Preços do leite saltam 12% no Brasil — e não devem cair tão cedo

Por César H. S. Rezende 15 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Preços do leite saltam 12% no Brasil — e não devem cair tão cedo

Após registrar queda em 2025, o preço do leite e de seus derivados voltou a subir no Brasil em 2026, por causa da redução da produção e pelo aumento dos custos para manter o rebanho. O movimento já impacta a inflação e tende a continuar com o conflito no Oriente Médio.

Dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do Brasil, mostram que o leite longa vida ficou 11,7% mais caro em março.

Antes disso, o produto havia caído 5,6% em janeiro e subido 1,2% em fevereiro, indicando uma reversão na tendência de preços. O aumento contribuiu para pressionar o grupo alimentação do IPCA. No mesmo período, outros derivados também registraram alta: iogurte (+1,58%), queijo (+1,95%) e leite em pó (+0,85%).

A principal razão para a alta está na menor oferta de leite no mercado. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da USP, a captação caiu 3,6% em janeiro e fevereiro na Média Brasil, com destaque para os recuos em Minas Gerais, Paraná e Goiás. O dado de março ainda não foi divulgado.

Esse movimento também aparece no Índice de Captação de Leite (ICAP-L), que registrou queda de 3,6% no período, influenciado pelos resultados negativos em estados como Paraná, Goiás, São Paulo e Minas Gerais.

Com menos leite disponível, a indústria passou a pagar mais caro pela matéria-prima. Em fevereiro, o valor pago ao produtor subiu 5,43%, custo que foi repassado ao consumidor nas prateleiras no mês seguinte.

A diminuição da captação é explicada por dois fatores principais. De um lado, a sazonalidade: o clima neste período reduz a qualidade das pastagens e eleva os custos com alimentação animal.

De outro, a cautela dos produtores em investir, após sucessivas quedas no preço do leite em 2025 e margens mais apertadas.

No ano passado, a produção de leite alcançou um patamar histórico, com crescimento estimado em 7,2% em relação a 2024, somando 27 bilhões de litros.

Ao mesmo tempo, as importações seguiram em volume elevado. Apesar de uma queda de 4,2% na comparação com 2024, a balança comercial ainda registrou um déficit de cerca de 2 bilhões de litros equivalentes. O leite em pó continua sendo o principal produto importado, segundo o Centro de Inteligência do Leite (Cileite/Embrapa).

Esses fatores combinados geraram uma sobreoferta de produtos lácteos no mercado brasileiro, o que resultou em quedas constantes no preço médio do leite pago ao produtor, especialmente a partir de abril.

Dados do Cileite/Embrapa indicam que, em dezembro de 2025, o preço chegou a R$ 1,99 por litro, o que representou uma queda de 22,6% em relação aos 12 meses anteriores. Por outro lado, o preço pago pelo consumidor na cesta de lácteos (composta por leite longa vida, queijo, iogurte, leite condensado, leite em pó e manteiga) caiu 3,62%.

Leite mais caro

Os custos seguem pressionando a atividade. Em fevereiro de 2026, o Custo Operacional Efetivo (COE) subiu 0,32% na Média Brasil, segundo o Cepea.

Por outro lado, a queda no preço do milho e a recente valorização do leite melhoraram a relação de troca para o produtor no início do ano.

Nos últimos dez anos, a produtividade média por vaca no Brasil aumentou significativamente, passando de 4,5 para 7 litros por dia — um avanço superior a 50%.

Ao mesmo tempo, milhares de pequenos produtores deixaram a atividade, pressionados pelo aumento de custos e pela redução das margens.

Apesar disso, o setor enfrenta um impasse. Durante anos, o crescimento foi sustentado por escala e preços competitivos, com margens apertadas. Agora, a volatilidade de custos — especialmente de insumos como milho e soja — reduz a previsibilidade da oferta, enquanto consumidores se mostram mais sensíveis a reajustes.

A tendência é de continuidade da alta nos próximos meses. Em abril, o leite deve encarecer ainda mais, influenciado pelo aumento dos combustíveis em meio por causa da guerra no Irã.

Em março, o diesel subiu 13,9% e a gasolina, 4,59% — equivalente a cerca de 26% do IPCA —, o que deve encarecer o frete e pressionar toda a cadeia.

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