Do chão da fábrica à liderança: as mulheres que movem a fábrica da Kopenhagen

Por Layane Serrano 9 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Do chão da fábrica à liderança: as mulheres que movem a fábrica da Kopenhagen

No início do século XX, a física polonesa Marie Curie abriu caminho para avanços científicos ao estudar a radioatividade que deu origem a exames como Raio-X e tomografia. Décadas depois, a austríaca Hedy Lamarr criou uma tecnologia que serviria de base para Wi-Fi, Bluetooth e GPS. Mais recentemente, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai mobilizou o mundo ao defender o direito das meninas à educação e as brasileiras Neuza Frazatti, liderou o desenvolvimento da vacina contra a dengue, e a pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, desenvolveu a polilaminina, um medicamento experimental que visa recuperar movimentos em pessoas com lesões medulares.

Essas são histórias diferentes, mas com algo em comum: mostram como mulheres têm sido protagonistas de mudanças na ciência, na sociedade e no trabalho.

Mas há também mulheres que se destacam no mercado em outro cenário: o chão da fábrica.

Foram justamente nas indústrias que surgiram os primeiros movimentos que deram origem ao Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março. No início do século passado, trabalhadoras fabris e do campo foram às ruas exigir melhores condições de trabalho, salários mais justos e direito ao voto. A data, no entanto, passou a ser reconhecida mundialmente e oficializada pela Organização das Nações Unidas (ONU) apenas em 1975.

Décadas depois, a presença feminina no mercado de trabalho cresceu, inclusive nas fábricas.

É o caso da unidade da Kopenhagen, em Extrema, Minas Gerais. A companhia que produz cerca de 8 mil toneladas de chocolate por ano possui 60% da mão de obra feminina, e a EXAME foi até a fábrica conhecer de perto essas mulheres que têm conquistado diferentes papéis dentro da indústria.

Mulheres em todas as áreas da operação

Na fábrica da Kopenhagen, marca de chocololate fundada em 1928, as mulheres estão presentes em praticamente todas as áreas da operação. Muitas começaram como temporárias ou estagiárias e hoje ocupam posições de liderança. Outras passaram a atuar em funções que, até pouco tempo atrás, eram predominantemente masculinas.

É o caso de Erica Cabral, de 40 anos, que decidiu apostar em uma nova função e se tornou operadora de empilhadeira. Dos 49 profissionais que participaram do treinamento, ela foi a única mulher da turma.

“No dia a dia do meu trabalho, operando a empilhadeira, eu vejo outras mulheres do setor logístico, pegando peso e carregando pallet, embalagens. É um incentivo para as mulheres verem e falarem: olha, se empenha, estuda, se aperfeiçoa, isso também é capaz para você,” diz.

Erika Cabral, de 40 anos, que decidiu apostar em uma nova função e se tornou operadora de empilhadeira (Julia Girão/Exame)

Para Michey Piantavinha, diretor da fábrica da Kopenhagen, a presença feminina na operação é resultado de um processo que vem sendo construído ao longo dos anos.

“A nossa fábrica é muito artesanal, fazemos tudo com muito carinho. Então, as mulheres aqui já fazem parte dessa jornada há bastante tempo", diz o diretor.

Segundo ele, a empresa busca oferecer as mesmas oportunidades de capacitação para todos os profissionais.

“Todas as nossas pessoas, independentemente do gênero, recebem a mesma capacitação. Mulheres e homens têm as mesmas possibilidades de crescimento. Isso faz com que a gente chegue a um número tão expressivo de mulheres nas nossas operações.”

Além da diversidade de gênero, a fábrica também tem avançado na inclusão de outras gerações no ambiente de trabalho.

“A fábrica também é uma evolução geracional. Hoje já estamos nos aproximando de 20% do nosso efetivo formado por pessoas com 50+”, afirma.

Da Páscoa temporária à coordenação

Algumas trajetórias dentro da fábrica mostram como essas oportunidades podem se transformar em crescimento profissional.

Cristina Maria do Nascimento entrou na empresa há 14 anos, durante o período de Páscoa, como funcionária temporária. Hoje, ocupa o cargo de coordenadora da linha de produção.

“Essa é a minha décima Páscoa à frente da liderança como coordenação. É sempre um grande desafio. Hoje as pessoas têm outra visão do que é um crescimento profissional.”

Segundo ela, um dos maiores desafios atualmente é incentivar as pessoas a enxergarem oportunidades de evolução na carreira.

“O nosso maior desafio é mostrar para as pessoas que a gente está no lugar que quer estar. As oportunidades vão aparecer e a gente precisa se preparar para isso.”

Onde nascem os novos chocolates

Dentro da fábrica, as mulheres também estão por trás da inovação. É no laboratório que a engenheira de alimentos Sofia Morari testa e aprova novos sabores e coleções da marca para datas comemorativas.

“Eu trabalho aqui no grupo de aplicação da Kopenhagen desde 2015. Em agosto deste ano faço 10 anos de efetiva e cuido praticamente de toda inovação.”

Ela explica que sua função conecta as ideias do marketing com o desenvolvimento técnico dos produtos.

“Eu falo que sou meio que a fada madrinha do marketing. O marketing deseja e eu consigo realizar os desejos deles, claro, com toda a tecnologia da fábrica e com todo o estudo por trás.”

Diversidade também na liderança

A diversidade de gênero também chega aos cargos mais altos da companhia. Desde o ano passado, Martha Uribe se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de vice-presidente de Recursos Humanos da Nestlé Brasil, grupo que adquiriu a Kopenhagen em 2023.

Segundo a executiva, a companhia mantém programas específicos para incentivar o crescimento profissional das mulheres.

“É um orgulho trabalhar para uma organização que fomenta muito o desenvolvimento das mulheres e acredita no empoderamento. Temos diferentes programas para o desenvolvimento.”

Entre eles está o programa Empoderadas, criado para fortalecer a autoconfiança e a liderança feminina dentro das operações.

“É um programa que nasceu nas fábricas com o propósito de ajudar as mulheres a crescer, desenvolver autoestima e autoconfiança, e também ajudar outras pessoas a crescer.”

Outro projeto é o Mulheres em Movimento, voltado para profissionais que trabalham em operações como empilhadeiras.

Hoje, segundo Uribe, 46% das posições de liderança da Nestlé já são ocupadas por mulheres, e a meta é chegar a pelo menos 50%.

“Às vezes nós duvidamos de nós mesmas, mas temos força. Podemos fazer e seguir evoluindo.”

Martha Uribe se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de vice-presidente de Recursos Humanos da Nestlé Brasil, grupo que adquiriu a Kopenhagen em 2023 (Julia Girão/Exame)

Mais de um século depois das primeiras mobilizações que deram origem ao Dia Internacional da Mulher, histórias como as da fábrica da Kopenhagen mostram que o simbolismo da data continua atual.

Se antes a luta era para entrar no mercado de trabalho, hoje o desafio é avançar para posições de liderança, sem esquecer que muitas dessas transformações ainda começam no mesmo lugar de sempre: no chão da fábrica, no laboratório da universidade, na sala de aula.

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