Dia da Terra: desafios e oportunidades para a ação climática após a COP30
*Por Danielly Mello Freire, do Pacto Global Rede Brasil
O Dia da Terra deste ano encontra o Brasil em uma posição geopolítica de grande relevância e complexidade. Fomos sede da COP30 e, simultaneamente, permanecemos como palco de desafios e oportunidades singulares que a emergência climática impõe ao Sul Global.
A presidência brasileira da Conferência do Clima lançou seus “mapas do caminho”, documentos que miram pontos nevrálgicos como o afastamento progressivo dos combustíveis fósseis e a reversão e o combate ao desmatamento.
Contudo, para que a topografia real desses mapas se materialize, é fundamental alinhar uma escala temporal ambiciosa para o atingimento do Net Zero até 2050 e, sobretudo, reconhecer a interconexão das questões climáticas em uma única e intrincada multicrise planetária.
O tema do Dia Mundial do Meio Ambiente de 2026 já sinaliza uma mudança importante: o foco intenso na ação climática sistêmica.
A conversa, finalmente, se expandirá para além das toneladas de carbono ou hectares desmatados e se tornará um debate sobre a urgência de reparar e fortalecer nossa relação com o ecossistema global.
Enquanto o setor empresarial assimila os desdobramentos da COP em Belém, buscando formas de integrar as novas diretrizes, é essencial promover um diálogo que traga clareza ao reposicionamento global da pauta climática e ambiental.
Surge, então, a reflexão: como as empresas brasileiras podem se preparar para navegar esses mares, alinhando-se aos planos de navegação que serão propostos pela UNFCCC em conjunto com a Presidência da COP30?
Para que os mapas do caminho da COP30 se integrem de forma estratégica — com a descarbonização industrial caminhando lado a lado com a proteção florestal —, é preciso um olhar sistêmico. A ciência dos limites planetários, dos quais já extrapolamos sete das nove fronteiras, nos mostra, de forma inequívoca, que a crise humanitária não é dissociável da multicrise planetária.
Somos o principal vetor dessa extrapolação, e as populações que menos emitem são justamente as que primeiro sentem a sede e a fome dessa desordem. Por isso, faz-se cada vez mais necessário um olhar atento e orientado para a mudança.
Isso nos convida, como sociedade, a repensar economias e a reparar a relação humana com o clima para garantir justiça e sustentabilidade. Para o setor privado brasileiro, isso representa uma oportunidade estratégica, alinhada à agenda de negócios que já está posta na mesa.
Para que a transição energética seja verdadeiramente efetiva e justa, é crucial garantir que o afastamento dos combustíveis fósseis não deixe para trás comunidades extrativistas e periferias urbanas. Uma transição que resulte em uma economia verde excludente representaria um retrocesso nos objetivos de desenvolvimento sustentável.
O dia a dia dos pesquisadores de soluções para abastecimento de água potável em comunidades vulneráveis reforça a urgência de que a adaptação seja priorizada com a mesma intensidade da mitigação — e de que o setor privado pode atuar como agente transformador nessa frente.
É fundamental que a zeragem do desmatamento caminhe lado a lado com soluções que garantam a segurança hídrica da agricultura familiar e protejam as comunidades tradicionais e indígenas.
Por isso, a virada de chave para 2026 convida o setor privado a ir além do apoio a debates, tornando-se protagonista na execução de soluções adaptativas e de resiliência climática.
Felizmente, os ventos já sopram nessa direção. Iniciativas como o Movimento Ambição Net Zero, do Pacto Global da ONU, agora incluem em seus compromissos públicos a exigência de que a estratégia climática corporativa integre, de forma indissociável, uma transição de operações de baixo carbono justa.
Trata-se do reconhecimento de que a descarbonização não pode ser um processo puramente técnico; ela precisa ser, acima de tudo, um processo de reparação social.
