Ele começou como office boy ganhando R$ 150. Hoje, é dono da empresa e fatura R$ 77 milhões
Aos 17 anos, Renato Valcarengh Nunes atravessava o centro de Caxias do Sul, cidade na serra gaúcha a 120 quilômetros de Porto Alegre, correndo contra o relógio.
Ele era office boy, ganhava 150 reais por mês e dependia mais de conversa com caixas e seguranças de banco do que de tecnologia — celular ainda era artigo raro. O trabalho exigia improviso e jogo de cintura.
Sem saber, ali começava a trajetória do executivo que hoje fatura milhões num setor não tão conhecido, mas importantíssimo para as indústrias brasileiras.
A Koria fornece tudo que uma fábrica precisa para pintar — das cabines onde peças de avião, caminhões e móveis recebem acabamento até as pistolas, filtros, máscaras e equipamentos que o pintor usa no dia a dia. É o maior portfólio do setor no Brasil, com clientes como Embraer, Toyota, Scania e Tramontina.
A empresa, com sede em Caxias do Sul (RS) e filial em Araras (SP), faturou 77 milhões de reais em 2025 e projeta 108 milhões para 2026.
A empresa reúne as operações das marcas Aspersul, Arpi, Orange, Arply, Doxa e Tudo Para Pintar sob uma única identidade — a Koria, lançada em março de 2025 após nove meses de processo e mais de 100 nomes avaliados. É a consolidação de um ecossistema construído ao longo de três décadas, que a gestão atual quer quadruplicar até 2030.
"Comecei como office boy e aprendi tudo na prática, no contato com as pessoas e com os problemas reais do dia a dia. Hoje, me vejo como um facilitador, alguém que ajuda a destravar processos e abrir caminho para que pessoas e negócios cresçam", diz Nunes.
A meta da Koria é sair dos 77 milhões de reais para 300 milhões até 2030.
Para isso, a empresa aposta em três frentes: ampliar o portfólio de acessórios para pintura, entrar no mercado de pintura por pó — tecnologia usada na indústria metal-mecânica para aplicar tinta em formato sólido sobre superfícies metálicas — e fechar novas parcerias com fabricantes europeus.
Qual é a história de Nunes
Em menos de um ano como office boy, Nunes deixou de circular com documentos e passou a vender filtros e acessórios por telefone. As cabines de pintura precisam de filtros de papel trocados regularmente, e alguém tinha que ligar para os clientes oferecendo o produto. Ele era esse alguém.
Aos 18 anos, começou a aprender a vender máquinas ao lado do dono da empresa, um engenheiro que reconheceu no funcionário uma habilidade que ele próprio não tinha: relacionamento comercial.
Aos 19, já viajava o Brasil acompanhando representantes mais experientes. "Eu estava com caras com habilidade comercial muito grande do meu lado, vendo eles venderem. Fui conhecendo todos os Brasis — em Minas Gerais uma cultura, em São Paulo outra, no Espírito Santo outra. Comecei a aprender a me moldar", diz.
Aos 24 anos, era gerente comercial. No meio do caminho, tirou um ano e sete meses para morar na Nova Zelândia e na Austrália — voltou no domingo e estava de volta ao trabalho na segunda-feira seguinte, na mesma função.
A virada decisiva, porém, veio anos depois, quando ele e o sócio Ezequiel Nieto passaram de gestores a donos, numa aquisição fechada sem garantias tradicionais, com as próprias marcas servindo de lastro no contrato.
A dívida foi quitada um ano antes do prazo. Nos seis anos seguintes, a empresa cresceu em média 30% ao ano.
Qual foi o ponto de virada da empresa
O ponto de virada na estratégia da Koria foi uma constatação simples: se a empresa já vendia máquinas e cabines de pintura, por que não fornecer tudo que orbita esse processo?
A lógica levou à construção de um portfólio que hoje inclui macacões, máscaras, pistolas, plásticos protetivos e filtros — tudo, menos a tinta, que fica a cargo de parceiros.
A resposta para essa pergunta transformou a relação da empresa com os clientes.
Vender uma cabine de pintura é uma transação que pode demorar anos para se repetir — o equipamento dura de 10 a 20 anos. Vender os insumos do dia a dia criou uma receita recorrente e manteve a Koria presente na rotina das fábricas.
"Quando a gente tem máquina, aquela história: eu vendia e, em tese, não tinha mais o que vender para ele. Com os acessórios, a gente conseguiu crescer muito essa continuidade com o cliente", afirma Nunes.
A relação com a Embraer ilustra bem a profundidade dessas parcerias. A fabricante de aeronaves tem mais de 30 cabines da Koria instaladas e, no projeto mais recente — a construção de um novo hangar no Rio de Janeiro —, antecipou o pagamento de 6 cabines por conta da confiança acumulada, mesmo diante de um atraso de obra causado por temporal.
A fusão que dobrou a empresa do dia para a noite
A estrutura atual da Koria é resultado de um processo de consolidação que começou há mais de uma década. Em 2014, Nunes e seu sócio Ezequiel Nieto fizeram a fusão entre duas empresas de 40 funcionários cada.
Do dia para a noite, passaram a gerir uma operação de 80 pessoas, com duas culturas corporativas distintas e, como Nunes descreve, rivais de Grêmio e Inter convivendo no mesmo escritório.
"Não tem escola que te ensina a sair de 40 para 80. Você vai ter que vivenciar e encontrar os melhores caminhos", afirma. A empresa contratou uma psicóloga para conduzir dinâmicas de integração. Mesmo assim, pagaram preços altos nas escolhas feitas naquele período.
Quatro anos depois, com o sócio original querendo se aposentar, Nunes e Nieto compraram a participação restante.
Os desafios no meio do caminho
Chegar a 300 milhões de reais sem recorrer a dívidas é o caminho que Nunes prefere, mas reconhece os limites dessa escolha. A Koria tem uma política de reinvestir o lucro no próprio negócio. A única exceção foi a aquisição de um fabricante de filtros de papel para cabines, comprado via empréstimo bancário depois que uma negociação mais flexível não foi possível.
"Nós não temos, por característica, alavancagem. E nesse momento, com uma taxa de juros ainda não tão interessante, alavancagem se torna mais cara", diz Nunes.
A escolha por crescimento orgânico reduz a exposição a riscos financeiros, mas impõe um ritmo que pode ser difícil de manter numa meta tão ambiciosa.
Outro desafio que o CEO aponta é a mão de obra. A empresa criou um programa de jovens aprendizes para formar profissionais internamente e começou a construir uma camada de supervisores abaixo dos gerentes.
"O maior desafio ainda são pessoas. Conseguir construir um time engajado e preparado para o futuro", afirma.
E para além do negócio
Em paralelo ao crescimento do negócio, Nunes tirou do papel um projeto que carregava há uma década.
O Koria Summit, realizado em abril de 2026, é considerado o primeiro evento dedicado à pintura industrial no Brasil. A inspiração veio dos grandes eventos de marketing e tecnologia que ele frequenta há anos — em especial o RD Summit, o maior evento de marketing digital da América Latina, de onde costumava sair com a cabeça fervilhando de ideias.
O evento reuniu palestrantes internacionais e atraiu mais participantes do que o esperado — as 450 sacolas preparadas acabaram antes do meio da manhã. O pipeline gerado chegou a 10 milhões de reais. A segunda edição já está em planejamento, em um espaço maior.
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