Ele usou R$ 30 para montar um negócio que movimenta mais de R$ 100 milhões com obras
A construção civil brasileira movimenta centenas de bilhões de reais por ano, mas opera com uma lógica que pouco mudou nas últimas décadas: o lojista de material espera o cliente bater na porta, e o cliente perambula entre lojas atrás de orçamento.
É nessa lacuna que opera a Prospecta Obras, uma startup fundada em 2008 em São José dos Campos que mapeia mais de 1 milhão de obras em andamento ou em fase de projeto no Brasil. A empresa cruza dados de prefeituras, projetos arquitetônicos e licenciamentos com inteligência artificial para entregar a fornecedores — de marmorarias a operadoras de telecom — uma lista qualificada de quem vai construir, onde, quando e o quê.
O ecossistema fechou 2025 com 10,7 milhões de reais em faturamento, 143 unidades licenciadas e mais de 12 mil clientes, entre eles Vivo, Gerdau e Decor Colors.
Wanderson Leite, o fundador, começou o negócio com 30 reais no bolso, sem carro, sem computador e usando um chaveiro vazio para fingir que tinha estacionado um veículo na frente das lojas que visitava.
Hoje, a empresa acaba de receber uma proposta de sociedade de um grupo alemão de home center que entrou no Brasil, lançou um instituto para gerar dados públicos sobre o setor e prepara a entrada nos Estados Unidos e no Canadá em 2027.
"Eu quero ser a maior empresa de inteligência do mercado da construção civil das Américas", afirma Wanderson.
Para os próximos anos, o plano combina três frentes: consolidar o Construpés, braço voltado ao consumidor final que constrói a própria casa; ampliar o Instituto Brasileiro de Inteligência da Construção, lançado em 2026 para democratizar dados do setor; e abrir operação na América do Norte, mercado que, segundo o fundador, ainda não tem concorrente direto fazendo o que a Prospecta faz no Brasil.
Como Wanderson começou a empreender
A semente da Prospecta foi plantada em 2002, em Cabreúva, interior de São Paulo.
Wanderson tinha 13 anos e trabalhava numa fábrica de lajes a quatro quilômetros de casa. Caminhava o trajeto a pé todos os dias, sem garantia de que haveria diária. Não havia celular, não havia telefone fixo, e a fábrica só produzia se houvesse pedido.
No caminho, passava por um bairro chamado Vale Verde, cheio de obras de casas populares. Num dia em que o patrão dispensou os funcionários por falta de serviço, Wanderson questionou: por que a fábrica não vendia para aquelas obras que ele via todo dia? A resposta foi seca: "Porque eles não vieram comprar".
"Aquilo, em vez de me dar resposta, me deixou ainda mais inquieto. Voltei na fábrica, peguei cartões de visita, escrevi meu nome neles e fui deixando nas obras. Três semanas depois, três tinham comprado. O patrão me deu uma comissão que era quase o dobro do meu salário da semana. Foi ali que entendi: a clareza é um privilégio da perspectiva", diz Wanderson.
A frase virou método. Seis anos depois, em 2008, com a esposa grávida e a mudança de São Paulo para São José dos Campos consumindo o pouco que tinham, sobraram exatamente 30 reais. Wanderson foi a uma loja de móveis planejados recém-inaugurada na cidade procurar emprego. O dono respondeu que não precisava de vendedor — tinha cinco e ninguém vendia. Precisava de cliente.
Era a mesma resposta que ele tinha ouvido aos 13 anos.
O cartão de 32 reais e os 60 motoboys
Wanderson gastou 32 dos seus 30 reais — ficou devendo dois — numa lan house para imprimir 100 cartões de visita simples. Foi a pé até o condomínio que tinha visto da janela do ônibus na mudança. Esperou seis horas na portaria até o empreiteiro aparecer. Saiu de lá com três contatos de proprietários e um de arquiteto.
No mesmo dia, voltou à loja de móveis planejados, jogou os contatos na mesa do dono e fechou um acordo de 230 reais por mês para entregar informações de obras toda semana. Em 30 dias, tinha dez clientes.
Como não tinha carro nem dinheiro para transporte, descia do ônibus no início de avenidas longas e caminhava sete, oito quilômetros entre lojas. Levava no bolso o chaveiro de um carro emprestado para colocar sobre a mesa nas reuniões, simulando que havia estacionado em frente.
