Desgaste de Lula no pós-Carnaval reforça disputa voto a voto, dizem analistas

Por André Martins 1 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Desgaste de Lula no pós-Carnaval reforça disputa voto a voto, dizem analistas

O brasileiro, por natureza, repete o mantra de que o ano só começa após o Carnaval. No caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pré-candidato à reeleição, o “ano novo” veio acompanhado de más notícias, como em uma ressaca pós-carnaval.

Da repercussão negativa do desfile da Acadêmicos de Niterói à crise do Supremo Tribunal Federal (STF) relacionada ao banco Master, passando pela quebra de sigilos telefônicos e bancários de seu filho no âmbito da CPMI do INSS, as pesquisas de avaliação de governo e eleitorais traduziram o mau humor do eleitor com o petista.

Para analistas políticos ouvidos pela EXAME, o cenário evidencia um ambiente adverso e "perigoso" para o governo e amplia a incerteza, reforçando que a disputa será voto a voto.

A avaliação é que com desaprovação acima de 50% em parte dos levantamentos e empate técnico nos cenários de segundo turno com o senador Flávio Bolsonaro (PL), Lula entra em 2026 sob pressão e fora da zona de conforto eleitoral.

Para Creomar de Souza, sócio-fundador da Dharma Political Risk and Strategy, consultoria de risco político, o traço central do momento é a volatilidade.

“Uma característica muito robusta desse processo eleitoral é a incerteza”, afirma. Segundo ele, favoritismos e percepções do eleitorado têm oscilado com rapidez incomum até mesmo para o padrão brasileiro.

O analista lembra que Lula iniciou 2025 em baixa, recuperou fôlego ao longo do ano e chegou ao pré-Carnaval de 2026 sob leituras mais otimistas dentro do próprio Planalto. Havia, inclusive, avaliações internas sobre a possibilidade de vitória em primeiro turno. O quadro atual, no entanto, alterou esse cálculo.

Creomar avalia que a política brasileira vive “terremotos” sucessivos, em que microcrises se acumulam e alteram o humor do eleitorado em ciclos curtos.

Na lista recente, ele cita o debate sobre o aumento do imposto de importação de produtos eletrônicos, a repercussão do Carnaval, o tensionamento com o STF e as investigações envolvendo o filho do presidente.

Na avaliação do consultor, o desafio não é exclusivo de Lula.

“Em algum momento pode ser também de Flávio Bolsonaro”, afirma, ao destacar que a capacidade de administrar crises simbólicas e emocionais tende a ser determinante em uma disputa apertada.

Patamar “perigoso” da avaliação de governo

Na mesma linha, Fábio Zambeli, diretor de public affairs, relações institucionais e governamentais do grupo In Press, chama atenção para o patamar estrutural da aprovação do presidente.

Segundo ele, os levantamentos recentes indicam que a avaliação “boa e ótima” gira em torno de um terço do eleitorado.

“Esse é um número perigoso para quem pretende disputar a reeleição. Não é um colapso, mas está abaixo da zona de conforto”, afirma.

Para entrar na campanha com maior margem de segurança, aponta Zambeli, Lula precisaria agregar algo entre seis e sete pontos percentuais nesse estrato mais positivo da avaliação.

O ponto central, contudo, não está apenas na fotografia dos cenários estimulados. “Mais relevante do que a intenção de voto é a oscilação do sentimento difuso”, afirma.

A leve alta na desaprovação e a redução, ainda que marginal, da aprovação indicam alteração de humor. Quando o movimento ocorre nessa direção, diz o analista, a inércia costuma jogar contra o incumbente.

O contexto recente ajuda a explicar o quadro. O governo atravessou cerca de dez dias de agenda predominantemente negativa, com forte repercussão digital.

O desfile da escola de samba, associado ao debate sobre uso de recursos públicos e interpretado por segmentos evangélicos como afronta simbólica, contaminou o ambiente sobretudo entre eleitores conservadores e moderados — grupo decisivo em disputas majoritárias.

Estreante, a escola de samba do Rio de Janeiro homenageou o presidente e foi rebaixada do grupo especial do Carnaval carioca (Pablo PORCIUNCULA / AFP /Getty Images)

A elevação do imposto de importação sobre produtos eletrônicos, explorada pela oposição como símbolo de encarecimento do custo de vida, também impactou os indicadores de humor do eleitorado.

A amplificação nas redes consolidou, segundo o consultor, a percepção de desconexão do governo com parcelas sensíveis do eleitorado.

A quebra dos sigilos envolvendo o filho do presidente adiciona ruído ao cenário. No curto prazo, reforça a narrativa oposicionista e amplia a sensação de cerco político, segundo o analista. O impacto eleitoral, contudo, dependerá do desdobramento factual do caso.

Ao mesmo tempo, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco mil reais, medida tratada pelo Planalto como divisor de águas, não gerou o impacto político esperado.

“O eleitor não está associando diretamente o ganho no bolso à avaliação global do governo”, afirma Zambeli, ao apontar um descolamento entre política pública e percepção política.

São Paulo ganha mais importância

Nesse contexto de queda de popularidade, o xadrez eleitoral da montagem de palanques estaduais ganha ainda mais relevância estratégica.

Zambeli afirma que a equação presidencial passa necessariamente por São Paulo, maior colégio eleitoral do país, com mais de 35 milhões de eleitores.

Em um cenário de disputa apertada e desaprovação elevada, o desempenho nos estados deixa de ser complementar e passa a ser determinante na aritmética nacional.

“Quando o presidente entra no ano pré-eleitoral com cerca de um terço de avaliação positiva, cada palanque estadual vira peça-chave na engrenagem nacional”, afirma.

Segundo ele, nesse ambiente, cresce a pressão para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, dispute o governo paulista, mesmo diante de um cenário desafiador contra um candidato competitivo. A decisão, diz, transcende a lógica local.

“Uma derrota muito expressiva da esquerda em São Paulo teria efeito simbólico e matemático devastador na eleição presidencial”, avalia.

Por outro lado, uma candidatura competitiva, ainda que sem vitória, pode reduzir a margem do campo conservador e influenciar diretamente um eventual segundo turno.

Zambeli sustenta que, em eleições polarizadas, estados de grande densidade eleitoral funcionam como âncoras narrativas e aritméticas.

“Em um cenário de 52% a 48%, cada ponto em São Paulo pode alterar o desfecho nacional”, diz.

Disputa apertada

Para Murilo Hidalgo, presidente da Paraná Pesquisas, todos esses cenários retratam que a eleição deste ano será equilibrada.

Segundo ele, episódios recentes pesaram contra o governo, e o pacote eleitoral do governo não produziu o impacto político inicialmente esperado.

Ao mesmo tempo, ressalta que a campanha está apenas começando e que novos fatos ainda podem alterar o cenário.

“Pode ter certeza de que a eleição é 52 a 48, não pergunte para que lado”, afirma.

Em um ambiente de desaprovação elevada, polarização consolidada e margem estreita entre os dois principais nomes, os últimos dias mostram que a eleição de 2026 começa marcada menos pela certeza do favoritismo e mais pela disputa ponto a ponto.

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