Do botequim ao hype: a expansão da vida noturna do Rio
No Rio de Janeiro, tem sido comum ouvir de cariocas que a cidade "está cheia" e que a noite "está bombando". Após o pôr do sol, as ruas de diversos bairros se enchem de banquinhos e conversas. O público transita entre pontos já consagrados há décadas e os numerosos bares novos que trazem frescor à cena.
Essa efervescência não é apenas uma impressão. O setor de bares e restaurantes fluminense registra há três anos altas consecutivas na arrecadação estadual do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), de acordo com dados do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio) disponibilizados à EXAME.
Baseado na alíquota de 22% do Rio de Janeiro, o faturamento total estimado dos estabelecimentos em 2025 foi de R$ 2,3 bilhões.
"Agora, ser carioca é o turismo", diz a jornalista Marcella Sobral, colunista especializada na cena de bares da cidade, à EXAME Casual. "As coisas eram muito separadas, o turista não vivia a cidade, ele vinha para a praia e em atrações clássicas. Agora não. O estilo de vida carioca é o que as pessoas estão vindo procurar, mais do que o cartão postal."
O setor também está em franca expansão: em 2025, o Rio recebeu 12,5 milhões de turistas, um crescimento de 10,5% em relação aos 11,4 milhões de 2024, de acordo com dados da Prefeitura do Rio de Janeiro. Ao todo, o turismo movimentou cerca de R$ 27,2 bilhões.
Esse sucesso não é acidental. Empreendedores, chefs e mixologistas trabalham para consolidar e expandir a cena. Os esforços não são em vão. Além das altas em faturamento, alguns grandes polos da vida boêmia na capital fluminense já tiveram reconhecimento internacional.
A Rua Arnaldo Quintela, no Botafogo, foi eleita a oitava rua mais cool do mundo pela Time Out em 2022. Três anos depois, a revista britânica novamente escolheu uma rua carioca para o ranking. A Rua do Senado, no Centro, foi eleita a mais cool do mundo pela publicação, sendo a primeira rua latino-americana a ocupar o topo da lista.
"Esses lugares sempre existiram", afirma Sobral. "Eles só ganharam o holofote. Antes se acreditava que era meio feio mostrar essa parte da cidade, que era só bacana mostrar o glamour. Porém, muito da nossa cultura e essência está nesses lugares."
Centro: Rua do Senado e a revitalização cultural
Na Rua do Senado, a presença de bares e restaurantes é crescente. A região já era conhecida pelos antiquários e alguns espaços culturais, diversos deles apoiados pelo poder público e por grandes empresas.
Com o esvaziamento empresarial do Centro da cidade durante a pandemia e os esforços atuais em reocupar esses bairros, a rua recebeu atenção renovada. Dois projetos simbolizam essa revitalização: a Destilaria Maravilha e o Mercado Central.
O Mercado Central veio em uma primeira leva de empreendimentos, com o fomento da Granado. A edificação centenária foi a primeira fábrica da empresa de cosméticos, mas ficou desativada por mais de 15 anos antes da revitalização.
Bocado: no Mercado Central, bar oferece gastronomia assinada pela chef manaura Julia Raposo da Câmara (Bocado / via Instagram/Divulgação)
No final de 2019, o projeto cultural Solar dos Abacaxis, do qual o Mercado faz parte, se instalou no conjunto, conta Larissa Leite, sócia da dobradinha. Com discotecagem ao vivo e mesas de ping pong, os frequentadores têm disponíveis vários ambientes no espaço amplo. Para comer e beber, as opções são crescentes, "a gente tem mais seis operações para abrirem até o final de 2026", afirma Larissa.
Um destaque é o Bocado, aberto em dezembro de 2024 e comandado pela chef Julia Raposo da Câmara. O restaurante realiza noites de vinhos e ostras às quinta-feiras e oferece drinques criativos como o “Cajuzinho” (R$ 30), de cachaça com soda artesanal de caju e limão.
Drinques: o Bocado oferece diversos coquetéis autorais e clássicos (Bocado / via Instagram/Divulgação)
A Destilaria Maravilha, por sua vez, abriu em abril de 2025 com produção própria de cachaça, gin e vodka. Os coquetéis com os destilados da casa são o grande atrativo para o público. O “Gin Basil Smash” (R$ 27) é um dos destaques: a base para o drinque é o manjericão macerado no gin da casa, que é então balanceado pela adição de limão e açúcar.
