De volta à TV aberta, Galvão Bueno defende narração 'sem grito nem palavrão'
Aos 75 anos e às vésperas de sua 14ª Copa do Mundo, Galvão Bueno — recordista em narrações e voz presente no Mundial desde 1974 — inicia, em 2026, um novo movimento em uma trajetória que atravessa gerações. Após encerrar um ciclo de 43 anos na Rede Globo e passagens recentes por Band e Amazon Prime Video, o narrador retorna à TV aberta ao assumir o posto de principal voz das transmissões da Copa do Mundo no SBT, em um ambiente marcado pela fragmentação dos direitos esportivos, pelo avanço das plataformas digitais e pela reconfiguração dos padrões de consumo de mídia.
“Não resisto a um desafio”, afirma. “Podia ter parado, mas, quando me despedi, deixei claro que não estava me aposentando”, disse Bueno à EXAME. Seu novo programa, Galvão FC, estreia em 2 de março. Com exibição semanal, a atração combina debate esportivo e entretenimento. O elenco fixo reúne Vampeta, Mauro Naves, Mauro Beting e a banda Los Buenos, liderada por Marcelo Marrom, além de plateia interativa no estúdio.
O formato dialoga com os novos modelos de negócio das transmissões esportivas no Brasil. Como mostrou a EXAME, há seis décadas a Globo ocupa posição central nesse segmento. Nesta Copa, porém, pela primeira vez uma plataforma digital exibirá todos os 104 jogos do Mundial: a CazéTV. Em paralelo, emissoras tradicionais operam com pacotes fragmentados e reforçam estratégias multiplataforma, caso do lançamento da GE TV pela Globo.
O SBT adquiriu os direitos de 32 jogos em operação conjunta com a NSports, empresa da qual Galvão Bueno é sócio, e já anunciou seis patrocinadores, entre os quais McDonald’s e Friboi, em contratos que, segundo o mercado, superam o custo dos direitos. Enquanto isso, a CazéTV, liderada por Casimiro Miguel e com participação da LiveMode, transmitirá todo o torneio da Fifa no YouTube, com R$ 2 bilhões em acordos de patrocínio e desafiando os canais abertos.
Agora, TVs, streaming e plataformas nativas digitais disputam audiência, formatos e linguagem editorial. Inserido nesse novo ecossistema, Galvão passa a atuar em diferentes camadas de mídia. No SBT, narrará os jogos da Copa, incluindo as partidas da Seleção Brasileira, em um modelo de simulcast, com a mesma transmissão exibida na TV aberta e nos canais lineares da NSports.
“Cada um assiste como quer, onde quer”, afirma. A mudança, segundo ele, não é apenas tecnológica, mas também editorial. “Hoje fazemos questão de trabalhar com uma linguagem multigeracional. Não posso fugir das minhas características, mas tenho que me comunicar com as pessoas mais jovens e com esse ambiente da internet.” Acompanhe a entrevista.
Após uma trajetória marcada por recordes e décadas nas transmissões esportivas, o que motivou este recomeço na TV aberta?
Vou para a minha 14ª Copa do Mundo. Ninguém no mundo tem esse número. Tive o privilégio de acompanhar grandes momentos do esporte brasileiro. Vivi três finais de Copa do Mundo seguidas com o Brasil, o título de 1994, a final de 1998, o penta de 2002 e muitas outras histórias. Na Fórmula 1, acompanhei Ayrton Senna, Nelson Piquet e Emerson Fittipaldi. São oito títulos mundiais, além de vitórias marcantes de pilotos como Rubens Barrichello e Felipe Massa. Sou grato a tudo o que vivi. Poderia ter parado, mas deixei claro, quando me despedi, que não estava me aposentando. Apenas me afastava das narrações na TV aberta. Depois disso, segui na TV fechada, narrei jogos e corridas, mas o desafio já não era o mesmo. Por isso, decidi voltar.
Não poderia recusar um convite que mexe comigo e com a minha paixão. O carinho das pessoas pesa muito. Há quem não goste, claro, mas há muito mais gente que gosta. Isso me encanta. E estar no SBT também tem um significado especial. É uma emissora querida pelo público, com uma identidade própria, construída por Silvio Santos, que foi o maior comunicador deste país. Estou animado com o projeto. O esporte reúne tudo isso. É uma oportunidade de trazer profissionais com quem trabalhei por décadas e também integrar novos nomes. Não dava para dizer não. Estou muito feliz.
O Galvão FC adota um formato diferente, com plateia interativa e um viés claro de entretenimento. O público verá a figura que acompanha gerações ou podemos esperar uma nova versão do Galvão?
Espero que surja, sim, uma nova versão, mas, na prática, é uma junção. Há um respeito grande pelo estilo, pelo caminho e pela forma de trabalhar do SBT. O programa nasce desse encontro entre o meu DNA e a identidade da emissora. O time que estará comigo é muito especial. Mauro Naves, Mauro Beting, Nadine Bastos, Vampeta. Teremos também o Marcelo Marrom, que além da banda, participa das discussões. E, a cada semana, um convidado. No primeiro programa, por exemplo, o Ratinho. Imagino o Ratinho debatendo com o Vampeta. É algo diferente.
