Ela trocou o Direito por lavanderias — e construiu um negócio de R$ 1,3 milhão

Por Isabela Rovaroto 24 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ela trocou o Direito por lavanderias — e construiu um negócio de R$ 1,3 milhão

Trocar uma carreira estável no setor público por um negócio próprio não costuma ser uma decisão trivial — ainda mais quando o destino envolve lavanderias de autoatendimento.

Foi exatamente esse o caminho seguido por Riamy Cavalcante, ex-integrante da Defensoria Pública do Estado do Amazonas, que hoje comanda cinco unidades da rede Lavô e construiu um negócio que faturou R$ 1,385 milhão em 2025.

A decisão nasceu menos de um sonho empreendedor e mais de uma análise fria da realidade. Sem reajustes, com jornadas que se estendiam até as 18h e uma rotina cada vez mais pesada, Riamy e o marido começaram a buscar alternativas.

“Mais um ano sem reajuste, mais um ano sem nada. A advocacia pública talvez não fosse o caminho para a gente crescer como família", recorda.

Foi o marido quem deu o primeiro passo, pesquisando formatos de negócio que pudessem funcionar em paralelo ao serviço público.

O setor de lavanderias de autoatendimento surgiu como opção: investimento relativamente acessível, operação enxuta, receita recorrente e potencial real de escala. O casal avaliou as três maiores redes do segmento na época e escolheu a Lavô.

O primeiro aporte foi de R$ 200 mil. Em março de 2022, a primeira unidade foi inaugurada em Manaus. Durante seis meses, Riamy conciliou a operação com o trabalho na Defensoria — até perceber, três meses após a abertura, que o negócio exigia atenção integral.

"Percebi que o negócio não pode correr solto. Tinha como ganhar dinheiro, mas não era só um investimento lateral”,diz.

A rescisão veio logo depois e com ela, mais capital para investir.

Crescimento com reinvestimento total

Desde o início, a operação ficou sob responsabilidade exclusiva de Riamy. O marido, diretor de vendas em uma multinacional, manteve sua carreira corporativa. Ela assumiu o administrativo e o operacional e foi nesse processo que vieram os aprendizados mais duros.

"Empreender é fácil, é rápido, é literalmente botar a mão na massa. Difícil é virar empresária: ter rotinas, procedimentos, criar padrão. Isso ainda é um desafio constante", diz Cavalcante.

A expansão aconteceu de forma progressiva. Com o dinheiro da rescisão somado às cotas iniciais, o casal reuniu cerca de R$ 400 mil suficiente para duas unidades. O bom desempenho da primeira unidade acelerou o plano. A estratégia adotada foi reinvestir tudo.

"Todo o dinheiro da primeira loja reinvestimos na segunda. Da segunda na terceira, da terceira na quarta, da quarta para a quinta. Foi uma loja pagando a outra”, diz.

Em quatro anos, o negócio chegou a cinco unidades: três em Manaus e duas na Bahia, para onde a família se mudou após uma transferência profissional do marido.Desde o ano passado, todas são lucrativas.

A maior unidade, em Manaus, é referência na rede, está entre o Top 7 da franquia, com 14 máquinas operando após sucessivas expansões. Começou com seis.

Operação enxuta e gestão à distância

Mesmo com cinco unidades em dois estados, a estrutura operacional é enxuta: um funcionário por loja, cinco no total.

Cada profissional foi treinado não apenas para operar as máquinas, mas para realizar pequenas manutenções, lidar com clientes em dificuldade e conter crises simples — como destrancar uma máquina após queda de internet ou falta de energia.

A gestão é feita majoritariamente de forma remota: videoconferências diárias com as equipes, checklists de operação, controle de insumos e monitoramento das máquinas.

A rotina começa com as demandas da casa, e segue em frente ao computador até as 18h ou 19h, com atendimento a clientes, compras de produtos e acompanhamento de indicadores.

A expansão geográfica trouxe um desafio adicional: adaptar o modelo ao comportamento do consumidor local.

