Desenrola 2.0 impõe 'quarentena' de bets: entenda

Por Rebecca Crepaldi 10 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Desenrola 2.0 impõe 'quarentena' de bets: entenda

O Desenrola 2.0 já está no ar e, quem aderir ao programa, está sujeito a uma restrição bem específica: não poderá mais apostar em bets por um ano. Não só quem utilizou o saldo de 20% do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar as dívidas, mas todos os participantes do Desenrola, se enquadraram na regra.

O presidente Lula foi enfático antes do lançamento do programa: "O que não pode é renegociar a dívida e continuar perdendo dinheiro apostando em bet". Ele continou: "Não foi nosso governo que deixou as bets entrarem no Brasil, mas é o nosso governo que vai colocar um limite à destruição que elas vêm causando."

O movimento vem em meio a dados alarmantes. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), de janeiro de 2023 a março de 2026 a inadimplência do consumidor causada pelas apostas online levou R$ 143 bilhões do comércio varejista.

Desde a regulamentação das bets, há três anos, os brasileiros passaram a gastar muito mais com apostas esportivas. Nesse período, as despesas mensais com esse tipo de aposta cresceram 500% no país. Apenas em março deste ano, o volume movimentado superou R$ 30 bilhões, de acordo com um estudo divulgado em abril pela CNC.

Na outra ponta, a parcela da população que está inadimplente atingiu números recordes — 82,8 milhões em março, segundo a Serasa. No total, há 338,2 milhões de dívidas que, juntas, somam R$ 557 bilhões. O valor médio de cada dívida é de R$ 1.647,64 (mais que um salário mínimo).

Desse montante, 47% das dívidas estão concentradas no setor financeiro, gargalo que é justamente onde o programa ataca. Sete em cada 10 brasileiros têm débitos bancários, aponta uma pesquisa da Serasa com a Opinion Box de abril de 2026.

Como vai funcionar?

Na prática, quem renegociar dívidas com o Novo Desenrola, terá automaticamente seu CPF bloqueado para jogar em casas de apostas online pelo período de 12 meses. Hoje, isso já acontece de forma espontânea, com apostadores podendo bloquear o documento na próprio plataforma do governo de autoexclusão.

“Se você sente que os jogos de aposta começaram a afetar negativamente sua vida ou estão se tornando uma preocupação, o sistema centralizado de autoexclusão dos sites de apostas é uma ferramenta importante para que você retome o controle da situação”, diz o site.

A plataforma foi desenvolvida pelo Governo Federal, por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF), e permite bloquear o seu acesso a todas as casas de apostas federais autorizadas por um período mínimo de um mês.

No serviço de autoexclusão, o apostador pode escolher entre o prazo indeterminado, podendo revogar após 12 meses, ou determinado, que precisa esperar o prazo acabar para revogar. Já no caso do Denserola, é temporário por um ano.

Como o Governo tem esse controle do bloqueio?

Na prática, é como se a pessoa tivesse se cadastrado nesse serviço de autoexclusão. Hoje, funciona assim: as regras de “jogo responsável” e de meios de pagamento criaram um sistema de cadastro obrigatório para quem aposta.

Quando a pessoa entra em uma plataforma de apostas, ela precisa informar o CPF, vincular uma conta bancária que esteja no mesmo nome e, em seguida, passar por uma verificação de identidade por reconhecimento facial.

Esse processo não acontece só no início. Em alguns casos, sempre que o usuário faz um depósito, o sistema pode pedir novamente o reconhecimento facial para confirmar que é realmente a mesma pessoa.

No cenário do Desenrola, se o CPF estiver bloqueado, esse cadastro ficaria impedido de ser usado. Isso significa que a pessoa não conseguiria operar normalmente na conta já registrada, e teria dificuldade para fazer depósitos ou movimentações.

“Se esse Joãozinho está no Desenrola, vai ficar bloqueado e vai ter que ter alguém que fez um cadastro, que tem uma conta no nome e faça reconhecimento facial cada vez que deposite. Isso pode acontecer, mas é pouco provável’, disse Régis Dudena, secretário de Reformas Econômicas da Fazenda, à EXAME.

Posicionamento das bets

Com o bloqueio em apostas nas casas regularizadas, o Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR) expressa preocupação a cerca da migração dos apostadores para o mercado ilgeal. Segundo dados da entidade, sites ilegais têm 51% do mercado e movimentam cerca de R$ 40 bilhões, operando “sem qualquer fiscalização ou mecanismos de proteção ao consumidor.”

“O combate ao mercado ilegal é o passo mais urgente para evitar que operadores sem licença — muitas vezes associados ao crime organizado — aproveitem janelas de restrição para atrair o público vulnerável”, informou o IBJR em nota.

A entidade também reforça a relação entre dívida e apostas. Segundo o IBJR, em 2025, as apostas feitas em plataformas licenciadas movimentaram o equivalente a apenas 0,46% do consumo das famílias no país, uma participação extremamente pequena dentro do orçamento do brasileiro, de acordo com dados do estudo da LCA Consultoria.

“Isso reforça que o principal fator de endividamento no orçamento dos brasileiros segue sendo o alto custo do crédito”, pontua.

Para o instituto, o Desenrola é um esforço conjunto entre Governo e setor privado. “Defendemos políticas públicas que combinem educação financeira, fortalecimento do jogo responsável e uma ofensiva estratégica contra sites clandestinos, garantindo que o entretenimento ocorra exclusivamente em um ecossistema seguro, transparente e devidamente fiscalizado.”

*Colaborou Ivan Martínez-Vargas

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