DW! Semana de Design de São Paulo celebra 15 edições com o tema 'Legado Criativo'
Em 2026, a DW! Semana de Design de São Paulo completa 15 edições e acontece de 5 a 22 de março de 2026, espalhada por nove distritos da capital paulista. Considerado o maior festival urbano de design da América Latina, a DW! reúne mais de 400 atividades — entre exposições, lançamentos, debates, instalações e experiências — conectando marcas, estúdios, arquitetos, designers e o público em uma programação majoritariamente gratuita. O que começou, em 2011, como um fim de semana dedicado ao design se transformou em uma plataforma de cidade e em um termômetro do setor. À frente dessa trajetória está Lauro Andrade, idealizador do festival, que reflete sobre legado, escala e os próximos passos do evento. Confira.
A DW! chega à 15ª edição com o tema “Legado Criativo”. Que legado concreto você acredita que o festival já deixou para o design brasileiro — e qual ainda precisa ser construído? A DW! chega à sua 15ª edição reafirmando algo que esteve presente desde o início: a capacidade de antecipar movimentos e estruturar o design brasileiro como potência cultural e econômica.
Sem dúvida, a DW! evoluiu em sintonia com o mercado e com o próprio amadurecimento do design no Brasil. Ao longo desses anos, construímos juntos propostas, ferramentas e ações que contribuíram para posicionar o país no cenário internacional com autenticidade. O legado já deixado é coletivo e consistente: não se traduz apenas em números — ainda que eles sejam expressivos —, mas sobretudo no reconhecimento da crítica, na profissionalização do setor e na consolidação de uma visão estratégica da cadeia produtiva do design.
Acredito que o principal legado da DW! foi ter identificado, há 15 anos, o potencial de ocuparmos esse espaço — e, mais do que isso, ter implementado uma visão estruturante. Ao articular indústria, criadores, varejo, imprensa, formadores de opinião e público final, o festival ajudou a consolidar o design brasileiro como um ecossistema integrado, orientado por estratégia, dados e capacidade de articulação. Esse movimento fortaleceu marcas, revelou talentos e ampliou a percepção de valor do design nacional.
O legado que ainda precisa ser construído passa por aprofundar essa internacionalização de maneira ainda mais sistemática, ampliar a presença de novos territórios criativos e fortalecer a dimensão sustentável e social do design brasileiro. Mais do que projetar produtos, o design projeta futuro — e o próximo capítulo da DW! está justamente em consolidar esse papel transformador, conectando inovação, identidade e impacto positivo de forma cada vez mais estruturada e perene.
Em 15 anos, a DW! saiu de um fim de semana dedicado ao design para se tornar uma plataforma de cidade. Em que momento você percebeu que o evento tinha ultrapassado a escala de feira e ganhado outra dimensão? Percebi que a DW! havia ultrapassado a escala de feira e ganhado outra dimensão quando o movimento começou a extrapolar o calendário e o perímetro físico do evento — quando deixou de ser um encontro concentrado focado no setor e passou a funcionar como um articulador permanente do ecossistema, incluindo um público mais amplo e diversificado.
Em 2010, já estava claro para mim que não bastava termos bons designers; era preciso criar um ambiente capaz de integrar criadores, marcas, varejo, imprensa e público. A DW! nasce dessa visão: não apenas como evento, mas como uma verdadeira infraestrutura cultural para a promoção do design nacional. Na primeira edição, éramos cerca de 40 profissionais, com uma programação bastante concentrada e setorial. Hoje reunimos mais de 1.500 criativos, 150 marcas, estúdios e instituições, realizamos cerca de 400 atividades distribuídas por múltiplos distritos de São Paulo e expandimos para outras capitais com as DW! Tours no Rio de Janeiro, Brasília e Balneário Camboriú, além de marcar presença em feiras internacionais.
Mas a verdadeira virada não foi apenas numérica — foi estrutural. O design brasileiro amadureceu junto com a DW!. Ganhou autoconfiança, organização e reconhecimento por seu DNA próprio. Quando passamos a atuar como plataforma de cidade, conectando diferentes territórios, setores e linguagens criativas, ficou evidente que o projeto havia se transformado em algo maior: um ecossistema integrado.
A edição comemorativa dos 15 anos simboliza bem essa dimensão. Firmamos, pela primeira vez, uma parceria institucional com as Secretarias de Economia Criativa, municipal e estadual, para a realização do Fashion Hub DW! no CCSP – Centro Cultural São Paulo, reunindo estilistas, feiras, talks e exibições de filmes. Esse diálogo institucional reforça que a DW! deixou de ser apenas um evento de agenda e passou a integrar a estratégia cultural e econômica da cidade.
