mais transparência, estudos independentes e tempo para avaliar o impacto antes que as obras comecem. Caroline Gleich, ativista ambiental de Utah, disse à emissora: "Vamos fazer um estudo de impacto ambiental e publicá-lo. Vamos colocar algumas coisas por escrito e dar à comunidade tempo para revisá-las."
Montana: campus de 5.000 acres e contrato sob sigilo
Em Broadview, cidade de cerca de 140 habitantes no interior de Montana, a empresa texana Quantica Infrastructure planeja construir um campus de datacenters de 5.000 acres, área equivalente a aproximadamente 20,2 km², segundo o New York Times.
O presidente-executivo da Quantica afirmou em um podcast que o complexo pode ter entre 12 e 16 edifícios, cada um com até 27 mil m². A NorthWestern Energy, maior distribuidora de energia de Montana, assinou uma carta de intenções para fornecer até 1.000 megawatts ao projeto.
Quando moradores tentaram acessar o documento em uma reunião pública, descobriram que ele estava quase todo censurado. De acordo com Anne Hedges, diretora do Centro de Informação Ambiental de Montana, a única parte legível era a cláusula que declarava o conteúdo confidencial.
A principal preocupação local é a água. Muitos moradores de Broadview dependem de poços com pressão tão baixa que não conseguem usar a máquina de lavar e tomar banho ao mesmo tempo. Dividir o aquífero com um complexo industrial de escala inédita é visto como inviável por parte da comunidade.
Tim Wipf, presidente da colônia hutterita Mountain View, que cria 160 vacas leiteiras, 19 mil galinhas e envia 1.800 suínos por semana para outros Estados, criticou o projeto diante dos comissários do condado. “Essas pessoas acham que somos ingênuos. Mas de onde elas acham que vêm os ovos e o leite?”
O representante local da Quantica, Jess Peterson, afirmou ao New York Times que a empresa atua com “completa transparência” e disse que os moradores precisam confiar que o projeto “será feito do jeito certo”. Questionado sobre empregos permanentes, citou estimativas que variaram entre 30, 40 e 100 vagas, em funções como limpeza, segurança e manutenção.
Mais recentemente, a Quantica ampliou seus planos. O campus passaria de 1.100 megawatts para mais de 7.000 megawatts de capacidade, mais do que a hidrelétrica Grand Coulee Dam, a maior dos Estados Unidos. Se for concluído, o projeto pode se tornar um dos maiores complexos de datacenters do mundo.
Utah: 9 gigawatts às margens de um lago em colapso
Em 4 de maio, a comissão do condado de Box Elder, no noroeste de Utah, aprovou por unanimidade o projeto Stratos, segundo a CNN. O plano prevê um campus de 40 mil acres, capacidade de 9 gigawatts de dados e uma usina a gás para abastecer a operação.
O projeto tem apoio de Kevin O’Leary e da Autoridade de Desenvolvimento de Instalações Militares de Utah, órgão criado pela legislatura estadual. A capacidade planejada equivale a mais do que o dobro da energia consumida pelo Estado de Utah em um ano.
O empreendimento ficará ao norte do Grande Lago Salgado, que vem encolhendo, em uma área usada como santuário por aves migratórias. Moradores apontam dois riscos principais: emissões e calor associados a um datacenter dessa escala e possível pressão adicional sobre a água da região.
Centenas de moradores participaram da reunião de aprovação, muitos em protesto. Segundo a CNN, a sessão ficou tensa, um comissário mandou o público “crescer” e os integrantes da comissão se retiraram para uma sala privada. A aprovação foi comunicada por livestream, transmissão ao vivo pela internet, para uma tela no saguão.
“A sensação avassaladora era de que não tínhamos informação suficiente”, disse à emissora Robert Davies, professor de física da Universidade Estadual de Utah. O’Leary chamou as preocupações de “ridículas” e prometeu investimentos em tecnologias para reduzir o uso de água.
Moradores de Box Elder iniciaram um processo para tentar incluir um referendo na cédula de novembro, o que poderia reverter a aprovação. A iniciativa exige mais de 5.000 assinaturas e está sob análise jurídica.
Os desenvolvedores, que já investiram cerca de US$ 20 milhões, esperam começar as obras preliminares no outono do hemisfério Norte e ter o primeiro gigawatt em operação em dois anos. O custo total pode ultrapassar US$ 100 bilhões.
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