Ele trabalhou no STF, virou franqueado e agora vai faturar R$ 130 milhões com óculos
A virada na vida do carioca Flávio Costa Barros começou com um convite improvável. Advogado tributarista no Rio, ex-assessor do ministro Marco Aurélio no Supremo Tribunal Federal, ele representava o pai de um dos sócios de uma rede de churrascarias quando ouviu a oferta: virar franqueado de uma marca de óculos que ainda engatinhava.
Dez anos depois, comanda a operação como CEO, e mira 130 milhões de reais em receita para este ano.
A Fuel Eyewear, fundada em 2013 no Rio de Janeiro, fechou 2025 com 90 milhões de reais em receita, opera 65 unidades em 10 estados e está em 14 aeroportos.
Recentemente, montou uma fábrica própria no Rio com equipamentos de uma indústria desativada em Montes Claros que fornecia para a concorrente Chilli Beans. A linha artesanal carioca, batizada de Born in Rio, é o pilar de uma estratégia que envolve também produzir óculos para grifes como Reserva e Cris Barros.
A empresa está investindo 800 mil reais em equipamentos para escalar a produção própria.
São 300.000 reais nas máquinas vindas de Montes Claros e mais 500.000 em equipamentos importados da Itália, que devem chegar nos próximos meses. A meta para 2026 é abrir 20 novas operações entre quiosques e óticas.
O futuro da rede passa por três frentes simultâneas. A primeira é a fábrica do Rio, que deve dobrar a capacidade de produção nos próximos meses e abrir caminho para atender marcas com volumes menores.
A segunda é a expansão da rede de óticas, que hoje soma 10 unidades e tem ticket médio maior que o dos quiosques.
A terceira é o licenciamento de clubes de futebol, com linhas já lançadas para Flamengo, Palmeiras e Corinthians, e estreias previstas de Fluminense e Botafogo.
Qual é a história de Barros
Barros construiu carreira na advocacia empresarial e tributária no Rio depois de deixar Brasília, em 2005.
A relação com clientes raramente ficava restrita ao operacional jurídico, e ele começou a virar sócio de negócios que assessorava. Em 2015, entrou como franqueado da Fuel, que então tinha 15 operações. Comprou a participação de um sócio que morava em Cancún e não atuava no dia a dia, depois adquiriu outra fatia.
Em 2019, a empresa montou um conselho consultivo. Foi nesse colegiado que surgiu a indicação para Barros assumir a operação. Os outros sócios apoiaram. O fundador Miguel Zabotinsky segue na sociedade.
Como foi o desafio durante a pandemia
A operação da Fuel é 99% dentro de shoppings, e o modelo cobrou seu preço quando os centros comerciais fecharam.
A rede chegou a 84 unidades antes da pandemia e despencou para 38. Concorrentes do setor óptico que operavam em rua se beneficiaram do enquadramento das óticas como serviço de saúde, com menos restrições, e cresceram no mesmo período.
A reconstrução começou em 2025, com a estruturação de um setor comercial dedicado à expansão.
Barros contratou um executivo com passagem pela Óticas Carol, para a diretoria comercial. Até então, o crescimento da Fuel era movido por indicação de franqueados que abriam segunda e terceira unidades. "Aquele setor comercial dentro da empresa para capilarizar a expansão a gente nunca teve", diz o CEO.
A aposta na produção carioca
A fábrica no Rio nasceu de uma compra oportunista. A indústria Clermon, em Montes Claros, fechou em 2020 sem resistir à pandemia. Era uma das maiores do país e fornecia para Chilli Beans e outras redes. A Fuel adquiriu o equipamento, montou a operação no Rio e batizou a linha de Born in Rio.
A produção é artesanal e responde por uma fatia pequena do volume. A maior parte das armações continua vindo da China, mercado para onde a empresa viaja em média duas vezes por ano.
Mas a fábrica abriu uma linha de receita nova: a divisão de Project Label, que produz óculos para outras marcas. Reserva foi a primeira parceira, há três anos. Depois vieram outras, e agora está em desenvolvimento uma coleção para a Cris Barros. O segmento responde por 10% a 15% da receita.
O aporte de 500.000 reais em máquinas italianas é a aposta para escalar essa frente. "No caso da Cris Barros, como eles têm um número de lojas menor, o volume de produção é pequeno. Em vez de eu ter que fazer 600 peças do modelo, eu poderia fazer 150, 200", afirma Barros.
Os desafios no meio do caminho
Os 65 pontos da Fuel estão majoritariamente em shoppings, modelo que pesa cada vez mais no caixa.
Para driblar o aumento nos preços, a rede começou a estudar um modelo mais econômico para lojas de rua. Já tem unidades em Búzios e Ipanema.
Para crescer, também quer mostrar para o consumidor que vai além do óculos de sól, e vende ótica.
As 10 unidades do tipo já oferecem lentes de grau e tratamento visual completo, mas a percepção pública ainda não acompanhou. O caso do BarraShopping é didático: a rede tem ali uma ótica e um quiosque a 15 metros de distância, e Barros relata ter visto clientes olharem a vitrine sem fazer a conexão de que se tratava da mesma marca.
A diferença visual contribui. Enquanto os quiosques carregam a cor laranja característica da Fuel, a ótica adotou identidade em preto e tons sóbrios. "É um desafio realmente mostrar que a Fuel é ótica também", afirma o CEO.
Entre os obstáculos que Barros considera mais difíceis estão os que não dependem da empresa. O lead time, prazo entre o embarque da mercadoria na China e a chegada ao Brasil, costumava ser de 35 dias e agora chega a 60. A oscilação cambial impacta diretamente o custo das importações. A mão de obra no varejo, especialmente entre a primeira geração que entra em shopping center, é apontada como dificuldade estrutural.
Para 2026, a meta é elevar o ticket médio com mais óticas, capilarizar a marca pelo trabalho do novo diretor comercial e ampliar a produção carioca. A combinação dos três movimentos é o que sustenta a projeção de 130 milhões de reais. Seja com óculos de sol ou de grau.
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