Educação de Jovens e Adultos: desenvolvimento é não deixar ninguém para trás

Por Duda Salabert 28 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Educação de Jovens e Adultos: desenvolvimento é não deixar ninguém para trás

“Eu desenvolvi problemas sérios de coluna trabalhando como auxiliar de limpeza. Hoje não consigo ficar sentada, mal me locomovo. Não consegui ir mais à escola”, desabafa Sheila Gonçalves, de 61 anos.

O relato de quem teve de sair das aulas do EJA, a Educação de Jovens e Adultos (EJA), por questões de saúde e barreiras familiares. Infelizmente, esse não é um caso isolado, mas o rosto humano de uma estatística severa.

Seja pela exaustão física de quem atravessa a cidade após o trabalho ou pela impossibilidade biológica de retomar os estudos na maturidade, o programa enfrenta um esvaziamento.

Em 2024, a modalidade perdeu 198 mil alunos, atingindo o menor patamar de sua história. Um abismo que, em Minas Gerais, atinge milhões de cidadãos que ainda lutam pela alfabetização básica ou pela conclusão do ensino médio.

Para pensarmos em soluções para a tal evasão e atrair quem ainda está fora da sala de aula, escutei quem vive diariamente e pensa a realidade da EJA, o coordenador de EJA em Belo Horizonte e membro do Programa EJA como Direito Humano (UFMG), Adelson França Junior.

Para ele, a virada de chave exige que a modalidade seja assumida como uma política pública de Estado contínua e com investimento garantido, superando o caráter de projeto pontual.

Mais do que apenas ofertar vagas, é importante que a proposta defenda que a educação se manifeste em espaços diversos, escolares ou não, que sejam territorialmente referenciados.

Em outras palavras, para que histórias como a de Sheila não se repitam, precisamos combater, acima de tudo, a exclusão escolar.

A rotina pedagógica precisa dialogar com o contexto específico de jovens, adultos e idosos e que ofereça uma estrutura que acolha a realidade de quem vive as marcas do trabalho e do tempo.

Inclusive, essa é a proposta do PNE para o próximo decênio, que reposiciona a EJA como eixo estratégico ao priorizar a ampliação do acesso, a redução da evasão e do analfabetismo funcional, além de estabelecer metas progressivas de conclusão da educação básica por adultos.

O plano também fortalece a integração com a educação profissional, retoma materiais didáticos específicos via PNLD, amplia a oferta em diferentes turnos e, pela primeira vez, inclui a população idosa, buscando garantir mais equidade e acompanhamento contínuo dos resultados.

No estado de Minas Gerais, a carência educacional se distribui em camadas críticas: são mais de 1,2 milhão de mineiros não alfabetizados, somados a 7,2 milhões que possuem instrução nula ou o ensino fundamental incompleto. Há ainda um contingente de 2,8 milhões de pessoas que iniciaram o ensino médio, mas não conseguiram o diploma.

Ao todo, o Estado assiste ao esvaziamento das salas de aula que deveriam, ironicamente, acolher esses milhões de cidadãos que, como Sheila, interromperam suas trajetórias pela urgência da sobrevivência. A Escola Municipal Polo de Educação Integrada, em Belo Horizonte, é um ponto fora da curva quando o assunto é evasão.

“O principal ponto tem a ver com nossa perspectiva de educação, que reconhece a EJA como direito de fato, social e humano. E, a partir disso, a gente tenta acolher e atender todas as pessoas de forma contextualizada e cuidadosa. Tentamos nos aproximar e manter contato sempre que estão presentes e especialmente quando faltam”, completa França.

Parece-me desnecessário ter de falar sobre a importância da EJA em Minas e no país, mas o Governo de Minas faz com que eu me posicione, tendo em vista que interromperam as aulas em uma escola que já contava com 20 matrículas. Oficiamos a Secretaria de Educação, mas não recebemos retorno, o que é comum.

Os dados da EJA deixam de ser apenas um retrato da desigualdade e passam a revelar um desafio central para o país. Em um Brasil que envelhece e já não conta com o bônus demográfico, elevar a escolaridade de quem está trabalhando não é só uma questão de reparação histórica, é uma necessidade para o próprio desenvolvimento nacional.

O problema é que a queda nas matrículas mostra que o modelo atual não conversa com a vida real de quem enfrenta jornadas exaustivas para sobreviver. Por isso, a EJA precisa estar na centralidade das políticas públicas e ocupar o centro do debate, com uma proposta que respeite o tempo, o trabalho e a dignidade dessas pessoas. Não existe crescimento econômico sustentável sem incluir quem, todos os dias, sustenta este país.

Um dos principais motivos que afastam jovens e adultos da EJA é a falta de conexão real com a vida concreta dessas pessoas, especialmente com o mundo do trabalho. Para quem precisa pagar contas e sobreviver, a fome vem antes da moral, e voltar a estudar só faz sentido quando existe perspectiva de melhorar a renda e conquistar dignidade.

Quando essa ponte não existe, a escola deixa de ser prioridade e passa a parecer um luxo diante das urgências do cotidiano.

É por isso que manter matrículas na EJA não é apenas uma questão de oferta, mas de sentido: enquanto a educação não dialogar com as necessidades reais da classe trabalhadora, continuaremos excluindo justamente quem mais precisa dela.

E o relógio de quem trabalha corre em um ritmo diferente, acelera transições temporais. O que poderia soar como uma meta utópica revela-se, na verdade, como a urgência de alinhar a educação à justiça climática. A emergência ambiental deixou de ser uma página distante nos livros de previsão para se tornar o presente.

Áreas como energias renováveis, saneamento, gestão de resíduos e construção sustentável não são apenas setores econômicos; são as novas frentes de trabalho que exigem qualificação imediata. Integrar a EJA a esses campos aparece como uma possibilidade real de reposicionar a política pública.

Apostar na junção entre o ensino médio e a qualificação técnica parece ser um caminho promissor para unir, na prática, o combate às desigualdades com uma economia que precisa ser mais sustentável.

Ao oferecer uma formação que dialogue diretamente com o mercado, acredito que seja possível enfrentar a evasão com oportunidade real de renda para jovens e adultos.

Defendo a educação como essa mola de transformação social, mas tenho consciência de que a vontade, sozinha, não muda a vida de quem tem urgência e, para que essa transição aconteça, o caminho passa por investimento, claro.

Destinei mais de R$ 17 milhões aos Institutos Federais de Minas Gerais, que são referência em qualidade e têm a capacidade de levar o PROEJA para onde ele mais precisa chegar, integrando, na mesma jornada, a conclusão do ensino médio com a formação técnica.

Esse investimento não é apenas sobre ampliar vagas, mas sobre garantir que a educação dialogue com a realidade de cada território e com o futuro de quem precisa trabalhar e estudar.

É uma escolha política: transformar a escola em caminho concreto de renda, autonomia e dignidade. Porque não basta abrir a porta da sala de aula, é preciso garantir que quem entra tenha condições reais de construir uma nova trajetória.

*Duda Salabert é deputada federal pelo PSOL-MG e integra a Frente Parlamentar Mista da Educação. Sua atuação no Congresso tem sido marcada pela defesa da educação pública como ferramenta de transformação social e combate às desigualdades, além de pautas que articulam justiça climática e inclusão social.

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