Descoberta revela 'tratamento dentário' brutal (e luxuoso) da Idade Média
“Cinco séculos depois, ainda é possível ver as marcas deixadas pelo fio de ouro", comentou a bioarqueóloga Rebecca Crozier sobre o impacto de uma descoberta que surpreendeu arqueólogos e especialistas em odontologia: um homem medieval tentou resolver a perda de um dente usando um fio de ouro de 20 quilates preso à mandíbula.
Ponte dentária 'improvisada'
O achado foi feito durante escavações na Igreja de São Nicolau East Kirk, em Aberdeen, na Escócia. Pesquisadores da Universidade de Aberdeen analisaram uma mandíbula masculina datada entre os séculos XV e XVII e identificaram uma espécie de ponte dentária improvisada, considerada a mais antiga do tipo já encontrada no país. O estudo foi publicado no periódico científico British Dental Journal, no dia 24 de abril.
A mandíbula pertencia a um homem de meia-idade que perdeu um dos incisivos inferiores ainda em vida. Para preencher o espaço vazio, alguém enrolou um fio de ouro ao redor dos dentes vizinhos. Os pesquisadores acreditam que o metal servia para sustentar o próprio dente perdido ou uma prótese artificial feita de outro material.
O detalhe que mais chamou a atenção dos cientistas foi o grau de sofisticação da técnica. O fio não estava apenas encaixado superficialmente: ele havia sido cuidadosamente torcido nas raízes dos dentes para criar sustentação. Marcas de desgaste mostram que a estrutura ficou na boca do homem durante bastante tempo.
Segundo Rebecca Crozier, coautora do estudo, o procedimento certamente não foi confortável e a aplicação do fio “provavelmente causou desconforto”, especialmente pela pressão exercida sobre as raízes dentárias. Ainda assim, o homem teria se adaptado com o passar do tempo.
Prática era conhecida na época
A descoberta também ajuda a desmontar a ideia de que tratamentos dentários complexos surgiram apenas com a odontologia moderna. Embora a profissão só tenha se consolidado oficialmente no século XIX, diferentes técnicas já eram utilizadas muito antes disso por barbeiros, curandeiros e até joalheiros. Segundo a revista Popular Science, Aberdeen contava com cerca de 22 ourives ativos na época em que o homem viveu, o que leva os pesquisadores a considerar a possibilidade de que um desses profissionais tenha produzido e instalado a estrutura de ouro.
Na Europa medieval, prender dentes com fios metálicos era uma prática conhecida entre pessoas com dinheiro suficiente para pagar pelo serviço. O ouro, além de resistente, carregava um valor simbólico importante: indicava riqueza, status e prestígio social.
Os exames feitos na mandíbula revelaram que o homem sofria com sérios problemas bucais. Ele tinha acúmulo intenso de placa endurecida, sinais de doença periodontal e pelo menos três cáries. Mesmo assim, alguém investiu tempo e recursos para tentar preservar seu sorriso.
Para os pesquisadores, isso sugere que a motivação não era apenas funcional. A preocupação estética provavelmente teve um peso importante. Naquele período, aparência física e condição moral estavam profundamente associadas. Ter dentes saudáveis podia representar posição social, higiene e até respeito dentro da comunidade.
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