Dólar chega a menor nível em quase dois anos: é hora de comprar?
O dólar voltou a cair com força nesta quarta-feira, 8, em um movimento que mistura fatores externos e técnicos, e levanta dúvidas sobre até onde a moeda americana pode recuar — e se este já é um bom momento para o investidor se posicionar.
A moeda abriu o pregão em queda de quase 1,5%, a R$ 5,079, renovando o menor patamar em quase dois anos. A última vez que havia fechado abaixo de R$ 5,10 foi em maio de 2024. Não é só no Brasil que o dólar está perdendo valor hoje. O índice DXY, que mede o desempenho da moeda frente a divisas de países desenvolvidos, também recua.
O principal gatilho veio do exterior. A trégua anunciada entre Estados Unidos e Irã reduziu a percepção de risco global e provocou uma forte queda nos preços do petróleo. O cessar-fogo, firmado após 40 dias de conflito, reacendeu a expectativa de reabertura do Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do fornecimento global da commodity.
A reação foi imediata: o contrato do Brent para junho chegou a cair mais de 16%, a maior queda diária em seis anos, enquanto o WTI, referência nos Estados Unidos, recuava cerca de 18%. “Embora muito frágil, a reabertura do Estreito de Ormuz melhorou o clima de incerteza, reduzindo a aversão ao risco, e isso contribui para essa queda do dólar”, escreve André Galhardo, economista-chefe na Análise Econômica.
O petróleo é algo que influencia o “humor” da economia global: quando ele cai, significa que a pressão de preços no mundo tende a diminuir, então os juros lá fora, principalmente nos EUA, não precisam ficar tão altos por muito tempo, explica Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
“Com juros mais baixos nos EUA, o dinheiro global deixa de ficar tão concentrado no dólar e começa a buscar países que pagam juros maiores, como o Brasil, o que aumenta a entrada de dólares aqui e faz o preço do dólar cair”, diz.
Somado a isso, quando a tensão geopolítica diminui, o risco percebido pelos investidores cai. Com isso, o dólar perde parte do seu papel de “porto seguro” e o capital começa a fluir novamente para mercados emergentes, novamente como o Brasil. Esse movimento contribui para a valorização do real, reforçando a queda do dólar no curto prazo.
Entrada de capital gringo
Além do alívio geopolítico, há um pano de fundo mais amplo ajudando a explicar o movimento do câmbio. “A queda recente do dólar reflete uma combinação de enfraquecimento global da moeda americana com reprecificação de risco, em um contexto em que a guerra elevou o preço do petróleo, mas ainda não gerou ruptura efetiva no fluxo global de comércio”, pontua.
Em outras palavras, apesar do conflito ter pressionado o preço do petróleo, ele não chegou a travar o comércio global nem a circulação de dinheiro entre países. Isso mantém o ambiente internacional com liquidez — ou seja, com capital disponível para investir, o que favoreceu países emergentes.
O Brasil, visto como principal case para o investidor gringo, recebeu, segundo dados da B3, a entrada líquida de R$ 53,8 bilhões em 2026 até março, com os investidores internacionais respondendo por mais de 60% do volume negociado no período. Hoje, inclusive, o Ibovespa superou os 193 mil pontos pela primeira vez.
Dólar pode cair mais?
Galhardo diz que o dólar pode cair ainda mais. “Tem espaço para mais desvalorização ao longo dos próximos dias, mas isso depende dos desdobramentos geopolíticos no Oriente Médio. Esse cessar-fogo é muito frágil, mas se tornar permanente, existe sim espaço para mais queda do dólar no mercado internacional.”
Porém, para Lima, o espaço para novas quedas pode ser limitado, especialmente diante de um cenário externo ainda incerto e sujeito a mudanças rápidas.
“O atual nível já incorpora fluxo e diferencial de juros, enquanto o cenário global segue assimétrico. A guerra mantém viés de alta para commodities, especialmente petróleo, o que pode reacender pressões inflacionárias e forçar bancos centrais a adiar cortes, fortalecendo novamente o dólar”, diz Lima.
Vale a pena comprar dólar agora?
Com a moeda americana nos menores níveis em quase dois anos, volta à tona a dúvida sobre o melhor momento para comprar dólar. Para Lima, a decisão deve ser estratégica, e não uma aposta de curto prazo.
“O patamar de agora reduz o custo de proteção e permite recomposição de exposição internacional em um momento em que os riscos estão subprecificados no câmbio, especialmente os ligados à escalada do conflito e seus efeitos sobre energia e inflação global”, comenta.
Ele continua: “Acredito que comprar dólar nesse contexto não é aposta direcional imediata, mas hedge contra reprecificação de juros globais, deterioração de fluxo para emergentes e eventual choque de commodities que possa inverter rapidamente o ciclo cambial.”
Na visão de Galhardo, se alguém demanda dólar, é importante fazer isso de forma escalonada. “Pode ser uma boa decisão distribuir parte da sua demanda por moeda ao longo dessas próximas horas ou dos próximos dias, já que o patamar está bastante baixo em relação ao comportamento recente. Pode haver novas oportunidades”
Mas o dólar pode ganhar força?
O dólar enfrenta pressões contraditórias. Por um lado, a guerra no Oriente Médio continua sendo o principal fator de volatilidade. Apesar da queda do petróleo nesta quarta-feira, 8, os efeitos do conflito já se refletem na inflação americana, que deve subir nos próximos meses. Isso afasta a possibilidade de cortes de juros pelo Federal Reserve e, em teoria, poderia fortalecer a moeda.
Por outro lado, mesmo com a inflação mais alta e os juros mantidos, a taxa real de juros nos Estados Unidos caiu. Essa redução tende a enfraquecer o dólar, pois diminui a atratividade dos investimentos em títulos americanos. Antes do conflito, o mercado discutia cortes de juros ainda em 2026; hoje, a discussão inclui até a possibilidade de alta de juros no próximo ano.
No curto prazo, a tendência de desvalorização do dólar deve continuar, mas o cenário permanece sensível aos desdobramentos da guerra. Qualquer escalada do conflito pode rapidamente reverter a trajetória da moeda, mostrando que, embora haja espaço para o real se fortalecer, a volatilidade segue elevada.
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