Em Manaus, o hábito de lavar roupa fora de casa é consolidado — o clima quente e úmido faz com que o manauara lave roupa no mínimo duas vezes por semana.

Na Bahia, especialmente em Praia do Forte, cidade turística no litoral norte, a demanda depende do fluxo de visitantes e exige estratégia de marketing mais ativa.

"O público muda completamente. Em Manaus, você tem recorrência. Na Bahia turística, você precisa atrair o cliente o tempo todo. A nossa maior dificuldade é entender esse público, encontrá-lo e trazê-lo para dentro da loja”, diz.

Ouvir o cliente virou estratégia de crescimento

Foi a proximidade com o consumidor que abriu a principal frente de expansão de receita do negócio.

Um cliente frequentava a loja toda quinta-feira de manhã, pontual e fiel. Até sumir por duas semanas. Quando voltou, Riamy perguntou o que havia acontecido. Ele tinha voltado a trabalhar, e o horário não permitia mais a ida à lavanderia.

Então veio a frase que mudou o negócio: "Se eu pudesse deixar com você, eu voltaria a utilizar a lavanderia”. Riamy respondeu que estava ali todos os dias até as 16h. Pedro perguntou se podia deixar a roupa com ela.

A resposta foi sim — e nasceu um novo serviço em que o cliente entrega a roupa, a equipe opera as máquinas, dobra, embala e devolve tudo pronto.

Da mesma lógica de escuta ativa surgiram outros serviços. Empresas que encontravam a lavanderia no Google passaram a ligar com urgência — uniformes para higienizar, entrega no mesmo dia.

"Lavanderias cobram muito caro quando veem um CNPJ. A gente cobra o mesmo valor de pessoa física e entrega no dia”, diz.

Só em 2026, os serviços adicionais já somavam R$ 170 mil em faturamento, dentro de um total de R$ 526 mil até o momento da entrevista. Uma fatia que cresce a cada trimestre.

Margem, custos e os próximos passos

O negócio opera com margem estável de aproximadamente 30% ao longo do ano. Na alta temporada em Manaus — novembro e dezembro, época de chuvas intensas, a margem chegou a 42%. Os custos fixos são poucos, mas inescapáveis: energia elétrica, água e insumos de limpeza.

Para 2026, a estratégia tem três frentes. A primeira é a otimização das despesas fixas e melhoria de processos. Depois a expansão da loja de Praia do Forte, que atingiu capacidade máxima na última alta temporada e já tem projeto aprovado para receber mais duas máquinas.

A terceira é a mais inovadora: o interesse no novo modelo "Smart" da franqueadora, uma unidade com apenas uma máquina, instalada em locais de alto fluxo como supermercados e estacionamentos, sem necessidade de espaço alugado formal.

"A gente fica mais perto ainda do cliente. Por mais que seja uma única máquina, você consegue estar onde ele está."

A projeção de faturamento para o ano é de pelo menos R$ 1,6 milhão, crescimento de cerca de 16% sobre 2025.

'Franquia não é renda passiva'

Apesar do crescimento, Riamy faz questão de desmistificar uma ideia que circula com frequência sobre o setor: a de que lavanderias de autoatendimento funcionam como renda passiva, o equivalente a uma aplicação financeira que rende sozinha.

"É um negócio como qualquer outro. Depende de você todos os dias. São cinco lojas funcionando 24 horas por dia."

Para quem pensa em investir no setor, ela resume o aprendizado em três pontos.

A compensação, no fim, não é apenas financeira. É o tempo — e o que se faz com ele. "Na Defensoria, eu saía às 8h, voltava às 14h, não almoçava com minha filha, não levava na escola. Hoje eu acordo na hora que quero, levo minha filha na escola, pego na saída, e trabalho intensamente até as 7 da noite. A perseverança faz você chegar na riqueza que optou pelo seu negócio próprio."

Assista ao novo episódio do Choque de Gestão

Você gostaria de receber uma mentoria gratuita com um grande empresário brasileiro? Inscreva-se no Choque de Gestão.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: