Discussão sobre fim da escala 6x1 'não tem razão de existir', diz presidente da Fiems

Por Ivan Martínez-Vargas 2 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Discussão sobre fim da escala 6x1 'não tem razão de existir', diz presidente da Fiems

Bonito* — A implementação da escala 5x2, com redução da jornada padrão de trabalho das atuais 44 horas semanais para 40 horas, deverá gerar inflação e reduzir a competitividade do Brasil, na visão do presidente da Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul, Sérgio Longen.

No cargo desde 2007, o empresário, que é dono da fabricante de alimentos Semalo, diz gerar atualmente cerca de 700 empregos diretos e ter dificuldade para preencher postos de trabalho, segundo ele, em razão de programas sociais do governo federal, a exemplo do Bolsa Família. Ele, contudo, não cita dados que respaldem sua opinião.

Longen reuniu 13 presidentes de federações de indústrias e o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, em Bonito (MS), na semana passada, para discutir competitividade no país. Nos encontros, que duraram três dias e terminaram neste sábado, 30, os representantes da indústria brasileira também debateram estratégias para tentar barrar a proposta de emenda à Constituição (PEC) que põe fim à escala 6x1, que aguarda apreciação no Senado.

O texto, aprovado pela Câmara com avassaladores 491 votos, prevê uma transição de 14 meses, com a redução da carga horária de 44 para 42 horas semanais 60 dias depois da promulgação da PEC e a diminuição da carga horária para 40 horas 12 meses após a primeira mudança.

Para Longen, a atratividade de países vizinhos como o Paraguai aos olhos de investidores se dá em razão das reformas liberais que o Brasil, diz ele, deveria replicar. Apesar disso, o industrial reconhece que os investimentos feitos no país vizinho fazem sentido quando voltados ao mercado consumidor brasileiro.

Confira a entrevista:

A PEC do fim da escala 6x1 está agora no Senado. O senhor defende que essa discussão seja adiada para depois das eleições. Por quê?

Se você tirar a política da mesa, essa discussão não tem razão de existir agora. Nossa Constituição já estabelece que a jornada de trabalho pode ser de até 44 horas semanais. Estamos diante de uma PEC que pretende inserir na Constituição algo que o mundo inteiro nem sequer discute: uma restrição à liberdade do trabalho. Evoluímos justamente para o oposto, com o acordado em relação ao legislado. Isso é um retrocesso, e é ainda mais grave por estar sendo colocado dentro da Constituição. Essa pauta está em discussão apenas em razão das eleições.

No Senado, o relator da matéria será indicado pelo presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Otto Alencar (PSD-BA), que já sinalizou que será alguém sem vínculo com entidades do setor produtivo e que dará prioridade ao texto aprovado pelos deputados. Como o senhor vê isso?

Com preocupação. Da mesma forma que a discussão foi conduzida na Câmara, se a proposta ganhar viés político no Senado, inclusive diante da renovação de dois terços das cadeiras, com possível uso eleitoral do tema, isso nos traz preocupação e custos. A sociedade precisa entender que será a grande pagadora dessa conta, que vai gerar inflação. Não há suporte para a premissa de que alguém trabalhará menos e ganhará o mesmo. Não existe lei que sustente isso.

O senhor considera que essa batalha está perdida?

De forma alguma. Estamos no campo e jogamos o jogo. Não podemos baixar a guarda. Acredito no poder de convencimento, não político, mas baseado em dados reais e técnicos, que demonstram que esse custo será repassado à sociedade.

O senhor emprega cerca de mil pessoas diretamente. Essa mudança de escala afetaria o seu negócio?

Sim, seria afetado por um aumento de pelo menos 10% no custo de mão de obra. Tudo o que se gasta com pessoal teria esse acréscimo. E não há como absorver esse custo sem repassá-lo (ao consumidor final). É como chegar ao posto de gasolina com R$ 100, abastecer, e imaginar que na semana seguinte o mesmo valor comprará a mesma quantidade de litros. Todos serão obrigados a transferir esse custo e ninguém trabalhará menos ganhando o mesmo. Isso é uma certeza.

O senhor estaria cogitando demissões?

Não, até porque estamos pressionados pelo mercado de trabalho aquecido e pelos programas sociais do governo federal. Hoje não temos mão de obra disponível. Só na indústria nacional há cerca de 1,6 milhão de vagas abertas sem candidatos. O que teremos é custo. E o custo vira inflação. O preço final vai subir.

Como o senhor vê a atração de investimentos brasileiros pelo Paraguai? Há risco de desindustrialização no Brasil?

É verdade que o Paraguai não é mais o mesmo do passado e está em evolução. Mas vejo o Paraguai como uma opção de ganho de competitividade. Não podemos, como industriais brasileiros, imaginar transferir unidades para lá: é um país com menos de 8 milhões de habitantes, pequeno e sem um mercado consumidor relevante. O que vejo se desenhando é um modelo misto de produção. De que forma é possível gerar equilíbrio entre o que não vai bem no Brasil e o que pode ser construído no Paraguai? A indústria nacional importa grande quantidade de matéria-prima. Parte dela poderia ser importada pelo Paraguai para aumentar a competitividade. Essa indústria mista, na minha avaliação, é positiva para o Brasil. O Paraguai é um bom parceiro para a indústria nacional.

O Mato Grosso do Sul cresce acima da média nacional há anos, mas a indústria responde por apenas 22% do PIB estadual e enfrenta desafios logísticos. Como avançar na industrialização do estado?

Há aproximadamente 20 anos, iniciamos um projeto de avaliação estratégica do estado, identificando seu potencial de transformação industrial. Buscamos um modelo de trabalho baseado em ações integradas de logística e na vocação de cada região, porque é um estado com menos de 3 milhões de habitantes e com o Pantanal, um bioma hoje protegido. Os projetos avançaram para a transformação em proteínas animais — pecuária, frango, suíno, pescado —, e o agronegócio e os sindicatos rurais trouxeram preocupações ligadas à infraestrutura, sobre como movimentar a produção.

A chamada Rota Bioceânica tem a intenção de melhorar o escoamento da produção e o acesso a mercados via Paraguai, Chile e portos do Pacífico, reduzindo o tempo de frete para a Ásia. Quando a indústria poderá usar esse corredor?

Hoje, numa avaliação prática, a rota deverá ser o principal hub de integração (com o Oceano Pacífico). Não há outro a ser construído agora. Teremos integração cultural, turismo, mas o principal é a logística: vamos poder exportar e importar por ali com redução de custos. A obra está praticamente concluída e a ponte (na cidade de Porto Murtinho (MS), na divisa com o Paraguai) será entregue até o final deste ano. Conversei recentemente com o secretário da Receita Federal (Robinson Barreirinhas) sobre convênios de integração aduaneira, para que a burocracia não dificulte o acesso (à fronteira). Ele respondeu bem e uma equipe da Receita Federal saiu nesta semana daqui em direção ao Peru para trabalhar essa integração com protocolos e convênios. Esperamos colocar tudo isso em prática nos próximos dois anos.

O senhor encerra seu mandato na FIEMS no ano que vem. Quais são os próximos passos?

Pretendo continuar defendendo os interesses da indústria, esteja ou não na presidência da federação. Sou político há muitos anos, mas um político classista. Vou permanecer nessa política classista defendendo o meu setor, que é o de alimentos.

O jornalista viajou a convite da Fiems para o Fórum Empresarial MS Summit

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