A operação artesanal escalou com uma sacada lateral: motoboys de restaurantes que entregavam marmita em condomínios fechados de alto padrão tinham acesso aos canteiros. Wanderson começou a pagar caixinha para que eles trouxessem informações das obras. Em pouco tempo, mantinha uma rede de cerca de 60 motoboys espalhados pela região coletando dados de canteiros para a Prospecta.
A virada para inteligência artificial
O modelo manual chegou ao limite. Wanderson, que tinha sido obcecado por dados desde a adolescência — quando tocava em uma banda e cronometrava quanto tempo os usuários permaneciam ouvindo cada música no site — começou a captar dados de aprovações de obras em prefeituras, conselhos de arquitetura e cartórios. Mas faltava como interpretar o volume.
A inflexão veio em 2013, quando ele leu sobre a AlexNet, rede neural profunda, ou deep learning, que ensinou um computador a reconhecer imagens de gatos a partir de padrões. "Aquilo me deu um soco. Falei: é isso que eu preciso fazer. Dar para o computador todos os dados que tenho e fazer ele me devolver a resposta", afirma Wanderson.
Entre o Natal de 2014 e o Ano Novo de 2015, ele passou as festas trabalhando numa mesa de casa, desenhando num envelope o planejamento da empresa que viria. A esposa derrubou um espumante sobre o papel — Wanderson guarda o envelope manchado até hoje. Tudo o que estava ali se cumpriu: expansão pelo varejo via franquias, lançamento de uma camada para indústria, criação de uma ponte com o consumidor final e democratização de dados sobre o setor.
A primeira versão da plataforma foi feita pelo próprio Wanderson, sem formação em programação. Até hoje, ele desenvolve os produtos mínimos viáveis, ou MVPs, antes de entregar à equipe técnica.
Vivo, Gerdau e o que a indústria pesada quer saber
A Prospecta opera hoje quatro produtos no ecossistema. A franquia original, voltada ao varejo de material de construção, tem 143 unidades licenciadas — incluindo Pelotas, no Rio Grande do Sul, e Macapá, no Amapá. A Mapeia atende a indústria, com análise de mercado e previsão de demanda. O Construpés, lançado em 2024, envia cartões físicos a proprietários de obras mapeadas, dando acesso a um marketplace de orçamentos, vistorias e seguros. E o Instituto Brasileiro de Inteligência da Construção, lançado em 2026, gera relatórios trimestrais e mensais públicos sobre o setor.
Os clientes corporativos vão além do varejo de material. A Vivo, por exemplo, usa os dados em duas pontas: comercial, para oferecer fibra ótica a casas que estão sendo finalizadas, e estratégica, para decidir onde investir em infraestrutura. "Eles fizeram um investimento recente no Norte de 2 bilhões de reais. Não é investimento de 50 mil. Precisam ter certeza de que aquela região está em expansão real", diz Wanderson.
A lógica vale para a Gerdau, para a rede de aluguel de equipamentos White Martins e para federações setoriais que recorrem à Prospecta quando precisam de números antes de uma entrevista ou apresentação pública.
O que pode dar errado
O setor passou 2025 sob pressão. Com a taxa Selic em patamares elevados e crédito imobiliário escasso, a construção civil viu retração de novos lançamentos e seleção mais dura entre quem consegue tocar obra. A Prospecta cresceu mesmo nesse ambiente, mas a dependência da saúde do crédito é real: uma desaceleração mais prolongada afeta diretamente o volume de canteiros que a plataforma tem para mapear e, portanto, o produto que entrega aos clientes.
Há também o desafio de profissionalizar um mercado historicamente analógico. Em 2015, quando a Prospecta começou a expandir por franquias, menos de 10% das lojas de material de construção no Brasil tinham qualquer presença digital. O cenário melhorou, mas o lojista médio ainda é resistente a contratar serviços de inteligência de dados — e parte do trabalho da rede é, antes de vender, convencer o cliente de que ele precisa do produto.
A entrada nos Estados Unidos e no Canadá em 2027 traz outro tipo de risco. Wanderson afirma não ter encontrado concorrente direto nesses mercados durante pesquisa de campo, o que pode ser oportunidade — ou sinal de que a demanda local funciona com lógica diferente da brasileira. Levar uma operação que cresceu apoiada em prospecção presencial e relacionamento com lojistas pequenos para um mercado dominado por grandes redes de home center exige adaptação que ainda está em desenho.
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