Gin da casa: o 'Gin Basil Smash' tem como estrelas o gin produzido na própria destilaria e o frescor do manjericão (Paloma Lazzaro/Exame)
Para além do copo, o espaço ganhou notoriedade com sua decoração que une elementos da cultura brasileira a bustos neoclássicos e fotos clássicas do samba feitas por Walter Firmo.
Decoração chamativa: a Destilaria Maravilha tem influências diversas em sua decoração característica (Destilaria Maravilha/Divulgação)
A diversidade da revitalização do Centro também se manifesta na música. Na Rua do Carmo, a poucos quarteirões da Rua do Senado, outro projeto aposta no conceito de casa cultural.
O Trauma chegou em maio de 2025 como uma casa de música voltada ao público LGBT+ e alternativo. A casa é a caçula do já consolidado bar Calma, um dos pioneiros da Arnaldo Quintela.
Trauma: espaço aproveitou a boa relação dos fundadores com artistas e tem música como protagonista (Trauma / via Instagram/Divulgação)
Gabriela Visconti, sócia dos projetos, explica à EXAME Casual que o objetivo com o segundo endereço é nutrir a relação com os artistas. "Desde o início do Calma, a noite gira em torno de quem vai tocar. No Trauma isso é mais potente."
Como bom acompanhamento à música, os coquetéis autorais também fogem do convencional. O destaque vai para o “Nunca Mais” (R$ 28), de Cynar com notas de café, cacau e tônica, e para o “Quebra de Expectativa” (R$32), que faz jus ao nome com uma mistura de cachaça, licor de laranja, grenadine e sucos de pêssego e laranja.
Coquetelaria na pista: o Trauma oferece opções inusitadas de drinques para os frequentadores (Trauma / via Instagram/Divulgação)
Além das festas e dos drinques, ela diz que a ideia é lá também ser uma casa cultural, com projetos de residência e oficinas ligadas à música. “É um ponto também de encontro de debate, parte de música alternativa, nessa cena mais urbana de noite."
A localização na Rua do Carmo não é por acaso. O espaço participa do programa Reviver Cultural, da Prefeitura do Rio de Janeiro, criado para subsidiar locais no Centro e repovoar a região.
"A pandemia foi bem cruel com o centro da cidade. Realmente esvaziou muito. A gente está lá na tentativa de levar coisas legais para a região", diz Visconti. "Infelizmente o fomento vem depois. Não deveria ser assim, né? Porque a cultura tem que ser subsidiada."
Botafogo: Da Arnaldo Quintela ao botequim sofisticado
A Rua Arnaldo Quintela, eleita a oitava rua mais cool do mundo pela Time Out em 2022, consolidou Botafogo como um hotspot da vida noturna carioca. Entre os pioneiros dessa transformação está o Calma.
Irmão mais velho da dupla, ele abriu as portas em 2021, em um contexto pós-pandemia ainda tenso. A decoração irreverente e coquetéis como o “Micro Calma” (R$ 31), de saquê, uísque, lichia e capim-limão, atraíram ao endereço uma clientela fiel.
Calma: casa conquistou clientela fiel e foi uma das pioneiras na, atualmente consolidada, Arnaldo Quintela (Calma / via Instagram/Divulgação)
"A gente sabe que o Calma é uma referência para o público LGBT+ e alternativo. As pessoas já sabem que aqui é um point mesmo", diz a sócia.
A reputação do local chegou aos turistas, de maneira que o faturamento do bar aumenta mais de 100% em períodos como Carnaval e grandes shows internacionais, segundo Visconti. "No fim do ano, mal se ouvia o português aqui no Calma."
Noites cheias: desde o final da pandemia, o Calma atrai cariocas e turistas com seu ambiente característico (Calma / via Instagram/Divulgação)
"Na cidade, existe essa relação de amor com os lugares", analisa Sobral. "É o hiperlocal. Tem um pertencimento àquele lugar, isso é muito carioca."
Mas Botafogo não se resume ao fervo da Arnaldo Quintela. A poucos minutos dali, na Rua Real Grandeza, outro estabelecimento representa uma faceta diferente da noite carioca.
