Ela lidera uma indústria invisível — e agora quer levar o negócio para fora do Brasil

Por Júlia Arbex 12 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ela lidera uma indústria invisível — e agora quer levar o negócio para fora do Brasil

A pioneira brasileira na produção de insumos para ensaios não destrutivos quer crescer acima de 10% em 2026 apoiada em um novo movimento: a internacionalização. Depois de 44 anos atuando exclusivamente no mercado nacional, a Metal-Chek mira expansão na América Latina.

Esse avanço não acontece por acaso. A empresa está posicionada em um setor que ganhou relevância nos últimos anos: o de inspeção e controle de qualidade industrial. Em um cenário em que grandes indústrias passaram a tratar qualidade e segurança como parte direta da operação — e não apenas como custo —, a demanda por soluções que evitam falhas estruturais cresceu.

Ao mesmo tempo, o movimento de nacionalização de fornecedores, impulsionado por crises logísticas globais, abriu espaço para fabricantes locais.

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A decisão marca uma nova fase para a empresa sediada em Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Segundo Fernanda Gebrael, sócia diretora, praticamente não há fabricantes desse tipo de produto na região, o que abre espaço para exportação. "Apenas o Peru conta com um produtor semelhante", conta.

A busca por parceiros comerciais fora do país não é recente. O projeto já tem dois anos e pretende ampliar essa presença gradualmente. Ao mesmo tempo, a companhia segue investindo no mercado interno, com mudanças na área comercial, reformulando a operação para atender melhor o cliente, além do desenvolvimento de um canal de vendas online.

Esse crescimento também acompanha o reaquecimento de setores que exigem alto controle de risco, como óleo e gás e aeronáutico. Nessas áreas, falhas em materiais podem gerar acidentes e perdas financeiras relevantes, o que aumenta a demanda por inspeções mais frequentes e precisas — e, consequentemente, pelos insumos fabricados pela empresa.

O que são ensaios não destrutivos?

Também conhecidos como END, são testes que permitem verificar a integridade de materiais sem danificá-los. Fernanda usa o exame médico como exemplo. "Assim como um raio-X ou uma ressonância permitem ver o interior do corpo humano sem cirurgia, esses ensaios mostram possíveis falhas em peças sem precisar quebrá-las", explica.

É aí que entram os produtos da Metal-Chek. A empresa fabrica insumos utilizados nesses testes, com foco em líquido penetrante e partículas magnéticas e utilizados na produção e manutenção de materiais não porosos como peças de metal, cerâmica e plástico.

Além dessas soluções, a empresa também atua com tecnologias de detecção de vazamentos e possui linhas voltadas ao setor aeronáutico, com consumíveis que seguem normas internacionais exigidas por esse tipo de operação.

O primeiro funciona como um revelador de trincas superficiais. O material é aplicado sobre a peça por pulverização, com pistola, aerossol ou até por imersão em tanque. Em seguida, um pó branco é colocado, fazendo com que o líquido retorne à superfície exatamente onde há falhas, revelando o problema.

As partículas magnéticas, por outro lado, permitem identificar defeitos não apenas na superfície, mas também abaixo dela. Trata-se de um pó de ferro que, ao ser posto em uma peça magnetizada, se concentra nos pontos onde há descontinuidades, indicando possíveis riscos estruturais.

Esses testes são utilizados na fabricação, construção, montagem, inspeção e manutenção, com aplicação em soldas, peças fundidas, forjadas, laminadas, plásticos e concretos, em setores como óleo e gás, geração de energia, petroquímico, automotivo, aeronáutico, ferroviário, naval, siderurgia e construção civil.

"Temos clientes como Embraer, Petrobras e montadoras que utilizam esse tipo de solução para evitar falhas que poderiam gerar acidentes ou prejuízos", diz.

A Metal-Chek atende cerca de 1.300 clientes e ocupa posição de liderança no Brasil no segmento. Um dos diferenciais apontados por Fernanda é o fato de a companhia ser 100% nacional, sem capital estrangeiro, e atendimento próximo ao cliente.

Esse posicionamento também se tornou uma vantagem competitiva. Com produtos certificados por normas internacionais e suporte técnico local, a empresa reduz prazos e dependência de importações, um fator cada vez mais relevante para indústrias que buscam estabilidade na cadeia de suprimentos.

Quem é o fundador da Metal-Chek

A história da empresa começa em 1982. O fundador, Nabil Gebrael, pai de Fernanda, era técnico em química e trabalhava com a venda de soldas especiais em um negócio da família. Na época, os produtos utilizados em ensaios não destrutivos eram importados e vendidos junto com as soldas.

Com o fechamento das importações no Brasil no início dos anos 80, surgiu a necessidade de produzir localmente. Foi isso que levou Nabil a iniciar a fabricação dos insumos no país.

