De corretor a 'guru do retrofit': ele mudou o Centro de Porto Alegre ao reformar prédios abandonados
Quando decidiu não seguir carreira no Exército, Kleber Sobrinho decepcionou o pai e rompeu com um caminho planejado desde a infância para apostar em uma trajetória incerta. Filho de militar, ele foi preparado para ingressar na Academia das Agulhas Negras, mas mudou de rota ainda jovem, ao descobrir o interesse por vendas.
“Na formatura do colégio, comecei a vender ingressos e percebi que aquilo me dava resultado. Ali entendi que queria trabalhar com vendas”, afirma. A decisão provocou resistência dentro de casa. “Meu pai não aceitava. Ele dizia que tinha me preparado para uma carreira e eu estava jogando fora para virar vendedor", completa Sobrinho, que atuou como corretor de imóveis por mais de 10 anos antes de ser dono de edifícios inteiros.
Em 2021, Sobrinho construiu uma virada pouco comum no setor: saiu da corretagem para a incorporação imobiliária e hoje lidera a Recons, empresa especializada em retrofit de imóveis antigos no Centro Histórico de Porto Alegre. A construtora já reformou mais de 100 apartamentos e vem apostando na recuperação de edifícios antigos em uma região que, por anos, foi marcada pela degradação urbana e pela fuga de investimentos.
Como Sobrinho começou sua carreira
O início da carreira de Sobrinho foi marcado por improviso, tentativas e erros. Antes de chegar ao mercado imobiliário, ele buscou vagas como vendedor em classificados de jornal e chegou a trabalhar em uma loja onde foi contratado como segurança — mas insistia em vender. “Eu atendia clientes escondido, buscava produto no estoque e colocava a comissão no nome de outro vendedor. Eu só queria aprender a vender”, diz.
O primeiro emprego formal veio na venda de consórcios. Depois, um tio o levou para dentro de uma imobiliária. Ali, aos 19 anos, teve contato direto com a corretagem. A pressão por estabilidade, no entanto, pesou. Já pai aos 22 anos, decidiu interromper a carreira para buscar um emprego com carteira assinada. Virou operador de telemarketing no Centro de Porto Alegre. “A cobrança era muito grande. Eu precisava ter segurança, renda fixa.”
A volta veio em formato híbrido: trabalhava à noite no call center e atuava como corretor durante o dia.
“Eu estava tentando sobreviver. Não tinha glamour nenhum. Era trabalhar de manhã até a noite, todos os dias.”
Quando o Centro virou a "menina dos olhos"
Nos primeiros anos, Sobrinho atuou como corretor generalista, circulando por diferentes bairros da cidade. Com o tempo, começou a perceber um padrão: mesmo com a imagem desgastada, o Centro de Porto Alegre tinha liquidez.
“O Centro sempre vendeu. Quando aparecia um imóvel, ele girava. Isso me chamava atenção”, afirma.
A virada de chave veio em 2013, quando conseguiu abrir uma franquia da imobiliária em que trabalhava — justamente na região que ninguém queria. O contexto era adverso: o Centro enfrentava problemas de segurança, degradação e perda de relevância. “Era um bairro desacreditado. Tinha insegurança, pouca iluminação, prédio abandonado. Era difícil até montar equipe”, diz.
Ainda assim, Sobrinho enxergou uma oportunidade naquilo que outros viam como problema. “Eu via que tinha demanda, principalmente de pessoas que vinham do interior. Mas essas pessoas encontravam um produto ruim, imóveis abandonados, sem qualidade.”
A primeira estratégia foi atuar diretamente nesse desalinhamento. Sobrinho passou a comprar apartamentos antigos, reformá-los e revendê-los. O modelo rapidamente mostrou resultado. “Quando a gente qualificava o imóvel, ele vendia muito mais rápido. Tinha liquidez imediata.”
Mas o aprendizado veio junto com a limitação. “O apartamento ficava bom, mas o prédio continuava ruim. Corredor escuro, fachada pichada, entrada degradada. Isso derrubava a percepção de valor.”
Para contornar o problema, ele começou a investir também nas áreas comuns dos edifícios. “A gente pintava corredor, melhorava iluminação, mexia na fachada. Era uma forma de ajudar na venda.”
Quando Sobrinho virou incorporador
O passo seguinte para a Recons foi comprar prédios inteiros no Centro de Porto Alegre. “Percebi que não dava para escalar mexendo unidade por unidade. O ganho estava em olhar o edifício como um todo.”
A transição definitiva para a incorporação aconteceu em 2021, com a compra de um edifício abandonado no Centro. Foi uma decisão tomada em um momento de alta incerteza regulatória para projetos no bairro. Pouco depois, a prefeitura anunciou um plano de reabilitação da região — e o projeto da Recons acabou se tornando um dos primeiros aprovados dentro desse novo regramento.
O edifício escolhido carregava um histórico simbólico do abandono urbano na região. Já havia sido ocupado irregularmente e chegou a ser utilizado em uma tentativa de escavação para assalto a bancos em Porto Alegre. Com investimento superior a R$ 12 milhões, o ativo foi transformado no Cais Rooftop, com 48 apartamentos, áreas comerciais e um espaço aberto ao público no topo.
Cais Rooftop: edifício abandonado no Centro de Porto Alegre foi transformado em empreendimento com moradia e espaço aberto ao público (Recons/Divulgação)
Quais os próximos passos da Recons
A experiência com o Cais Rooftop reforçou uma tese de Sobrinho: o retrofit pode ser um vetor relevante de transformação urbana, especialmente em regiões centrais com grande estoque de imóveis ociosos. A Recons já mapeou 15 edifícios com potencial de requalificação no bairro e vem ampliando sua atuação. Um segundo projeto, ao lado do Cais Rooftop, já está em desenvolvimento, com investimento estimado em R$ 10 milhões e entrega prevista para 2026.
“Quando os dois estiverem prontos, serão mais de 100 unidades entregues na região”, diz.
A empresa também passou a ser procurada para parcerias em novos empreendimentos. “Hoje tem proprietários e empresas nos chamando para participar dos projetos. Isso não existia no início.”
Com a operação consolidada em Porto Alegre, a Recons agora avalia expandir sua atuação para outras cidades, acompanhando o avanço de iniciativas de revitalização de centros urbanos no país. Para Sobrinho, o retrofit deve ganhar protagonismo nos próximos anos, mas não necessariamente pelas mãos das incorporadoras tradicionais.
“Não acredito que as grandes construtoras vão liderar esse movimento. Acho que vão surgir empresas novas, especializadas nisso”, diz. “O Centro era desacreditado, mas tinha potencial. O retrofit é parecido. Muita gente ainda não enxergou o que dá para fazer.”
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