Diesel em falta no RS preocupa agronegócio e pode deixar arroz mais caro

Por César H. S. Rezende 10 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Diesel em falta no RS preocupa agronegócio e pode deixar arroz mais caro

A falta de diesel no Rio Grande do Sul tem gerado preocupação entre produtores rurais e entidades do agronegócio em meio à colheita de grãos, principalmente a de arroz — cultura da qual o estado concentra cerca de 70% da produção nacional — e pode levar à revisão das projeções de inflação para este ano.

Representantes do setor relatam cancelamento de pedidos e aumento expressivo no preço do combustível, justamente no momento em que a demanda cresce no campo.

O alerta ocorre em um momento sensível para o campo gaúcho. O estado está em meio à colheita de arroz e se prepara para a sequência da safra de milho e soja, atividades que dependem fortemente de diesel para o funcionamento de máquinas agrícolas e para o transporte da produção.

Segundo Antônio Da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), o aumento do petróleo foi abrupto em razão da guerra no Irã.

O barril saltou de cerca de US$ 60 para mais de US$ 110 em pouco mais de uma semana, movimento que tende a se refletir nos custos de energia e combustíveis. Nesse cenário, a Farsul já trabalha com a possibilidade de revisar seus modelos de inflação.

“Estamos aguardando um prazo maior para entender qual será o teto do preço do petróleo antes de revisar nossos modelos de inflação para cima”, afirma o economista.

Segundo ele, o impacto inflacionário ocorre porque energia e combustíveis estão presentes em praticamente todas as atividades econômicas. Quando esses custos sobem, o efeito tende a se espalhar por toda a cadeia produtiva.

“Não existe atividade humana que não envolva consumo de energia. Quando o preço da energia sobe, ele tem um efeito explosivo do ponto de vista inflacionário”, diz.

No sábado, 7, a Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) divulgou nota manifestando “preocupação com reclamações recorrentes, por parte de produtores rurais, da não entrega de combustíveis pelos Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs) nas últimas 48 horas e a informação de que o serviço não será normalizado neste final de semana”.

“Conforme as empresas responsáveis pela distribuição de diesel nas propriedades rurais, o problema inicia nas refinarias que, sem aviso prévio ou justificativa, suspenderam a distribuição desses combustíveis”, afirmou a entidade.

O Rio Grande do Sul, principal produtor de arroz do Brasil, concentra cerca de 70% da produção nacional e deve responder por 7,8 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Em 2025, em função da oferta abundante, os preços do arroz recuaram 26,6%, segundo dados da inflação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No caso da produção agrícola, o efeito é ainda mais direto. O diesel é essencial para o funcionamento de tratores, colheitadeiras e caminhões utilizados na logística das lavouras. Qualquer aumento relevante no combustível tende a elevar custos de produção e transporte de alimentos.

Além da pressão sobre custos, o calendário agrícola também amplia a preocupação no estado. Diferentemente do Centro-Oeste, onde o plantio ocorre mais cedo, o ciclo agrícola gaúcho é mais tardio em razão das condições climáticas.

“O Rio Grande do Sul tem um calendário um pouco diferente do Mato Grosso porque estamos abaixo do Trópico. A gente planta depois e colhe depois”, diz o economista.

No caso do arroz, a colheita ocorre dentro de uma janela relativamente curta. Se a operação for interrompida ou atrasada, parte da produção pode ser comprometida.

“Estamos em plena colheita do arroz e temos uma janela de colheita. Se não colher, a gente perde o grão”, afirma.

As projeções da Conab apontam que a produção brasileira de arroz deve cair 13% na safra 2025/26, totalizando 11 milhões de toneladas.

Apesar das preocupações no campo, a alta de preços não necessariamente viria de uma queda na produção de arroz. Segundo o economista, o impacto maior tende a ocorrer pelo lado dos custos de produção e transporte.

ANP investiga distribuição de diesel

Em nota, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou que recebeu relatos de dificuldades pontuais na aquisição de diesel por produtores no Rio Grande do Sul, mas afirmou que os estoques são suficientes para garantir o abastecimento.

A agência também abriu uma investigação para avaliar a formação de preços e as condições de distribuição do combustível no estado.

Segundo Antônio Da Luz, economista-chefe da Farsul, há indícios de um possível movimento especulativo na distribuição do diesel.

Embora o preço do petróleo tenha subido rapidamente, ele afirma que não haveria tempo hábil para que esse aumento gerasse escassez imediata no mercado.

Segundo o economista, não há relatos de falta de combustível nos postos. As dificuldades estariam concentradas entre distribuidores que atendem produtores rurais, com prazos de até dez dias para entrega e cobrança de valores mais altos.

Na avaliação dele, alguns distribuidores podem estar segurando estoques comprados por cerca de R$ 5,50 ou R$ 5,60 para vender posteriormente por até R$ 7,50, aproveitando a expectativa de alta nos preços — a prática levantou suspeitas no setor e passou a ser monitorada pelas autoridades.

Segundo a ANP, o estado possui nível regular de estoque e produz mais diesel do que consome. A produção e a entrega do combustível seguem em ritmo normal pelo principal fornecedor da região, a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), da Petrobras.

Além da Refap, o Rio Grande do Sul também conta com a Refinaria Riograndense, que tem participação da Petrobras.

A agência informou que equipes técnicas estão verificando instalações e operações relevantes na cadeia de distribuição. As distribuidoras serão formalmente notificadas para prestar esclarecimentos sobre volumes em estoque, pedidos recebidos e entregas realizadas.

“Equipes técnicas da ANP estão realizando verificação das instalações e operações relevantes. As distribuidoras serão formalmente notificadas para que prestem os devidos esclarecimentos à ANP sobre o volume em estoque, os pedidos recebidos e os pedidos efetivamente aceitos”, informou.

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