Ele era segurança de terminal de ônibus. Agora vai faturar R$ 10 milhões com 'cabelos saudáveis'
O uso de papel-alumínio nos salões de beleza brasileiros ainda é comum para a coloração ou descoloração durante o processo de mechas e luzes, porém não é ecológico nem saudável para os fios.
Pensando na lacuna do setor, o paranaense Lucas Olivetti, de 35 anos, desenvolveu um papel para mechas feito com uma película de plástico biodegradável, papel de madeira de reflorestamento e cola de mandioca.
O material é reciclável e pode ser reutilizado de três a sete vezes pelo cabeleireiro após a limpeza adequada.
“A tecnologia permite que os gases saiam pelas laterais e o oxigênio fique preservado dentro do papel, fazendo o clareamento homogêneo da raiz às pontas”, afirma o empreendedor.
Com o produto patenteado, a Papel Para Mechas nasceu em 2020, em Londrina, no Paraná.
Desde então, já foram vendidas 260 milhões de folhas para 19 países. O ano de 2025 fechou com um faturamento de R$ 4,5 milhões. Para 2026, a expectativa é chegar a R$ 10 milhões, atendendo até 50 países.
No radar para o crescimento, está o lançamento de um produto com matéria-prima amazônica e o aumento da equipe internacional que atua no exterior.
Das feiras aos salões de beleza
O desejo de empreender de Lucas Olivetti começou na infância.
Criado pelos avós, que vendiam legumes na feira, o sítio e as feiras de domingo fizeram parte de sua infância e adolescência. Além de acompanhar o avô, ele inventava os próprios produtos para dividir espaço no estande: de pequenas mudas de plantas a ovos de codorna.
Mais velho, a vontade de empreender foi natural. Começou cedo, aos 19 anos, com uma empresa de isopor personalizado para padarias e restaurantes, junto a um amigo.
“O lucro era muito baixo. Sem nenhum conhecimento da parte de gestão, acabamos desfazendo a sociedade”, diz Olivetti.
Depois, tentou empreender com uma empresa de sacolas de papel. Mais uma vez, as dívidas cresceram e ele largou o negócio.
Decidiu, então, fazer um curso de segurança e se candidatar a uma vaga no terminal de ônibus de Londrina.
“O grande problema que eu tinha era lidar com as pessoas, entender o ponto de vista do outro. Para mim, o que eu fazia estava certo, e era aí que estava o erro. Precisava trabalhar em um lugar onde eu recebesse ordens, respeitasse hierarquias e, acima de tudo, aprendesse a conviver com pessoas.”
Ficou dois anos como segurança do terminal. Quando saiu do cargo, recebeu a visita de um cabeleireiro. “Ele contou que descobriu em um curso que o alumínio era contraindicado para fazer mechas e sugeriu que eu criasse um produto sem alumínio”, lembra.
No primeiro momento, Olivetti achou a ideia uma loucura. Mas a curiosidade falou mais alto. Após pesquisar sobre o assunto, descobriu que não existia uma opção livre de alumínio no mercado de beleza. Começou a se dedicar à criação de um novo produto em dezembro de 2018.
“Usei meu conhecimento em celulose, espessura e gramatura para desenvolver os testes. Um dia, fizemos um teste em um salão da região que finalmente clareou o cabelo.” Os primeiros protótipos foram produzidos na gráfica do padrasto de Olivetti. A amostra inicial era apenas uma película de plástico, que, mais tarde, ganhou uma base de papel e teve a tecnologia aprimorada.
Em 2019, o registro da patente foi feito. No entanto, não existia um plano de negócios para seguir a partir daquele momento. Sem conhecimento prévio do setor de beleza e sem formação em química, os possíveis clientes não levavam o empreendedor a sério.
Ele chegou a participar de feiras nacionais e internacionais do setor de beleza, mas não conseguia colocar o produto no mercado. Um dos principais desafios era convencer as empresas a aceitar o nome da Papel Para Mechas estampado nas folhas.
Depois de várias negativas, conseguiu agendar uma reunião com uma empresa brasileira de cosméticos. “Eles testaram e aprovaram. Sugeriram um contrato de exclusividade para que eu produzisse apenas para eles.” “Apesar da proposta milionária, entendi que tinha criado o papel para ser usado pelo mundo, e não por uma única marca. Neguei a oferta”, acrescenta Olivetti.
Adailton Alves Junior, hoje sócio da Papel Para Mechas, entrou no negócio em 2019 e alertou que Olivetti deveria começar pequeno, vendendo para uma empresa da região, para depois crescer pelo Brasil e pelo mundo.
Foi quando fecharam o primeiro grande contrato com uma empresa de cosméticos de Londrina. “Eles me pagariam um valor que nem sequer cobria a matéria-prima. Mas eu estava sem dinheiro, pedi um adiantamento como condição e disse que usaria a marca como case para futuros clientes”, conta.
O contrato foi fechado em modelo private label, ou seja, o produto final carregaria o nome da empresa contratante, e não do fabricante — formato que também agradou outras empresas do setor. No entanto, antes que a produção começasse, veio a pandemia, em 2020.
Enquanto a produção ficou paralisada, Olivetti viajou por 12 estados do país para apresentar a Papel Para Mechas. Levantou mais de R$ 1 milhão e inaugurou a primeira fábrica ainda em 2020, com a produção industrial iniciada no mês de outubro.
A empresa passou também a atender salões de beleza de forma direta e a chamar a atenção de influenciadores, começando a crescer de maneira orgânica pelo país.
A produção é automatizada, com capacidade atual de cerca de três toneladas de papel por dia, com potencial de expansão de até 60%. Os custos para o cliente são competitivos em relação ao papel-alumínio, com possibilidade de redução de preço quando o produto é reutilizado pelo profissional. “O principal desafio é a mudança cultural dos cabeleireiros. Precisamos construir uma base educativa junto aos clientes para, depois, entrar na atuação comercial”, diz.
Hoje, a marca está presente em 60 mil salões, com 260 milhões de folhas desde a fundação. O empresário estima que 3 milhões de quilos de alumínio deixaram de ser descartados no meio ambiente.
Expansão internacional
Com o nome consolidado no Brasil, a Papel Para Mechas apostou no mercado internacional em 2023. O contato com empresas estrangeiras aconteceu por meio de feiras do setor de beleza.
Hoje, o negócio vende para 19 países. Em 2026, a meta é chegar a 50 países — o que deve mais do que dobrar o faturamento, atingindo R$ 10 milhões.
Para isso, a estratégia é aumentar a equipe internacional e lançar produtos voltados ao mercado externo. “Vamos lançar ainda neste ano um papel com matéria-prima da Amazônia, com o objetivo de nos diferenciar e levar a brasilidade para outros países.”
Olivetti também prevê a inauguração de uma fábrica própria em 2026. A empresa mudou de endereço no ano passado, mas já está construindo um novo espaço para acompanhar o aumento das vendas, com 2 mil m², localizado no Parque Tecnológico de Londrina.
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