Dr. Catástrofe previu crise de 2008 e diz que mercado subestima guerra no Irã
O economista Nouriel Roubini ficou conhecido por ter previsto a crise financeira de 2008, e por esse motivo ganhou o apelido de Dr. Catástrofe. Agora, ele diz que o mercado financeiro global está subestimando os riscos atuais em torno da guerra no Irã. O cenário, segundo Roubini, é de "hiperincerteza". A avaliação foi feita nesta terça-feira, 7, durante a 12ª edição do Brazil Investment Forum, evento realizado pelo Bradesco BBI para investidores e executivos, em São Paulo.
Para ele, apesar da sucessão de choques recentes, como o petróleo acima dos US$ 100, os preços dos ativos ainda não refletem plenamente os riscos à frente. Roubini traçou uma linha do tempo para ilustrar a deterioração do ambiente global, citando desde a pandemia de Covid-19 até os conflitos mais recentes no Oriente Médio.
Segundo ele, porém, "está claro que as principais fontes de incerteza atualmente vêm dos Estados Unidos e do presidente americano", afirmou.
Durante o painel, ele listou uma série de preocupações associadas ao governo americano, como o avanço do protecionismo, políticas migratórias restritivas, tensões geopolíticas e pressões sobre a independência do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).
Entre os pontos destacados, Roubini mencionou o uso do dólar como instrumento de política externa e os riscos à sua hegemonia global. "As pessoas temem que o privilégio exorbitante do dólar americano como principal moeda de reserva global possa desaparecer", disse ele.
Estagflação à vista
No campo geopolítico, o economista concentrou sua análise na atual guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, apontando que o conflito pode ter impactos relevantes sobre inflação e crescimento global.
"Quanto mais tempo a guerra durar, maiores serão os preços de energia por mais tempo e maior será o impacto sobre inflação e crescimento", disse. Roubini comparou o cenário aos choques do petróleo da década de 1970, lembrando que "a década de 1970 foi conhecida como a década da estagflação, da recessão e da alta inflação".
Hoje, segundo ele, há diferenças estruturais, como menor dependência global de petróleo e maior diversificação energética, mas o risco segue elevado. Em seu cenário-base, caso o conflito dure até dois ou três meses, o efeito seria de uma "estagflação leve”, com crescimento mais fraco e inflação moderadamente mais alta.
Roubini também destacou que os efeitos variam entre países. Economias importadoras de energia tendem a sofrer mais, enquanto exportadores, como Brasil e Estados Unidos, podem se beneficiar nos termos de troca, ainda que com impacto negativo líquido sobre o crescimento.
Ao analisar a reação dos mercados, o economista afirmou que os preços atuais sugerem uma aposta majoritária na desescalada do conflito, hipótese com a qual ele discorda.
Roubini vê risco de escalada no conflito
"O mercado acredita que a guerra vai terminar em breve. Eu tenho uma visão diferente, acho mais provável que haja uma escalada", disse o economista.
Roubini traçou três cenários para o conflito e destacou que, em sua avaliação, há 75% de probabilidade de escalada, somando os casos em que ela termina com vitória (55%) ou fracasso (20%). Já a desescalada diplomática teria apenas 25% de chance.
"Para mim, a probabilidade de desescalada é de apenas 25%. A de escalada e vitória é de 55%, e a de escalada com fracasso, 20%", afirmou.
No cenário mais adverso, de escalada da guerra sem sucesso, os impactos podem ser duradouros e severos. "Você acaba com algo próximo à estagflação dos anos 70. Isso é um pesadelo, recessão global, inflação de dois dígitos e mercados caindo 20% ou 30%", disse.
Para Roubini, o desfecho da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã será determinante não apenas para os mercados, mas também para a credibilidade internacional dos EUA. "Parar a guerra agora e deixar o Irã vencer seria um desastre econômico, financeiro e geopolítico", afirmou.
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