Além do debate esportivo, haverá uma presença forte de entretenimento. Não vou jogar aviãozinho de dinheiro, porque isso ficou marcado com Silvio Santos e, agora, com a filha Patrícia Abravanel, mas vamos ter muita interação, plateia, banda, concursos, prêmios, game show. É uma mistura.
Sempre disse que fui um vendedor de emoções. Agora, é uma combinação: um vendedor de emoções com um vendedor de entretenimento.
Todos que estão participando estão absolutamente conscientes dessa proposta. Eu estou muito feliz. Acho que vai dar certo.
O mercado de direitos esportivos passa por mudanças, com a entrada de plataformas digitais e novos formatos de distribuição e consumo. Como sócio da NSports, o que mudou na forma de narrar e entregar esporte? E como você enxerga esta nova dinâmica das transmissões no Brasil?
Ao longo desses 51 anos, fui ajustando palavras e a forma de comunicar. Todos os bons narradores passam por esse processo. A linguagem evolui. Trabalhei por mais de 30 anos com o Kleber Machado e com o Luiz Roberto. O Luiz Roberto seguiu na Globo, o Kleber está na Record, eu agora estou na Prime Video, no SBT, na NSports. São trajetórias diferentes, mas todos passam por essa adaptação. Na NSports, por exemplo, fazemos questão de adotar uma linguagem multigeracional. Acho isso importante. Não posso fugir das minhas características, mas tenho que me comunicar com as pessoas mais jovens e com esse ambiente da internet.
Quando falamos em direitos de transmissão, essa Copa do Mundo traz um cenário interessante. A Globo fará o que sempre fez. Eu vivi 11 Copas do Mundo seguidas na emissora, jogo a jogo, além das decisões e grandes partidas. O SportTV terá a própria transmissão, a CazéTV também, em outra camada, no YouTube. No nosso caso, teremos algo inédito. Pela primeira vez, haverá a mesma transmissão para a TV aberta, no SBT, e para o streaming, na NSports. É um movimento que exige uma linguagem mais ampla, mais completa, mais multigeracional. Todos estão conscientes dessa mudança. A forma de se expressar precisa acompanhar essa nova dinâmica. Acho isso realmente encantador. Vamos ver o que vai dar, mas acredito que será bacana.
Nessa nova lógica de consumo, você acha que ainda tem espaço para a TV aberta?
A TV aberta ainda concentra o maior número de pessoas assistindo. Mas é claro que a internet e as outras camadas crescem a cada dia. Por isso, desde janeiro de 2023, passei a atuar também na TV fechada e na internet. Nesse período, fiz o Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil e decisões na Prime Video, que é uma plataforma fechada. Agora, volto à TV aberta.
Hoje, cada um assiste como quer, onde quer e do jeito que quer. O público escolhe a pessoa de que gosta, alguém que fale mais o seu idioma, o seu jeito de se comunicar, ou um profissional que consiga dialogar com diferentes perfis.
Acho que esse é o movimento natural. Há ótimos narradores em todas as camadas. Às vezes, alguns gritam demais, o que pode incomodar. Narração não é grito. Da mesma forma, palavrão não é linguagem. É uma limitação de expressão. Eu defendo uma linguagem multigeracional, ampla. Palavrão, de jeito nenhum. Não admito.
A chegada de iniciativas como a CazéTV e a GE TV reforçou formatos mais interativos e informais, com forte conexão com o público jovem. No Galvão FC, a presença de nomes como Vampeta também sugere essa direção. Há uma estratégia de dialogar com esse público e novos formatos?
Veja só: o programa estreia na segunda-feira, 2 de março, às 22h30, colado no Ratinho, meu amigo querido de muitos anos. Trabalhamos juntos lá em 1992. Eu já estava há algum tempo na estrada, e ele estava começando. Vou ao programa dele, vou pegá-lo pelo braço e trazê-lo de um estúdio para o outro para abrir o primeiro Galvão FC. A equipe foi escolhida em conjunto, pelo nosso lado e pelo lado do SBT, com o presidente e o diretor de esporte, com quem construí uma bela amizade. Teremos o Mauro Naves, que fez várias Copas do Mundo comigo como repórter. Ele volta a exercer esse papel. Em projetos recentes, como na Prime Video, esteve como comentarista e apresentador, mas agora retorna à reportagem.
