Ele previu a crise de 2008 — e agora 'se livrou' da GameStop
Michael Burry ficou famoso por fazer o que quase ninguém acreditava ser possível: apostou contra o mercado imobiliário americano antes do colapso de 2008 e ganhou. Sua história foi contada no livro (e depois no filme) "A Grande Aposta", no qual foi interpretado por Christian Bale. Na segunda-feira, 4, ele fez uma aposta diferente: vendeu tudo que tinha na GameStop.
O motivo, explicou Burry aos seus assinantes no Substack, foi a oferta de US$ 56 bilhões que a varejista de games fez para comprar o eBay. A operação exigiria um volume histórico de dívida. E isso, para Burry, destruía a única razão pela qual ele acreditava na empresa.
"Vendi toda a minha posição em GME", escreveu. "De qualquer ângulo que eu analisasse, a tese do 'Berkshire Instantâneo' nunca foi compatível."
A tese que não sobreviveu ao negócio
Para entender a venda, é preciso voltar a janeiro.
Em um post de 8.000 palavras para assinantes pagantes, Burry havia defendido que a GameStop deveria seguir o manual da Berkshire Hathaway: usar seu enorme caixa para adquirir um negócio gerador de receita recorrente, como uma seguradora, cujos prêmios de clientes poderiam ser reinvestidos. O modelo, claro, é o de Warren Buffett.
Burry reconhecia as limitações da GameStop sem rodeios. O negócio de videogames estava em declínio. Mas via potencial caso o CEO Ryan Cohen usasse US$ 10 bilhões ou mais para comprar "um negócio de qualidade, real e em crescimento."
Cohen, escreveu Burry em janeiro, "tem um negócio ruim e está tirando o máximo que pode dele enquanto aproveita o fenômeno das meme stocks para levantar caixa e esperar uma oportunidade de fazer uma grande aquisição."
A visão de Burry era a de que Cohen deveria agir como Buffett — comprar bem, esperar, e fazer "acordos de financiamento vantajosos em momentos difíceis."
Michael Burry no lançamento do filme "A Grande Aposta" (Astrid Stawiarz / Correspondente/Getty Images)
A oferta pelo eBay, na leitura de Burry, foi o oposto disso.
"Wall Street confunde dívida com criatividade"
Na segunda-feira, após a GameStop formalizar a proposta de compra do eBay, Burry afirmou que "mais diluição, ou mais dívida — na verdade, a estratégia para o mercado de capitais aqui não poderia ser mais banal.”
"Wall Street de fato confunde dívida com criatividade — e faz isso constantemente", escreveu. "Eu, de todos os que existem, deveria ter sabido."
A autocrítica tem um subtexto preciso: Burry havia construído uma tese para a GameStop baseada em alocação disciplinada de capital. O que Cohen anunciou foi o contrário — uma aquisição alavancada de uma empresa quase quatro vezes maior, com modelos de negócio estruturalmente diferentes.
“Se Ryan realmente quisesse competir com a Amazon, ele teria adquirido a Wayfair (70% de suas próprias entregas de última milha e armazéns em todo o mundo), juntamente com uma máquina de gerar fluxo de caixa e muita liquidez. Ouvi dizer que alguém estava oferecendo um negócio assim no início de fevereiro", afirmou Burry.
No texto, o investidor também argumentou que "ainda não se abriu nenhum caminho inédito". "Para realmente inovar, Ryan precisa executar e ter sucesso nessa transformação a partir dessa posição inicial, endividado", disse.
Burry informou que a venda da GameStop foi a primeira desde que começou a postar no Substack. No mesmo dia, revelou ter mais que dobrado sua posição na Lululemon e comprado puts no iShares Semiconductor ETF, fundo de empresas de semicondutores.
O que fica
A saída de Burry não é apenas um movimento de portfólio, mas sim o encerramento formal de uma tese que ele mesmo articulou publicamente, com detalhes e convicção, menos de quatro meses atrás.
Em janeiro, ele escreveu o que faria no lugar de Cohen. "Procederia a viver minha vida fazendo minha melhor imitação de Warren Buffett. Comprando pacientemente negócios inteiros ou em parte, e fazendo acordos de financiamento vantajosos em momentos difíceis."
Na segunda-feira, concluiu que essa imitação não estava mais no roteiro.
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