Do pão a celulares, itens ficam mais baratos com dólar recuando
Fevereiro nem terminou e o dólar cai quase a metade do que caiu em todo 2025. No acumulado do ano passado, a moeda, que começou na casa dos R$ 6, recuou 11,18%. Nos primeiros dois meses de 2026, a divisa já recua 5%.
Hoje, o dólar chegou a atingir a mínima de R$ 5,118. Com isso, a moeda americana chega ao menor patamar em quase dois anos. O menor valor anterior visto foi no dia 21 de maio de 2024, quando atingiu a casa dos R$ 5,116.
Mas, no meio do emaranhado de cotações, a pergunta que os consumidores fazem é: qual é o impacto, de fato, na economia real? Segundo Antonio Corrêa de Lacerda, conselheiro federal do Conselho Federal de Economia (Cofecon) e doutor em economia, no curto prazo, a queda da moeda é benéfica – mas no longo prazo, pode pesar no bolso do brasileiro.
“Não há dúvidas de que, no curto prazo, os benefícios são muito grandes, primeiro porque o dólar é um dos componentes fundamentais dos preços, portanto ele tende a diminuir a inflação”, explica.
Ou seja, quando o dólar cai na economia doméstica, os importados ficam mais baratos, o que diminui a pressão sobre a inflação. Isso aumenta o poder de compra dos consumidores.
O problema é que, no médio e longo prazo, se houver uma persistente valorização do real, ou seja, uma desvalorização do dólar, o dólar fica mais barato na economia. “Assim, ele desestimula a produção e a exportação de bens industrializados, aqueles que têm o maior valor agregado”, continua.
De acordo com o especialista, o ideal para a economia é uma taxa de câmbio próxima da estabilidade.
“Eu diria que hoje, ao redor dos R$ 5, nós estamos numa situação de equilíbrio. Portanto, isso traz os benefícios de curto prazo, sem comprometer o longo prazo.”
O pão do dia a dia fica mais barato
Haroldo da Silva, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Cofecon-SP), explica que um dos mais importantes são os alimentos para o dia a dia. "Os fertilizantes acabam ficando mais baratos, porque são importados, e conforme utilizados na agricultura, é um redutor de custos que acaba chegando à mesa do consumidor final."
Além de fertilizantes, máquinas, tecnologia e algumas embalagens também são importadas, ficando mais baratas, o que reflete numa desaceleração de alimentos e de produtos básicos. "Produtos eletrônicos e bens duráveis também têm uma grande parcela de itens importados", diz.
Medicamentos, equipamentos médicos e peças automotivas também têm um processo de cadeia de produção global e, claro, alguns desses itens importados reduzem a pressão sobre os preços, favorecendo inclusive o acesso das famílias a esses bens duráveis.
Outro ponto é a relação de combustíveis e fretes. "O petróleo é cotado internacionalmente em dólar, então qualquer variação da moeda para baixo reduz a cotação dessa commodity, o que certamente chega na bomba no posto de gasolina", comenta Silva.
O resultado de tudo isso, novamente, é o aumento do poder de compra do brasileiro, ou seja, o salário valoriza. "O pão do dia a dia acaba sendo impactado e isso traz mais alívio na capacidade de compra dos salários brasileiros. Inclusive, até a classe média passa a ter mais acesso a comprar outros produtos e também a viagens internacionais a preços melhores."
Entretanto, ele também alerta: a desvalorização do dólar tem implicações negativas, como pressionar a balança comercial e a balança de serviços. "Como fica mais atrativo importar produtos e serviços, do outro lado dificulta a vida das empresas brasileiras em exportar os seus produtos."
Valorização do real ainda não reflete fatores domésticos
O dólar vem mostrando sinais de perda de força frente a diversas moedas no cenário internacional, e não apenas em relação ao real. "Não quer dizer que o Brasil esteja ganhando valor com a sua moeda", enfatiza Haroldo da Silva, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Cofecon-SP).
Esse movimento reflete uma combinação de fatores externos, incluindo instabilidade econômica nos Estados Unidos e decisões políticas que geram incerteza, como mudanças nas tarifas e interferências na autonomia do Banco Central.
A leitura de gestores e economistas é que o dólar atravessa um período de desgaste estrutural, pressionado por fatores internos e externos aos Estados Unidos.
Para Enrico Cozzolino, CEO da Zermatt Partners, a confiança quase automática na moeda americana começa a ser questionada. Ele avalia que a saída recente de capital estrangeiro dos EUA, somada às incertezas sobre a trajetória da inflação e da dívida pública, vem sustentando um movimento de desvalorização do dólar há algum tempo.
Na análise do estrategista, as políticas adotadas por Donald Trump também contribuíram para esse cenário. O aumento de tarifas comerciais no ano passado elevou a incerteza sobre os rumos da economia americana e levou investidores a rever posições. Mais recentemente, a decisão da Suprema Corte que derrubou medidas do republicano teria ampliado as dúvidas sobre a força institucional do país.
Felipe Sant’Anna, da Axia Investing, afirma que a sucessão de pacotes tarifários e os ruídos nas relações comerciais com parceiros históricos aumentaram a aversão ao risco, incentivando a migração para ativos como ouro e para outras moedas. Segundo ele, há hoje duas forças atuando na mesma direção: um dólar mais fraco globalmente e uma entrada relevante da moeda no Brasil, impulsionada pelo diferencial de juros.
Com a Selic em 15% ao ano, o Brasil se beneficia do carry trade, estratégia em que investidores captam recursos em países de juros baixos para aplicar onde as taxas são mais altas. Enquanto o Federal Reserve se aproxima do fim do ciclo de aperto monetário, o diferencial segue elevado.
Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, projeta que, mesmo com eventual queda da Selic ao longo do ano, o diferencial em relação aos EUA deve permanecer próximo de 10%. Para ela, o patamar ainda é suficientemente atrativo para sustentar o fluxo para o país. A economista também aponta que o dólar perdeu força globalmente por razões institucionais e geopolíticas.
Nesse contexto, pesa ainda a escalada de tensões no Oriente Médio. A Casa Branca tem intensificado a pressão sobre o Irã, com envio de navios e aviões de guerra à região e declarações mais duras, adicionando um novo componente de incerteza ao cenário internacional.
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