Ela achou que era golpe — e era a Time: a cientista da Embrapa na lista dos mais influentes
Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa, tem do que se orgulhar quando o quesito é premiação. Nesta semana, dois pesquisadores brasileiros apareceram na lista da revista Time como duas das 100 pessoas mais influentes do mundo, e Hungria foi uma delas.
A cientista apareceu entre os “Pioneiros” pelo trabalho com microrganismos do solo que permitem reduzir o uso de fertilizantes químicos na agricultura. O reconhecimento reforça a relevância da ciência brasileira no cenário global, avalia a pesquisadora em entrevista à EXAME.
A revista americana também reconheceu o ator Wagner Moura nesta edição.
Em 2025, Hungria tornou-se a primeira brasileira a receber o Prêmio Mundial da Alimentação, considerado o “Nobel da Agricultura”.
"Estar na lista da Time fura a bolha [do agro], vai muito além. E eu fico contente porque é uma mudança da percepção do mundo que eu vejo", afirma.
Aos 67 anos, com 40 dedicados à pesquisa científica, Hungria é natural de Itapetininga, no interior de São Paulo. É formada em engenharia agronômica pela USP/Esalq, braço de agricultura de uma das principais universidades do país.
Segundo a pesquisadora, o premio do World Food Prize no ano passado, tinha sido, até então, o topo para uma cientista que tem se dedicado a estudar alimentos e agricultura.
"O tema da ciência e da produção sustentável com biológicos, está entre as cem coisas que foram consideradas mais importantes, é uma gratificação que tipo, eu escolhi a coisa certa para estudar na vida", diz a pesquisadora.
Quando recebeu a notícia, na última quarta-feira, 15, de que estava na tradicional lista da Time, Hungria achou que se tratava de um golpe.
"A revista entrou em contato dizendo: “você está na lista, você aceita? Eu quase não respondi. Quando respondi, já fui pensando: 'se pedirem dinheiro, eu deleto tudo', porque realmente achei que não era confiável. Eu não sou muito confiante em mim mesma", diz
A trajetória de Hungria sempre esteve atrelada à pesquisa, mas o início não foi fácil, conta.
“Foi uma coisa muito difícil. Seria muito mais fácil ir para outra área. Mas eu realmente tinha uma convicção muito grande de que era aquilo que eu queria e que eu ia achar um jeito de dar certo”, disse.
Depois de se formar, Hungria fez mestrado, doutorado e pós-doutorado. É pesquisadora da Embrapa desde 1982, inicialmente na Embrapa Agrobiologia, no Rio de Janeiro, e, desde 1991, na Embrapa Soja, em Londrina (PR).
Quem é Maria Angela Hungria
A ênfase dos estudos de Hungria tem sido o aumento da produção e da qualidade dos alimentos por meio da substituição total ou parcial de fertilizantes químicos por microrganismos com propriedades como a fixação biológica de nitrogênio (FBN), técnica que permite que bactérias do solo forneçam esse nutriente essencial às plantas.
O uso de inoculantes com rizóbios e Azospirillum brasilense (bactéria alfa-proteobactéria fixadora de nitrogênio), isolados por Hungria, trouxe ganhos de produtividade que podem dobrar o rendimento de culturas como feijão e soja.
Segundo ela, no início da carreira, havia pouquíssimas pesquisas sobre microbiologia como solução para a fertilidade do solo. Hungria começou estudando rizóbios, um tipo de bactéria que interage com as raízes de leguminosas para fornecer nitrogênio em troca de energia.
A pesquisadora descobriu que a aplicação anual dessa cepa à soja, por meio de inoculante, pode aumentar a produtividade em até 8% em comparação ao uso de fertilizantes sintéticos.
Além disso, Hungria foi a primeira a isolar cepas da bactéria Azospirillum brasilense capazes de melhorar a absorção de nitrogênio e fitormônios.
Hoje, mais de 70 milhões de doses de inoculantes combinados são vendidas e aplicadas em cerca de 15 milhões de hectares no Brasil a cada ano.
“Quando entrei na agronomia, nos anos 1970, tudo era centrado em insumos químicos. Eu acreditava que os biológicos tinham espaço, não só para pequenas hortas, mas para uma agricultura de alta produtividade”, afirmou.
Para a pesquisadora, por muitos anos o conceito predominante era produzir alimentos para acabar com a fome no mundo, mas seu trabalho sempre esteve pautado na produção sustentável.
“Minha abordagem busca ‘produzir mais com menos’ — menos insumos, menos água, menos terra, menos esforço humano e menor impacto ambiental, sempre rumo a uma agricultura regenerativa”, disse.
Segundo a Embrapa, a equipe de pesquisa de Hungria lançou, em 2021, uma tecnologia que permite a redução de 25% na fertilização nitrogenada de cobertura no milho por meio da inoculação com Azospirillum brasilense, gerando benefícios econômicos significativos para os agricultores e impactos ambientais positivos para o país.
Na visão de Hungria, a Embrapa é um dos principais casos de sucesso em pesquisa voltada para a agricultura no país. A cientista destaca que o desenvolvimento de técnicas como o plantio direto revolucionou o agronegócio brasileiro, fazendo o Brasil alcançar o título de “celeiro do mundo”.
“A Embrapa completou 52 anos este ano, e eu já estou na instituição há 43. A Embrapa é, para mim, o maior exemplo de investimento bem-sucedido que gerou alto retorno para o país. Acho isso fantástico”, afirmou.
Atualmente, Hungria é professora na Universidade Estadual do Paraná e na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. A cientista já publicou mais de 500 artigos e foi reconhecida pela Forbes como uma das 100 mulheres mais poderosas do agronegócio brasileiro.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: