De conflito passageiro a choque duradouro: mercado muda leitura sobre a Guerra

Por Clara Assunção 25 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
De conflito passageiro a choque duradouro: mercado muda leitura sobre a Guerra

Prestes a completar um mês no próximo dia 28 de março, a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã vem deixando  de ser tratada pelo mercado como um ruído passageiro para ocupar um lugar mais central nas decisões de investimento.

No início do conflito, a leitura predominante era de um choque de curto prazo. A avaliação de gestores e bancos era de que, apesar da volatilidade inicial, o impacto seria temporário, com espaço para recuperação dos ativos ao longo das semanas seguintes, seguindo o padrão histórico de crises geopolíticas.

Mas esse cenário começou a mudar no último fim de semana. A escalada das tensões, com ameaças diretas ao Estreito de Ormuz e risco concreto de interrupção no fluxo global de petróleo, elevou o nível de alerta. O Brent voltou a superar US$ 112 por barril, enquanto crescia o temor de um choque de oferta com efeitos diretos sobre inflação e crescimento global.

Na segunda-feira, 23, houve uma reviravolta brusca por conta de declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, indicando o adiamento de ataques e mencionando conversas "produtivas" com o Irã, que desencadearam um forte movimento de "alívio". O petróleo despencou mais de 10%, bolsas globais subiram e o Ibovespa avançou mais de 3%, refletindo uma redução do risco imediato.

A trégua, porém, mostrou-se frágil e já nesta terça, 24, os mercados voltaram a operar sob pressão, com o petróleo subindo novamente após novos episódios de escalada, incluindo ataques a infraestrutura energética e retaliações militares.

O vai e vem dos preços evidencia um ambiente ainda dominado por incerteza e altamente sensível a qualquer manchete. No site de apostas Polymarket, a probabilidade de um cessar-fogo na guerra até o fim deste mês está em apenas 14% contra 74% dos que acreditam num acordo em 31 de dezembro. Nas casas de análise do mercado financeiro, a percepção também começa a mudar de forma mais consistente.

Mercado revisa prazo e teme crise mais duradoura

Em reunião com analistas realizadas na semana passada, o banco Santander identificou que o "tom das discussões mudou significativamente", com o conflito deixando de ser visto como um evento contido e passando a influenciar diretamente o posicionamento dos investidores e as premissas macroeconômicas.

"As conversas passaram de 'Com que rapidez isso se normalizará?' para 'E se isso não se normalizar tão cedo?'", afirmou em relatório Aline de Souza Cardoso, estrategista institucional de ações para o Brasil do Santander.

O cenário base da instituição ainda não é de ruptura permanente, mas de uma perturbação prolongada, especialmente no mercado de energia. Mesmo em um cenário benigno, o fluxo de petróleo pode levar meses para se normalizar, mantendo um prêmio geopolítico nos preços e sustentando a commodity em patamares mais elevados do que antes da guerra.

Esse ambiente pode resultar em crescimento global mais fraco, inflação mais persistente e decisões mais difíceis para bancos centrais, segundo o banco. No Brasil, isso já se traduz em uma mudança de expectativa, com menos espaço para cortes de juros diante da possibilidade de petróleo mais caro e pressão fiscal.

A mudança, ainda segundo Cardoso, também aparece no comportamento dos investidores. O Santander identifica uma redução clara de risco nas carteiras, com menor apetite para aproveitar quedas e maior seletividade nos investimentos.

"Até que haja maior visibilidade tanto na frente geopolítica quanto na resposta de políticas, as ações estarão mais focadas nos riscos do que nos retornos potenciais, em nossa opinião. Por enquanto, trata-se menos de buscar ganhos e mais de respeitar as extremidades — porque essas extremidades estão começando a deslocar o centro de gravidade", disse a estrategista.

A análise é corroborada por Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, que descreve o alívio observado na véspera como um movimento apenas tático. "O adiamento reduz o risco imediato, mas não resolve a origem do conflito, apenas empurra o problema para frente".

"O Irã se encontra hoje em uma posição em que provavelmente consiga demandar condições melhores do que seria capaz no início do conflito. Isso aumenta a probabilidade de arrastarem o conflito o quanto conseguirem, a fim de conseguirem as melhores condições possíveis em um eventual acordo", complementou Lima.

Confiança exagerada nos EUA e petróleo longe de uma volta ao normal: volatilidade como vencedora

Na mesma linha, Isabella Hass, analista de mercado internacional da W1 Capital, avalia que o mercado já começa a precificar efeitos mais estruturais, especialmente via inflação global.

"O que era um prêmio de risco temporário tornou-se uma preocupação estrutural com a inflação global. Hoje, o mercado já precifica que o Federal Reserve e o Copom terão menos espaço para cortes de juros em 2026", disse Hass.

A analista observa que, daiferente de tensões passadas, no conflito entre EUA, Israel e Irã, existe um impacto direto no custo de produção global, principalmente no mercado de energia. O que pode tornar a recuperação "mais lenta desta vez e condicionada à normalização do suprimento de energia".

"No entanto, é exatamente nessas janelas de volatilidade que se abrem as melhores janelas de oportunidade para o investidor estratégico", defende.

Enrico Cozzolino, CEO e estrategista chefe da Zermatt Partners, recomhece, contudo, que o mercado financeiro subestimou inicialmente a duração do choque diante do conflito. Agora, segundo o operador, a confiança dos investidores começa a se desgastar, ainda que os mercados sigam reagindo de forma intensa a qualquer sinal de alívio vindo dos Estados Unidos, como aconteceu nesta segunda.

"Isso revela confiança excessiva nos sinais dos EUA, impulsionada pelo medo de graves consequências econômicas — o Goldman Sachs estima que algumas economias do Golfo podem contrair 14% se o conflito continuar. Ao mesmo tempo que a volatilidade tem sido a grande vencedora e a maior aposta de confiança dos mercados", afirmou Cozzolino.

Já André Valério, do Inter, chama atenção para o mercado de petróleo, que ainda não refletiu integralmente os riscos. Segundo ele, a continuidade do conflito e as restrições no Estreito de Ormuz tendem a pressionar ainda mais os preços, com impacto prolongado sobre a oferta global.

"Uma eventual resolução do conflito via acordo demandará garantias firmes de que o Irã não será atacado novamente por Israel, que é outro ator do conflito com o qual o Trump também tem que coordenar eventuais recuos. Portanto, não vemos uma solução simples no curto prazo e esperamos que a volatilidade persista pelas próximas semanas", afirmou Valério.

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