Teremos também o Mauro Beting, que eu chamo de enciclopédia. Ele domina datas, histórias, contexto. É sempre um prazer conversar com ele. O Vampeta será um grande barato. Tenho certeza disso. E será muito interessante dialogar com a Nadine. Depois de tantos anos trabalhando com o Arnaldo, agora estou com ela, que é excelente. Já o Marcelo Marrom é músico, é bem-humorado, é polêmico. Tenho certeza de que teremos debates animados. O primeiro convidado será o Ratinho. Depois, teremos artistas, jornalistas, esportistas. Essa mistura faz parte da proposta. Vai ter plateia? Vai. Vai ter banda? Vai. A banda Los Buenos. Vamos falar com o telespectador? Vamos. Vamos dar prêmios? Vamos. É um programa que combina esporte, interação e entretenimento.
O mercado de direitos de transmissão tornou-se mais fragmentado. Na sua avaliação, isso fortalece o produto ou torna a experiência mais confusa para o público?
Não torna a experiência mais confusa. Pelo contrário, oferece mais opções. É um cenário diferente. Desde que comecei em Copa do Mundo, em 1974, vivi diferentes momentos da televisão e passei por emissoras distintas. Em 1978, fui para a Bandeirantes. Entre 1982 e 2022, foram 40 anos de Copas na Globo. De 1990 até a partida final da última Copa, as pessoas ouviam e viam o Brasil também na minha transmissão, especialmente nas finais de Copa do Mundo. Agora, cada um pode escolher. Pode escolher aquilo que quer. Acho isso muito bacana, muito positivo.
Hoje, temos todas as camadas. TV aberta, TV paga, streaming etc. O SportTV terá sua transmissão, outras plataformas também, e a TV aberta segue presente, agora com o SBT. Esse é o mundo de hoje. As pessoas têm o direito de escolher. É algo que sempre defendo. Nunca me envolvo em política por dois motivos. Primeiro, porque sei que a comunicação influencia as pessoas, e não considero que esse seja o meu papel. Já cheguei, em determinados momentos, a falar para cerca de 100 milhões de pessoas, por exemplo, na abertura da Copa de 2006. Nessas circunstâncias, você fala para um país inteiro, independentemente de raça, credo, cor, ideologia ou preferências pessoais. Cada um vê como quer. Assim tem que ser. É o direito de cada um.
Hoje, narradores e comentaristas deixaram de ser apenas vozes da transmissão e passaram a atuar também como marcas próprias, com presença digital e comunidades consolidadas. Você mesmo diversificou sua atuação, com negócios em diferentes áreas. Como enxerga essa mudança no papel do profissional de comunicação esportiva?
Acho que consegui abrir portas ao longo da minha carreira. No documentário que a Globo fez sobre a minha vida, há um depoimento do Boni que fala sobre isso. Ouvir também colegas como Kleber Machado e outros profissionais dizendo que ajudei a elevar a categoria dos narradores, comentaristas e de todo o pessoal do esporte, com mais respeito dentro das emissoras, mais prestígio e também melhores condições financeiras, é algo que considero um legado importante.
Também participei da abertura desse caminho na relação comercial. Sempre de forma correta, sem mutreta, sem nada errado. Fiz inúmeras campanhas publicitárias, e isso segue até hoje. Neste ano, por exemplo, são vários projetos. Tenho uma estrutura profissional dedicada a isso. Minha filha, Letícia Bueno, é CEO da companhia. Funciona como uma agência própria. Estudamos cada parceria, cada campanha. Esse modelo de atuação, que hoje é mais comum no mercado, também passou por esse processo de construção.
Em determinado momento, conversando diretamente com Roberto Marinho e Roberto Irineu, construímos um formato diferente. Houve uma readequação contratual, com redução salarial e abertura para atividades comerciais. Hoje, praticamente todos os profissionais podem operar dessa forma. Sempre digo que, sendo correto, sem fazer nada errado, não há problema nenhum. Tenho também outros negócios. Atuo com produção de vídeo no Brasil e na Itália. Trabalho com criação de gado há muitos anos e sou um dos profissionais mais premiados nessa área. Adoro meus cavalos crioulos. Tenho minha agência, minha empresa, faço publicidade, faço campanhas. No fim, o bom é trabalhar, é o que faz.
Olhando para o futuro das transmissões esportivas, qual tende a ser o principal fator de diferenciação: tecnologia, dados, interatividade, talento...O que, de fato, definirá a vantagem de uma cobertura sobre outra?
A capacidade de cada um. Sempre disse que sou um vendedor de emoções. Também me considero um equilibrista, alguém que anda no fio da navalha. De um lado, estão as emoções, que eu capto e transmito ao telespectador. Do outro, está a realidade dos fatos, que preciso relatar e contextualizar, mesmo quando as histórias não são positivas. Esse equilíbrio é o que, na minha visão, faz a diferença e algo que todos deveriam buscar.
No SBT, por exemplo, teremos dois estilos distintos, mas também multigeracionais. Eu estarei nos jogos do Brasil e em outras partidas. O Tiago Leifert, que é excelente na comunicação, representa uma abordagem moderna, com trajetória consolidada na televisão. Cada um terá o seu espaço. Quem fará melhor? Espero que sejamos nós.
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