Jejum intermitente emagrece? Prática divide especialistas
O jejum intermitente está entre as práticas mais populares para o emagrecimento, com promessas que vão além da perda de peso e incluem, por exemplo, a melhora dos índices metabólicos.
Essa prática consiste em se alimentar dentro de uma janela de tempo, que pode ser de seis até dez horas por dia. Quando esse limite de tempo acaba, o indivíduo entra em jejum e só volta a comer quando essa janela "abrir de novo".
O efeito mais direto é comer menos ao longo do dia, já que algumas janelas de tempo podem anular algumas refeições, como o café da manhã ou jantar.
Mesmo com a popularidade, especialistas ainda divergem sobre até onde essa estratégia realmente funciona, segundo especialistas ouvidos pelo Financial Times.
Quem concorda
"Ao excluir alimentos em horários específicos do dia, conclui-se que as pessoas que consomem menos calorias perdem peso", afirma a pesquisadora Maria Chondronikola, da Universidade de Cambridge, ao FT.
Segundo Krista Varady, da Universidade de Illinois, esse tipo de estratégia pode "reduzir a ingestão diária entre 200 e 500 calorias" — o suficiente para gerar déficit calórico consistente que, com o tempo, vai diminuir também o número na balança.
Além do peso, os efeitos metabólicos também se tornaram parte do apelo do jejum intermitente. Durante o período sem alimentação, os níveis de insulina caem e o corpo passa a usar gordura como fonte de energia, produzindo cetonas.
"As cetonas são um combustível eficiente para o cérebro e também atuam como moléculas sinalizadoras", explica Sabine Donnai, médica e fundadora da clínica Viavi. "Isso ajuda a entender por que algumas pessoas relatam mais clareza mental e energia estável durante o jejum".
Há indícios de benefícios adicionais. Um estudo citado pela Sociedade de Endocrinologia, em 2022, aponta que o jejum intermitente pode contribuir para a remissão do diabetes tipo 2 em alguns casos.
Pesquisas também investigam a relação entre o jejum e a autofagia — processo celular ligado à limpeza de estruturas danificadas, estudado pelo biólogo Yoshinori Ohsumi.
Quem ainda vê limites e riscos
"Não há evidências em humanos de aumento da expectativa de vida", afirma Donnai. Os ganhos observados, segundo ela, estão mais ligados às questões metabólicas, como a sensibilidade à insulina.
Outro ponto importante é que o jejum não é exatamente uma novidade para o organismo. "Somos obrigados a jejuar durante a noite. Isso faz parte da nossa fisiologia", diz Françoise Wilhelmi de Toledo, da clínica Buchinger Wilhelmi.
Uma preocupação dos especialistas é que a estratégia pode sair do controle. "As pessoas podem desenvolver padrões muito rígidos de pensamento, o que não é bom para a vida social nem para a saúde mental", afirma Chondronikola.
O risco é maior em quem já tem histórico de transtornos alimentares ou relação obsessiva com comida. Também há grupos para os quais o jejum não é recomendado, como gestantes, pessoas em fase de crescimento ou indivíduos com baixo peso.
Há limites até para adultos saudáveis. "Em pessoas estressadas ou com sono insuficiente, o jejum prolongado pode aumentar o cortisol e prejudicar o sono e a concentração", diz Donnai.
Do ponto de vista físico, um dos principais problemas é a perda de massa magra. "Parte do peso perdido pode vir da redução de massa muscular, especialmente se a atividade física cair", afirma James Betts, da Universidade de Bath.
Falta de consenso
No centro do debate está uma questão simples: o jejum oferece benefícios próprios ou apenas facilita a redução de calorias?
Para parte dos especialistas, a resposta ainda pende para a segunda opção. "Comer dentro de uma janela de oito horas é basicamente uma forma mais fácil de atingir restrição calórica", afirma Varady.
Revisões científicas recentes apontam que os resultados — como perda de peso e melhora de indicadores metabólicos — estão associados ao déficit calóico, e não necessariamente ao padrão de jejum em si.
Chondronikola reforça. "Ainda não há consenso sobre benefícios além da perda de peso", diz.
O que os especialistas concordam é que, longe das promessas mais populares, o jejum ainda depende de contexto, acompanhamento e, principalmente, de como ele se encaixa na rotina de cada pessoa.
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