E aqui permito-me evocar a sabedoria que emerge das confluências. O NAC (Núcleo de Ações Coletivas em Justiça Climática e Transição Justa), principal iniciativa do Pacto Global com o setor privado para esse fim, traz em sua própria identidade visual o desenho da confluência dos rios.
Este não é um mero detalhe estético. É o saber ancestral disseminado pelo mestre quilombola Nego Bispo, que nos ensina que os rios não se encontram para se sobrepor, mas para se fortalecer e seguir em frente, partilhando o leito.
As empresas brasileiras estão todas convidadas a integrar o traçado da redução de emissões com o curso d’água do combate à desigualdade. A plena efetividade da estratégia de desmatamento zero será alcançada quando confluir com a estratégia de justiça climática, evitando que esforços isolados se diluam no tempo.
Ou seja, é necessário que todos atuemos em conjunto.
O Dia da Terra de 2026, impulsionado pelo Dia Mundial do Meio Ambiente, é um convite direto às lideranças empresariais para o redesenho de economias, sistemas e modelos sociais inteiros.
Que possamos utilizar esses mapas para construir um plano de navegação no qual a economia circular, a agroecologia e os projetos baseados na natureza não sejam apêndices da pauta climática, mas sim direcionadores do destino da confluência para um planeta justo e habitável.
*Danielly Mello Freire é gerente de Clima do Pacto Global da Rede Brasil
1/10 Museu das Amazônias: espaço de cultura pensado para ser um dos principais legados da COP30. Foca temas como meio ambiente, preservação e mudanças climáticas (Museu das Amazônias: espaço de cultura pensado para ser um dos principais legados da COP30. Foca temas como meio ambiente, preservação e mudanças climáticas)
2/10 Estação das Docas: inaugurada em 2000, é um dos principais pontos turísticos da cidade e esteve lotada durante todos os dias da COP30. Reúne restaurantes e terminal de passageiros (Estação das Docas: inaugurada em 2000, é um dos principais pontos turísticos da cidade e esteve lotada durante todos os dias da COP30. Reúne restaurantes e terminal de passageiros)
3/10 Porto Futuro: área portuária transformada em polo cultural como um dos legados da COP30 (Porto Futuro: área portuária transformada em polo cultural como um dos legados da COP30)
4/10 (Nova Doca: parque linear inaugurado após a revitalização de um trecho de 1,2 quilômetro da Avenida Visconde de Souza Franco. O projeto inclui o tratamento de um dos tantos canais que cortam a cidade)
5/10 Mercado de São Brás: o prédio foi inaugurado em 1911, no auge do ciclo da borracha, e reformado para a COP30 (Mercado de São Brás: o prédio foi inaugurado em 1911, no auge do ciclo da borracha, e reformado para a COP30.)
6/10 Ver-o-Peso: seu açaí com peixe frito continua sendo um ícone amazônico (Ver-o-Peso: seu açaí com peixe frito continua sendo um ícone amazônico)
7/10 Ver-o-Peso: mercado símbolo de Belém, foi parcialmente reformado para a COP30 e foi um dos destinos preferidos dos visitantes durante a conferência (Ver-o-Peso: mercado símbolo de Belém, foi parcialmente reformado para a COP30 e foi um dos destinos preferidos dos visitantes durante a conferência)
8/10 Mercado de São Brás: reúne 80 espaços gastronômicos e é um novo point de paraenses e turistas (Mercado de São Brás: reúne 80 espaços gastronômicos e é um novo point de paraenses e turistas)
9/10 Avenida Duque de Caxias: uma das vias reformadas para dar acesso ao Parque da Cidade e que fica de legado para Belém (Avenida Duque de Caxias: uma das vias reformadas para dar acesso ao Parque da Cidade e que fica de legado para Belém)
10/10 Porto de Outeiro: localizado a 20 quilômetros do centro de Belém, foi reformado para receber grandes navios durante a COP30 e será um hub de turismo para a Amazônia (Porto de Outeiro: localizado a 20 quilômetros do centro de Belém, foi reformado para receber grandes navios durante a COP30 e será um hub de turismo para a Amazônia)
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