Com pouco mais de um ano em atividade, o Jurubeba foi criado pelo chef renomado Elia Schramm, conhecido por suas casas Babbo e Francese em Ipanema, e seu sócio Flávio Gomes.
O nome, inspirado em uma planta do sertão que simboliza resistência, dá o tom: é uma celebração à cidade com a informalidade do botequim carioca e sofisticação técnica na gastronomia e mixologia.
'Galo Jurubeba': alta coquetelaria e inspiração na informalidade dos botequins são o DNA do Jurubeba (Paloma Lazzaro/Exame)
"O Jurubeba foi uma tentativa e um projeto para sairmos um pouco da bolha de Ipanema", explica Schramm à EXAME Casual. "O público tem em torno de 35 anos e frequenta a cena cultural do Botafogo. Oferecemos chope bem tirado e um cardápio que muda toda semana."
Os drinques ficam a cargo da bartender Paula Diniz, também responsável pela coquetelaria do Babbo.
“Essa carta do Jurubeba é minha queridinha, porque foram drinques que eu já tinha elaborado, mas que eu não tinha onde encaixar”, afirma à EXAME Casual. “Muitas coisas eu não poderia colocar em um cardápio de Ipanema, por exemplo. Aqui, porém, eu consegui inserir bebidas como a catuaba, que nós fazemos na casa.”
Ela diz que a vontade é popularizar a qualidade e criatividade da alta coquetelaria, mas “sem afetação”. A carta conta com clássicos, como a batida de maracujá (R$ 15), presença unânime do botequim carioca. Além deles, os coquetéis autorais de Diniz trazem sabores brasileiros em combinações inusitadas.
'Banho de Cheiro': batizado por Marcela Sobral, o perfil herbal do drinque é fruto da experimentação da mixologista Paula Diniz (Paloma Lazzaro/Exame)
O “Banho de Cheiro” (R$ 26) mistura cachaça, limão, manjericão, pimenta dedo de moça e arruda. "Eu fiz uma releitura de batida de limão. Adicionei manjericão, pimenta e arruda, o que ficou super axé. A Marcela Sobral batizou ele de ‘Banho de Cheiro’", conta Paula.
Já o "Galo Jurubeba" (R$ 33) homenageia Ogum com cachaças especiais, vermute de Jurubeba e uma redução de cerveja preta.
Gávea: Black music e a nova geração de bares
Na Gávea, a poucos metros da PUC-Rio, uma nova proposta promete trazer frescor para o público universitário. No espaço que por anos abrigou o tradicional Seu Pires, o ERRARE surge com um conceito que equilibra acessibilidade e qualidade premium.
Essa é a nova empreitada da dupla pai e filha, Fabio e Eduarda Dupin, já conhecidos por sua forte atuação na cena gastronômica carioca.
Eduarda conta à EXAME Casual que ela mesma frequentava muito o Seu Pires quando era estudante da PUC e tem carinho pelas memórias cultivadas lá, mas que agora quer oferecer uma proposta diferente para o mesmo público.
O bar será dedicado à black music e será comandado pelos bartenders Marcelo Emídio e Léo Black. A programação incluirá DJs, shows ao vivo e noites inteiras voltadas ao groove. Na cozinha, quem assina o menu com uma proposta autoral e sem rótulos é o chef paulista Thiago Gonçalves, que também comanda o Posì Terraza.
"A gente não queria se colocar em nenhuma caixa. A gente queria unir as coisas de que a gente gosta. Entre a maneira que pensamos gastronomia, coquetelaria e música, nós três somos muito fãs de música black no geral, como o rap, o soul e o jazz", explica Gonçalves.
O nome do estabelecimento reflete essa filosofia baseada na frase latina “errare humanum est” (“errar é humano”), tatuada em Thiago. "É daí que surge o conceito do Errare. A gente é imperfeito por completo, então iremos abraçar as nossas imperfeições e criar alguma coisa única", afirma o chef.
"Tem uma galera muito jovem fazendo gastronomia no Rio de Janeiro e isso é muito bacana", diz Marcela Sobral. "Relaxou um pouco a ideia de que só devemos investir em Michelin, só na regra. Tem espaço para diversão também."
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