Datafolha: 68 milhões vivem em bairros dominados por facções e milícias

Por André Martins 11 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Datafolha: 68 milhões vivem em bairros dominados por facções e milícias

Cerca de 68,7 milhões de brasileiros dizem viver em bairros com presença de facções criminosas ou milícias ligadas ao tráfico de drogas e outros crimes.

O dado faz parte de uma pesquisa do Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que investigou a percepção da população sobre a atuação do crime organizado no cotidiano das cidades brasileiras.

Segundo o levantamento, 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam reconhecer a presença de grupos criminosos organizados em seus bairros. Outros 51,1% disseram não identificar essa atuação, enquanto 7,2% afirmaram não saber responder.

Para o FBSP, os números indicam que a presença de facções e milícias deixou de ser percebida como fenômeno restrito a áreas periféricas ou grandes capitais e passou a integrar a experiência cotidiana de uma parcela significativa da população.

A pesquisa mostra ainda que a percepção sobre a presença desses grupos varia conforme o perfil territorial dos municípios. Nas capitais, 55,9% afirmam que há atuação de facções ou milícias nos bairros onde vivem. Nos municípios de regiões metropolitanas, o índice cai para 46%. Já nas cidades do interior, alcança 34,1%.

Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados reforçam um processo de interiorização e difusão territorial do crime organizado observado nos últimos anos.

O estudo aponta que facções como PCC e Comando Vermelho expandiram operações para cidades médias e pequenas a partir de rotas logísticas, alianças locais e disputa por mercados ilícitos.

O levantamento também mostra que a percepção da presença criminosa vai além da associação com violência armada ou tráfico de drogas.

Entre os entrevistados que reconhecem a atuação desses grupos, apenas 9% classificam essa presença como “nada visível”. Outros 43,4% dizem que ela é “pouco visível”, enquanto 21,1% consideram “visível” e 25,3% “muito visível”.

Na prática, os dados indicam que o crime organizado passou a influenciar hábitos cotidianos, circulação e relações sociais em parte dos bairros brasileiros.

Segundo a pesquisa, 81% dos entrevistados que vivem em áreas com presença desses grupos afirmam ter medo de ficar no meio de confrontos armados. Outros 74,9% evitam frequentar determinados locais e 65,2% mudam horários de circulação por receio da violência.

O impacto também aparece sobre o comportamento político e social. O estudo mostra que 59,5% evitam falar sobre política em seus bairros, enquanto 64,4% relatam medo de sofrer represálias ou punições por denunciar crimes.

Crime organizado influencia regras de convivência nos bairros

Outro dado central do levantamento aponta que 61,4% dos entrevistados que identificam a presença de facções ou milícias afirmam que esses grupos influenciam “muito” ou “moderadamente” as decisões e regras de convivência locais.

Para o FBSP, esse cenário se aproxima do conceito de governança criminal, expressão usada na literatura acadêmica para definir situações em que organizações criminosas passam a exercer controle social sobre territórios, impondo regras, restrições e padrões de comportamento.

O estudo afirma que, em muitos casos, a atuação desses grupos não depende necessariamente de presença ostensiva permanente, mas da capacidade de impor medo, restringir circulação e influenciar a rotina dos moradores.

A pesquisa também identificou aumento nos indicadores de vitimização entre pessoas que vivem em áreas onde há presença percebida de facções ou milícias.

Os maiores aumentos aparecem em crimes patrimoniais e episódios ligados à violência urbana. Entre moradores de bairros com presença do crime organizado, 21,4% relatam golpes financeiros pela internet ou celular, ante 15,8% da média nacional. Já os relatos de roubo ou assalto na rua sobem de 6,5% para 10,3%.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os dados sugerem que a presença do crime organizado funciona como marcador de intensificação da insegurança e da violência cotidiana, afetando tanto a circulação quanto as relações sociais e a percepção de proteção institucional nos territórios.

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