O negócio foi se especializando cada vez mais e conquistando certificações importantes. Hoje, também revende e importa luminárias especiais para ensaios com fluorescência e acessórios para medição de luz e campo magnético.

Com tantos anos de existência, a Metal-Chek enfrentou algumas adversidades pelo caminho. A primeira foi em 1992, com a morte precoce do fundador, aos 44 anos. A partir desse momento, a condução da empresa passou para Maria Izabel Gebrael, mãe de Fernanda e esposa de Nabil.

Apesar de já participar da administração, ela teve que assumir também o relacionamento com o mercado, até então liderado pelo marido.

Em um setor predominantemente masculino, diz Fernanda, sua mãe abriu caminho para outras mulheres. Ela chegou a ser a primeira presidente da Abendi, associação brasileira da área, e permaneceu à frente da empresa por 25 anos.

A segunda geração começou a se aproximar aos poucos. Fernanda, atualmente com 47 anos, não tinha planos de atuar na indústria. Formada em psicologia, mantinha um consultório quando foi chamada para ajudar em processos seletivos.

O trabalho pontual se transformou em algo permanente. Em 2005, atuava como freelancer na área de recursos humanos e, no ano seguinte, foi contratada formalmente. Mais tarde, fechou o consultório para se dedicar integralmente ao negócio.

O quadro societário é composto pelas três irmãs. Fernanda e a mais velha, Andréia, participam da gestão, enquanto Luciana integra o conselho familiar. "A empresa vem passando por um processo de profissionalização, com a entrada de executivos no comando de áreas como indústria e comercial", comenta. As sócias caminham para uma atuação mais voltada à direção.

A capacitação de bons profissionais e a entrega de boas soluções para o mercado fizeram com que a Metal-Chek entrasse no ranking EXAME Negócios em Expansão 2025. Em 2024, registrou faturamento de R$ 28,7 milhões e passou a figurar entre as que mais crescem no país. No ano passado, esse número aumentou 9,3%.

Do galpão em São Paulo à planta no interior

A estrutura atual conta com 48 funcionários e uma operação concentrada em uma unidade de 10 mil metros quadrados em Bragança Paulista, no interior paulista. A mudança para o interior ocorreu em 2010, depois de a empresa receber um terreno da prefeitura dentro de um plano de industrialização.

A saída da capital paulista também foi motivada por limitações de espaço, aumento de custos e dificuldades logísticas. A região da Vila Carioca, onde a empresa operava em São Paulo, passou por valorização com a expansão do metrô, elevando aluguel e impostos. Ao mesmo tempo, restrições na circulação de caminhões dificultavam a operação.

O ambiente local também contribuiu para a expansão. Programas de incentivo à indústria ajudaram a viabilizar a operação em uma planta maior, com ganhos logísticos e proximidade de polos industriais relevantes no estado.

A escolha por Bragança também teve um componente afetivo, já que o fundador tinha ligação com a cidade desde a imigração de sua família libanesa. "A mudança acabou trazendo impactos positivos para os funcionários, com melhora na qualidade de vida e menor tempo de deslocamento".

A cultura interna da Metal-Chek valoriza estabilidade e um ambiente de trabalho mais tranquilo. Segundo Fernanda, por ser uma empresa familiar, não há promessa de crescimento acelerado de carreira, mas há foco em oferecer condições mais saudáveis, com atenção à saúde física e emocional.

Próximos planos

Além da internacionalização, um dos movimentos recentes foi a aproximação com profissionais independentes que atuam em manutenção e inspeção, ampliando o público além das grandes indústrias.

Outro projeto em andamento é o lançamento de um e-commerce. A ideia é vender diretamente ao cliente final por meio de uma loja virtual dentro do próprio site. Inicialmente, o foco será em produtos que não apresentam restrições logísticas mais complexas, como a linha de partículas magnéticas.

Produtos em aerossol, que representam parte relevante do portfólio, exigem transporte com regras específicas e ainda não serão incluídos nessa primeira fase. A expectativa é lançar o canal até o fim do ano e, no futuro, ampliar a oferta conforme essas questões forem resolvidas.

A empresa também acompanha mudanças mais amplas da indústria, como a digitalização dos processos de qualidade, maior exigência de rastreabilidade e pressão por soluções com menor impacto ambiental. Essas tendências devem influenciar o desenvolvimento de novos produtos e a estratégia de crescimento nos próximos anos.

O que é o ranking Negócios em Expansão

O ranking EXAME Negócios em Expansão é uma iniciativa da EXAME e do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).

O objetivo é encontrar as empresas emergentes brasileiras com as maiores taxas de crescimento de receita operacional líquida ao longo de 12 meses.

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