Ele quase quebrou por depender de um cliente só. Anos depois, construiu uma empresa de R$ 1,8 bi
O administrador de empresas Vittorio Danesi já tinha visto um negócio ruir nas mãos. Nos anos 1990, sua fábrica de monitores, a TCE, dependia de um único grande cliente: a americana Compaq.
Quando a Compaq trocou de fornecedor, o faturamento despencou e ele liquidou a empresa antes da falência. Ficou a lição: nunca mais depender de um cliente só.
"O contrato com a Compaq representava 60% do meu faturamento. Foi quando entendi que não podia depender tanto de um único cliente", diz Danesi.
Anos depois, em 2001, Danesi fundou a Simpress, companhia paulista que aluga equipamentos de tecnologia para empresas.
Em vez de comprar notebooks, computadores e impressoras, o cliente paga uma mensalidade e recebe as máquinas com tudo incluído — manutenção, troca e suporte. Não compra nada, não se preocupa com nada.
A conta deu certo. Nos últimos seis anos, a Simpress quase triplicou de tamanho: saiu de uma receita de 600 milhões de reais em 2019 para 1,8 bilhão de reais em 2025, com mais de 850.000 equipamentos sob gestão e 3.200 clientes, entre eles as varejistas Cobasi e Havan e a indústria de alumínio Alcoa.
A meta agora é cruzar os 2 bilhões de reais até 2027.
Este crescimento exponencial nos últimos anos é fruto de uma estratégia que salvou a empresa.
Qual foi a virada que salvou a empresa
Os bons números vieram de uma virada de página.
Em 2013, a Simpress ainda era uma precisa dedicada exclusivamente a outsourcing de impressoras.
À época, Danesi enxergou um problema no horizonte: a transformação digital reduziria o volume de páginas impressas, e o negócio principal seria atacado pela própria evolução do mercado.
A primeira resposta foi tratar a Simpress como uma "empresa de documentos" e testar serviços ao redor dessa ideia, da digitalização à gestão eletrônica dos papéis. Não funcionou. "O mercado achava tudo interessante, mas não comprava quase nada", diz.
A virada de verdade veio em 2019.
A companhia abandonou o conceito e se redefiniu: não era uma empresa de documentos, mas de gestão de dispositivos de TI. Se já fazia o aluguel de impressoras, poderia fazer também de computadores, notebooks e celulares. As primeiras ofertas saíram em outubro de 2019.
Cinco meses depois, veio a pandemia.
Com os escritórios vazios, ninguém imprimia. A demanda por equipar funcionários em home office, na contramão, explodiu. O timing não poderia ter sido melhor.
Qual é a história de Danesi
Perceber a hora de agir, ou de recuar, não é uma habilidade recente na vida de Danesi.
Filho de italianos, ele cresceu dentro da indústria de tecnologia antes mesmo de ela existir como a conhecemos. O pai era executivo da Olivetti, gigante italiano conhecido no Brasil pelas máquinas de escrever.
A família passou por México, França e Itália antes de aportar no Brasil, em 1975 — logo quando o governo fechou o mercado de informática à concorrência estrangeira.
A Olivetti recuou. A família fincou raízes por aqui.
Já formado, Danesi entrou na área comercial de uma das primeiras fabricantes nacionais de microcomputadores e viu um setor inteiro nascer no país.
Empreendeu na sequência, com a TCE, indústria de monitores com fábrica em Manaus.
O negócio escalou rápido ao fechar o contrato para fornecer as telas dos computadores da Compaq. E despencou quando a parceira trocou a TCE pela Samsung e pela LG.
A lição sobre concentração ficou. Em 2001, com o mercado aberto e as impressoras multifuncionais ganhando escala pelo mundo, Danesi fundou a Simpress, hoje líder do setor.
Quais são os desafios do modelo
Administrar esse negócio é caro e exige fôlego permanente.
Só para 2026, a Simpress prevê investir 750 milhões de reais, quase tudo na compra de dispositivos, com a entrada de novos grandes clientes. É um modelo dificílimo e, se mal gerido, devora o caixa.
"A empresa paga o equipamento à vista e o recebe de volta diluído na mensalidade ao longo de contratos de, em média, 60 meses", diz Reinaldo Sakis, da consultoria de tecnologia IDC no Brasil.
Sem uma estrutura robusta — saber onde está cada uma das 850.000 máquinas, faturá-las, mandar peças, recolher, repor —, a margem apertada vira prejuízo.
Para se blindar, a Simpress se apoia em um gigante. Em 2015, foi comprada pela Samsung e, desde 2017, pertence ao grupo HP, companhia de 55 bilhões de dólares.
O mercado, segundo a IDC, vive um momento decisivo.
"No pós-pandemia, surgiram centenas de empresas oferecendo outsourcing de computador e celular", diz Sakis. "Mas a gestão de custo é muito complexa. Quem não tem esse know-how apurado não se sustenta", afirma.
O mar azul aberto na pandemia secou.
Hoje, o jogo se concentra em seis nomes, entre eles a Simpress, a Voke e a Positivo Tecnologia.
Para equilibrar investimento e custo, a Simpress busca ganhar dinheiro além do aluguel. A estratégia é agregar camadas de serviço sobre o contrato básico — são mais de 30 disponíveis, da sanitização de dados, que apaga tudo quando um computador é devolvido, à geolocalização dos equipamentos.
Oficina de reparo de equipamentos da Simpress em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo: 3.000 computadores seminovos por mês (Leandro Fonseca/Exame)
No médio prazo, a principal aposta está na sobrevida dos equipamentos.
Um computador usado por quatro anos numa empresa pode voltar, ser restaurado e seguir para outra companhia que não precise de uma máquina tão potente.
A Simpress mantém em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, um centro de remanufatura com capacidade para recuperar 3.000 equipamentos por mês, e acaba de abrir uma loja online para vender aparelhos seminovos ao consumidor final.
Um notebook zerado de 5.000 reais pode custar metade disso.
Além disso, Danesi acredita num crescimento de mercado.
Dos 3,5 milhões de computadores vendidos ao mercado corporativo todos os anos, apenas 12% são contratados no modelo de aluguel — o restante ainda é compra tradicional.
"Dá para chegar a 30% do mercado. A oportunidade é enorme", diz Danesi.
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