Naturalmente, os desafios iniciais foram muitos — estruturar equipe, legitimar a proposta, captar recursos, coordenar agendas e entregar excelência. Transformar uma ideia em um festival urbano exigiu visão de longo prazo, articulação minuciosa e persistência. Se hoje a DW! é reconhecida como plataforma, é porque ao longo desses 15 anos construímos confiança com toda a cadeia — indústria, varejo, designers e poder público — consolidando o design como sistema e não como iniciativas isoladas.
Edição comemorativa ocorre entre 5 e 22 de março de 2026 e ocupa nove distritos da capital, com 150 marcas, instituições e estúdios apresentando mais de 400 atividades, majoritariamente gratuitas, e expectativa de público de 120 mil visitantes (Fabiano Sanches/Divulgação)
A edição de 2026 marca uma expansão em número de distritos e atividades. O que diferencia esta DW!15 das anteriores — em proposta, ambição e impacto para São Paulo? A DW!15 se diferencia das edições anteriores porque aprofunda, de forma estratégica, a sua vocação urbana e amplia sua ambição como plataforma estruturante da cidade.
Em 2026, organizamos a programação em nove Distritos de Design — oito presenciais e um digital — transformando São Paulo em um grande circuito criativo integrado. Essa lógica, inspirada nos maiores festivais internacionais, não apenas distribui atividades pelo território, mas cria conexões entre vocações distintas da cidade, articulando tradição, mercado, experimentação e política pública.
Da consolidada Alameda Gabriel Monteiro da Silva, epicentro do ar décor brasileiro e palco dos grandes lançamentos, aos Jardins e eixo Sul, onde marcas históricas dialogam com o design autoral, estruturamos um mapa que equilibra força comercial e vanguarda criativa. O D&D Shopping reforça a dimensão de negócios e lifestyle, enquanto o território ampliado que integra Paulista, Santa Cecília, Barra Funda e Higienópolis traz protagonismo à cena independente, com feiras, ocupações e debates.
O centro histórico ganha ainda mais relevância cultural, ativando edifícios emblemáticos e reunindo centenas de criativos, enquanto Pinheiros, Vila Madalena e o eixo Oeste irradiam experimentação autoral. No eixo Norte, o Lar Center consolida sua posição estratégica ao sediar os DW! Talks SP, fortalecendo o debate contemporâneo do setor.
A grande novidade desta edição é o inédito Distrito Fashion Hub DW!, no Centro Cultural São Paulo, que ocupa mais de dois mil metros quadrados com uma programação gratuita dedicada à convergência entre moda, design circular e economia criativa. É a primeira vez que a DW! incorpora de forma estruturada a cadeia produtiva da moda ao seu ecossistema, ampliando seu impacto e dialogando diretamente com políticas públicas de economia criativa, além de ter o apoio oficial do poder público por meio de suas secretarias de economia criativa.
Com mais de 400 atividades e cerca de 150 marcas envolvidas, como manter identidade e curadoria em um evento dessa escala? Manter identidade e curadoria em um evento com mais de 400 atividades e cerca de 150 marcas exige, antes de tudo, clareza sobre aquilo que nos une. E, para mim, essa convergência está na autenticidade e no DNA do design brasileiro.
Retomo algo que considero essencial: de Norte a Sul, designers e marcas estão cada vez mais interessados em traduzir suas origens, suas referências culturais e seus territórios de maneira contemporânea. Essa busca pelo que é próprio cria uma linha condutora natural. A curadoria da DW! não se dá pela homogeneização, mas pela valorização dessa identidade plural que, paradoxalmente, gera unidade.
O Brasil tem uma capacidade singular de combinar repertório técnico consistente com identidade local. Transformamos diversidade em linguagem própria. É essa síntese entre cultura, inovação e contexto que estrutura a narrativa do festival. Mesmo em escalas maiores, a coerência vem da escolha de projetos, marcas e conteúdos que dialogam com esse princípio: não basta ser lançamento ou novidade — é preciso ter lastro conceitual, pertinência e conexão com o momento do design brasileiro.
Além disso, trabalhamos com uma lógica curatorial organizada por distritos, cada um com vocação clara — seja mais voltado a negócios, à experimentação autoral, ao debate, à cultura urbana ou à convergência com outros setores, como a moda. Essa organização territorial ajuda a preservar a identidade dentro da amplitude.
