El Niño pode elevar a inflação dos alimentos e pressionar o IPCA em 2027

Por César H. S. Rezende 1 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
El Niño pode elevar a inflação dos alimentos e pressionar o IPCA em 2027

O El Niño voltou a colocar a inflação de alimentos no radar de consumidores, produtores e economistas. O fenômeno climático, marcado pelo aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, altera o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do mundo — e seus efeitos podem chegar diretamente ao prato dos brasileiros.

As preocupações cresceram após novas análises indicarem a possibilidade de impactos mais intensos e acelerados do que o inicialmente previsto. O cenário já vem sendo chamado por alguns meteorologistas de “Super El Niño” e, em alguns estudos, de “El Niño Godzilla”, com base em avaliações de órgãos como a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) e a Nasa.

No Brasil, os impactos variam conforme a região. Enquanto o Sul tende a registrar chuvas acima da média, áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos. Essa combinação afeta o calendário agrícola, reduz a produtividade e eleva os custos de produção.

“Pensando na safra brasileira, um El Niño ao longo deste segundo semestre deve gerar impactos sobre os preços dos alimentos mais intensos em 2027 do que agora, em 2026. Nas grandes commodities, a maior parte da safra já foi colhida ou está em desenvolvimento nas lavouras”, afirma Felippe Serigati, economista da FGV Agro.

Entre os produtos mais sensíveis estão grãos, hortaliças, frutas, leite e carnes. No caso das proteínas, o impacto ocorre de forma indireta: se milho e soja ficam mais caros, o custo da ração aumenta, pressionando as margens de aves, suínos e bovinos.

Nesta segunda-feira, o boletim Focus do Banco Central, que reúne projeções de mais de 130 instituições financeiras e consultorias, elevou de 5,04% para 5,09% a estimativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026. Para 2027, a projeção passou de 4,01% para 4,02%.

Além dos alimentos, o fenômeno também pode afetar outro componente importante da inflação: a energia elétrica. Em relatório divulgado na última sexta-feira, 28, o Santander alertou para a possibilidade de o El Niño impactar o setor elétrico brasileiro a partir do segundo semestre.

“Esperamos que as condições climáticas desempenhem um papel importante no desempenho do setor ao longo de 2026, com uma probabilidade crescente de ocorrência do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026”, afirmam os analistas André Sampaio, Guilherme Lima e Francisco Paz.

Um evento mais intenso pode alterar o regime de chuvas em diferentes regiões da América do Sul. Dependendo dos efeitos sobre os reservatórios das hidrelétricas brasileiras, o fenômeno pode aumentar o acionamento de usinas termelétricas, cuja geração é mais cara.

Esse movimento tende a pressionar as tarifas de energia, elevando também os custos do agronegócio, que já enfrenta aumento das despesas com fertilizantes e diesel nos últimos meses.

Segundo o relatório da NOAA, esse movimento ganhou força ao longo de 2026, com o enfraquecimento das águas frias observado desde janeiro e o avanço de áreas mais quentes em direção ao centro do oceano.

O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico e pode atingir seu pico entre o fim de 2026 e o início de 2027.

No início de maio, o BTG Pactual, controlador da EXAME, também alertou para os riscos inflacionários associados ao clima.

Em relatório de cenário macroeconômico, o banco afirmou ver uma “pressão adicional sobre os alimentos no segundo semestre, diante do aumento da probabilidade de um El Niño de intensidade forte a superforte”.

Impactos do El Niño

No Brasil, um país de dimensões continentais, os efeitos do fenômeno não ocorrem de forma uniforme. “Podemos ter chuvas mais intensas, já que os eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes e severos”, afirma Bárbara Sentelhas, CEO da Agrymet.

No Sul do país, explica a especialista, o El Niño costuma provocar aumento no volume de chuvas, o que pode resultar em inundações, erosão do solo, maior incidência de doenças nas lavouras e perdas de produtividade decorrentes do excesso de água e da proliferação de pragas.

No Nordeste, por outro lado, o fenômeno tende a reduzir as precipitações, favorecendo períodos de seca, degradação de pastagens e diminuição da disponibilidade de água para irrigação, com impactos sobre culturas como feijão e milho.

Já no Centro-Oeste, os efeitos diretos costumam ser menos intensos, embora as temperaturas mais elevadas possam prolongar os períodos secos e aumentar o risco de incêndios.

Segundo o meteorologista Willians Bini, diretor da Metos, os modelos climáticos indicam que o Oceano Pacífico já apresenta uma tendência de aquecimento, mas o fenômeno ainda está em fase de formação.

“Mesmo quando existe um padrão histórico, os efeitos não se repetem exatamente da mesma forma em cada evento. É preciso cautela ao interpretar os impactos do fenômeno”, afirma.

Para Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), os receios em torno do El Niño ganharam força após as enchentes que atingiram o estado em 2024 e provocaram prejuízos expressivos ao agronegócio.

Naquele ano, inclusive, a produção de arroz — cultura na qual o Rio Grande do Sul responde por cerca de 70% da produção nacional — foi afetada.

“Em anos de Super El Niño, os produtores costumam redobrar a atenção ao calendário de plantio para evitar períodos de excesso ou falta de chuva, ajustar os tratos culturais e evitar áreas mais suscetíveis a alagamentos, como regiões próximas a rios. Essas adaptações podem resultar em alguma restrição de área plantada, como já ocorreu em outras safras, mas não representam uma interrupção da produção”, diz.

Segundo o economista, o El Niño, por si só, nem sempre resulta em uma tragédia climática, embora exija monitoramento constante.

“Para que situações como as registradas no Rio Grande do Sul em 2024 aconteçam, é necessária a combinação de diversos fatores meteorológicos e ambientais. Além da intensidade do fenômeno, outros elementos também são determinantes para a ocorrência de desastres climáticos dessa magnitude”, afirma.

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