Ele construiu um império da saúde e decidiu recomeçar do zero. A aposta: IA para clínicas

Por Guilherme Gonçalves 26 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ele construiu um império da saúde e decidiu recomeçar do zero. A aposta: IA para clínicas

O empresário Thomaz Srougi passou os últimos 15 anos construindo uma das maiores redes de clínicas populares do Brasil. A dr.consulta tem 34 unidades e prevê abrir mais cinco em 2026. Após deixar o cargo de CEO de uma empresa consolidada, ele abriu uma startup que cabe em uma sala de 20 metros quadrados em um coworking em Pinheiros, em São Paulo.

A nova aposta se chama Carecode, uma empresa de inteligência artificial que automatiza a recepção de clínicas e hospitais. Nos primeiros meses de operação, a startup saiu de um cliente, em setembro de 2025, para 30 em maio deste ano, incluindo a primeira operação internacional, no México. Com a base atual, a empresa calcula potencial para multiplicar em oito vezes a receita já contratada apenas expandindo serviços entre clientes que já atende.

Até aqui, a Carecode processou centenas de milhares de mensagens e opera com uma equipe enxuta espalhada entre São Paulo, Rio Grande do Norte e Estados Unidos. Para Srougi, que ainda é membro do conselho de administração do dr.consulta, a mudança tem menos relação com empreender novamente e mais com um novo ciclo tecnológico.

“Existe uma mudança tectônica acontecendo. É muito empolgante poder construir produtos de IA neste momento com os melhores cérebros. E existe a chance de fazer o que o dr.consulta faz, mas em escala na América Latina em um modelo muito mais leve para expandir”, afirma.

Por que uma IA para clínicas

A ideia da Carecode não surgiu em um laboratório de inteligência artificial nem de alguma tendência do Vale do Silício. Nasceu na recepção de uma clínica.

Antes de virar executivo e presidente do conselho da dr.consulta, Srougi passou anos acompanhando a operação de perto. Sentou em recepção, montou call centers e observou o gargalo se repetir diariamente: telefones tocando sem resposta, filas, funcionários sobrecarregados e pacientes desistindo no caminho.

“Eu vivi esse problema. De cada 30 pacientes que nos procuravam, a gente conseguia atender somente dez. Existe um gargalo porque pessoas não conseguem realizar várias tarefas ao mesmo tempo. A IA consegue”, diz.

Na visão do empresário, o problema tende a ficar maior. O envelhecimento da população aumenta a demanda por consultas médicas justamente quando médicos e sistemas de saúde operam próximos ao limite. A aposta da Carecode é usar IA para retirar tarefas administrativas da rotina médica.

“Se um terço do tempo do médico hoje é gasto com pacientes e dois terços com tarefas administrativas, vamos devolver esse tempo para ele.”

Thomaz Srougi, fundador e CEO da Carecode e presidente do conselho da dr.consulta: empresário voltou ao modelo startup após construir uma das maiores redes de clínicas do país (Leandro Fonseca /Exame)

Como funciona a plataforma da Carecode

Na prática, a plataforma da Carecode funciona como uma recepcionista digital. O paciente pode enviar texto, áudio ou imagem pelo WhatsApp descrevendo sintomas, perguntando valores, horários disponíveis ou solicitando agendamentos.

A IA entende linguagem coloquial, faz perguntas complementares quando necessário e acessa a agenda da clínica para concluir o atendimento. Se uma pessoa disser que cortou o rosto durante a barba e quer atendimento para o dia seguinte no horário de almoço, por exemplo, a ferramenta interpreta o contexto, consulta horários disponíveis e apresenta opções.

Depois do agendamento, a conversa alimenta automaticamente o sistema da clínica: nome do paciente, motivo da consulta, profissional responsável, horário, convênio e observações ficam registrados. A empresa também integrou prontuário eletrônico, telemedicina e ferramentas administrativas.

“O médico fez medicina para exercer a profissão, não para passar horas fazendo conta ou administrando agenda”, afirma Eduardo Trunci, diretor de tecnologia e produto da Carecode.

Segundo ele, aproximadamente 30% dos contatos dos pacientes acontecem fora do horário comercial.

“Antes, o paciente precisava esperar a clínica abrir, ligar e torcer para conseguir atendimento. Isso naturalmente gera perda de demanda.”

Thomaz Srougi, fundador e CEO da Carecode, e Eduardo Trunci, diretor de tecnologia e produto: empresa desenvolve agentes de IA para automatizar a rotina de clínicas (Leandro Fonseca /Exame)

Como evitar "alucinações"

Uma das preocupações mais frequentes em sistemas de IA é a chamada “alucinação”, quando a tecnologia inventa respostas incorretas. A Carecode diz ter criado mecanismos para evitar isso.

Durante uma demonstração à EXAME no escritório da startup, a plataforma recebeu imagens de pedidos médicos contendo exames diferentes. Em vez de assumir informações ausentes, a IA interrompeu o processo e pediu esclarecimentos adicionais. A especialização ajuda.

“A gente trabalha só com saúde. Não é uma IA atuando em sete indústrias diferentes ao mesmo tempo. Lidamos com casos muito parecidos todos os dias”, diz Trunci.

O aprendizado também acontece diretamente com clientes. Como a equipe ainda é pequena, desenvolvedores, engenheiros e executivos acompanham o uso do produto de perto.

“Como somos um time enxuto, estamos em contato direto com os clientes. Ouvimos reclamações, dores e emoções. Muitas decisões foram baseadas em observação”, afirma Barbara Schneider, diretora de marketing da Carecode.

Bernardo Dias, engenheiro de onboarding, e Victor de Sá, cientista de dados, fazem parte desse processo de acompanhar implementação e ajustes do produto antes de apresensentá-lo a novos clientes.

O que muda dentro da clínica

Na Clínica Mais Vida, uma das primeiras clientes da Carecode, a tecnologia já alterou a rotina da operação. Antes da implementação, a clínica mantinha quatro pessoas dedicadas ao call center. Hoje, a equipe foi reduzida para duas pessoas, que foram remanejadas para outras áreas.

Segundo Daniel Rodrigues de Paula, CEO da empresa, cerca de 85% das demandas passaram a ser resolvidas automaticamente.

“Na primeira semana da implementação eu já tive um impacto positivo nos agendamentos. Hoje o impacto real foi de 20%.”

Além do aumento de consultas marcadas, o executivo afirma que o atendimento ganhou velocidade.

“Muitos agendamentos aconteciam fora do horário comercial e a gente não conseguia responder. Passamos a capturar essa demanda.”

A Carecode ainda está em estágio inicial. Mas Srougi diz enxergar algo maior do que um software de agendamento. A ambição é transformar a plataforma em um sistema operacional para clínicas.

“Colocando clínicas em piloto automático, a gente devolve tempo para médicos e aumenta a capacidade de atendimento.”

O contraste aparece até no espaço físico. Depois de construir uma empresa com dezenas de unidades e milhares de funcionários, Srougi voltou a uma rotina de startup: equipe pequena, testes rápidos e desenvolvimento acelerado.

Mudou o tamanho da operação. A aposta, porém, continua a mesma: tentar resolver gargalos estruturais da saúde.

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