DDGS mira China e pode destravar mercado de R$ 7,8 bilhões para o agro do Brasil
As indústrias da soja, do milho e, mais recentemente, do sorgo tiveram, todas, um ponto de inflexão: adentrar o gigante mercado da China. Ao que tudo indica, o próximo produto a constar nessa restrita lista será o DDGS, ou os grãos secos de destilaria.
Em fevereiro, o Brasil embarca para o país asiático as primeiras toneladas do produto. Utilizado principalmente na nutrição animal, o DDGS é um coproduto da produção de etanol.
No processo de conversão do amido do milho em combustível, as partes restantes originam um farelo: o DDGS, ingrediente altamente nutritivo utilizado na alimentação de bovinos, suínos e aves.
E as expectativas do setor e do governo são altas, uma vez que a demanda de DDGS pela China é de 7 milhões de toneladas anuais — um mercado de pelo menos 7,8 bilhões de reais, considerando o preço médio de 1.120 reais por tonelada. É mais uma oportunidade no crescente setor de etanol de milho que, estima-se, movimentará 31 bilhões de reais em 2026.
Obviamente, essa demanda não será inteiramente preenchida pela produção nacional. Nem poderia: o país produzirá 4,8 milhões de toneladas de DDGS neste ano. Mas estimativas da União Nacional do Etanol de Milho (Unem) para a EXAME mostram que as exportações do produto devem ser de 2 milhões de toneladas em 2026, o que representaria um aumento de 123% em relação a 2025.
É nessa projeção otimista que aposta a Inpasa, maior produtora de etanol de milho da América Latina. Além de criar um laboratório especializado na análise do coproduto do milho, a empresa investiu 5 milhões de reais na Fortipro, sua marca de DDGS. “Não tratamos o DDGS como um subproduto. Desde a concepção, trabalhamos para garantir que ele seja reconhecido pela sua alta qualidade e pelo valor que agrega à nutrição animal”, afirma Gustavo Mariano, VP de trading da Inpasa.
A empresa já tem encomendas de 250.000 toneladas negociadas com a China, e espera ampliar esse dado para 1,5 milhão de toneladas de DDGS da empresa ainda em 2026. “Com o DDGS, a ideia não é apenas substituir o farelo de soja, mas oferecer um produto que combine as melhores características dos dois mundos — a proteína da soja e a energia do milho”, diz Mariano.
Mas o crescimento também tem seu ônus e traz à tona desafios estruturais do Brasil, como a logística. Para Paulo Bertolini, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), o país opera com duas safras principais do cereal: a primeira, de 26 milhões de toneladas, e a segunda, de 110 milhões.
Essa dinâmica exige capacidade de armazenagem para cobrir o intervalo entre os ciclos produtivos e garantir o fluxo contínuo de escoamento. A infraestrutura de armazenagem e transporte, ressalta, é fundamental para dar vazão ao produto. “Hoje, temos um déficit de 130 milhões de toneladas de capacidade de armazenagem”, afirma.
Apesar dos gargalos, o setor mantém o otimismo. A produção de DDGS no Brasil cresceu 269% desde 2020, e a projeção é de que o país alcance 4,8 milhões de toneladas em 2026 e até 6 milhões em 2030, segundo a União Nacional do Etanol de Milho (Unem). A entrada da China reforça essa perspectiva.
“A China é um gigante. Quando entra em um mercado, entra para ser o maior”, diz Renato Zicardi, diretor de Trading Internacional da Inpasa. Para o Brasil, abre-se uma nova oportunidade de, pelo menos, 7,8 bilhões de reais.
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