Em um país continental, a pluralidade é inevitável — e desejável. O que garante a unidade da DW! é justamente essa visão estratégica que reconhece a diversidade como força, mas a articula sob um propósito comum: projetar um design brasileiro contemporâneo, relevante e reconhecível por seu caráter próprio.
O tema deste ano coloca o tempo como matéria-prima. O que o design brasileiro de hoje revela sobre o momento que estamos vivendo como sociedade? Adorei essa pergunta, porque ela toca no que considero mais essencial: o design é — e deve ser — para todos. Ele não é apenas objeto, é linguagem social. Fala sobre como habitamos o mundo, como nos relacionamos, como projetamos futuro.
Quando colocamos o tempo como matéria-prima, estamos reconhecendo que o design brasileiro de hoje reflete um momento de transição e consciência. Vivemos uma sociedade que revisita suas origens ao mesmo tempo em que busca inovação. Há um desejo claro de pertencimento, de identidade, de conexão com território e memória — mas também de ousadia, tecnologia e novas formas de produzir e circular valor.
Ele expressa um país que aprende com seus desafios, que reconhece suas complexidades e que busca soluções criativas para questões ambientais, sociais e econômicas.
Na DW!, trabalhamos sempre com a premissa de ampliar o acesso ao que está sendo produzido. Ainda que nem todos possam adquirir determinadas peças, durante o festival é possível conhecer processos, dialogar com criadores, entender escolhas e repertórios. A cidade se transforma em um circuito pulsante de ideias, experiências e conexões — e isso já é uma forma concreta de democratização do design.
Se hoje estamos entre os maiores festivais de economia criativa com foco em design no mundo, é porque aprendemos a acompanhar o espírito do tempo. Nosso “Legado Criativo” é justamente essa capacidade de nos reinventarmos, de propor ideias na escala monumental de São Paulo, de valorizar pluralidade e colaboração. O design brasileiro revela uma sociedade que começa a entender que o valor está tanto no individual quanto no coletivo — e que o verdadeiro legado se constrói na interseção entre memória, inovação e impacto.
Em uma edição que ocupa nove distritos, quais experiências sintetizam melhor o espírito da DW!15 e não podem ficar fora do radar? Com mais de 400 atividades previstas, extremamente distintas entre si, que dialogam com públicos diversos e territórios muito específicos, seria injusto destacar algumas e deixar outras de fora.
O que posso dizer é que esta edição reafirma de maneira muito clara o seu caráter urbano. Ao ocupar nove distritos, transformamos São Paulo em um grande circuito criativo, onde cada território sintetiza uma dimensão do espírito da DW!. Um dos distritos é justamente um distrito digital, vivo, atualizado diariamente com toda a programação: (dwsemanadedesign.com.br/festival/dwsp2026)
No entanto, posso adiantar que na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, vemos a potência do arqdecor brasileiro, com grandes lançamentos e ativações de marcas consolidadas. Nos Jardins e no eixo Sul, tradição e design autoral convivem em um diálogo sofisticado. O D&D Shopping concentra experiências voltadas a lifestyle e negócios, enquanto o território ampliado que integra Paulista, Santa Cecília, Barra Funda e Higienópolis coloca em evidência a cena independente, com feiras, ocupações e debates que conectam arquitetura, arte e inovação.
O centro histórico reforça a dimensão cultural e urbana do festival, ativando edifícios emblemáticos e a memória arquitetônica da cidade. Já o circuito Pinheiros, Vila Madalena e Oeste irradia experimentação entre ateliês, galerias e mostras autorais. No eixo Norte, o Lar Center recebe os DW! Talks SP, trazendo grandes nomes para reflexões contemporâneas sobre o setor. E o inédito Fashion Hub DW!, no Centro Cultural São Paulo, inaugura um território dedicado à convergência entre moda, design circular e economia criativa, ampliando ainda mais o alcance do festival.
Mais do que elencar “imperdíveis”, convido o público a explorar a nossa plataforma oficial, onde a programação é atualizada diariamente. A DW!15 não é um roteiro fechado — é uma experiência de descoberta. O espírito desta edição está justamente na possibilidade de cada visitante construir o seu próprio percurso dentro dessa cartografia criativa que ocupa a cidade.
15ª DW! Semana de Design de São Paulo De 5 a 22 de março de 2026 Local: 9 distritos pela cidade de São Paulo Programação: majoritariamente gratuita, com inscrições pelo site do festival dwsemanadedesign.com.br/festival/dwsp2026
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