Eleições no Japão: Takaichi deve vencer disputa com apoio de jovens e de Trump
Nesse domingo, o Japão será palco de novas eleições, apenas quatro meses sob o mandato da nova premiê Sanae Takaichi, conservadora de direita. As pesquisas indicam que ela deverá consolidar seu poder, pois apresenta taxas de aprovação nos 80%.
A primeira-ministra, de 64 anos, está tão confiante na sua base eleitoral que prometeu que, caso seu partido não vença as eleições, renunciará do cargo. Quando anunciou a eleição-relâmpago no mês passado, disse que os cidadãos teriam a chance de decidir se ela é “digna de liderar o país.”
Após ter dissolvido o Parlamento, em um momento de fragmentação de seu partido, LDP, a premiê aposta na sua popularidade para seguir no poder com mais força e aprovar medidas com mais facilidade.
Pesquisas mostram que a nova coalizão entre o LDP e o Partido Japonês de Inovação deve conseguir mais de 300 assentos dentre os 465 disponíveis na Câmara baixa, o suficiente para assegurar uma maioria de dois terços e controle sobre os comitês parlamentares.
"A aposta de Takaichi dará certo, pois ela garantirá um mandato forte e provavelmente uma maioria absoluta, o que lhe permitirá implementar um ambicioso conjunto de reformas econômicas e de segurança", disse à AFP Jeff Kingston, professor da Universidade Temple, no Japão.
Takaichi também teve endosso do presidente americano, Donald Trump, que a convidou para visitar a Casa Branca em março. Ganhou a admiração do republicano por se mostrar disposta a aumentar significativamente os gastos japoneses com defesa e segurança, pauta do presidente americano. É essa mesma narrativa que estende seu apelo entre gerações, ganhando a lealdade dos eleitores mais velhos, importante base eleitoral histórica do LDP.
Entenda a posição de Takaichi, suas esperanças, e pontos notáveis do cenário político japonês às vésperas da eleição.
Apoio entre gerações
Sanae Takaichi apela para a juventude japonesa, conseguindo forte presença jovem em seus discursos (Getty Images) (Getty Images)
Com uma popularidade incomum para líderes japoneses, Takaichi foi capaz de ganhar a admiração e apoio entre a juventude, uma base eleitoral normalmente fora do alcance de políticos japoneses, devido ao seu uso constante e bem pensado de redes sociais, onde se apresenta como uma figura próxima e aberta.
Ao mostrar nas plataformas seu cotidiano e detalhes pessoais, Takaichi se tornou um ícone cultural, com todos os produtos associados à sua pessoa – da marca da bolsa que usa a seus lanches favoritos – tendo mais vendas nas lojas japonesas.
Com um passado que drasticamente contrasta com sua postura conservadora, quando foi motoqueira e baterista em bandas de heavy metal, a premiê também faz postagens virais com outros líderes, a mais popular das quais veio mês passado, quando tocou hits de K-pop na bateria com o presidente sul coreano, Lee Jae Myung, mostrando seu conhecimento do instrumento e uma nova era nas relações com a Coreia do Sul, historicamente instáveis.
Sua popularidade com a juventude é tanta que, mesmo em um país onde a hierarquia social com base na idade é altamente respeitada, eleitores a chamam de Sana-chan, um apelido carinhoso utilizando um sufixo informal feminino usado para expressar carinho e afeto, usado normalmente com meninas jovens ou conjugues.
O apelo com os jovens e as altas taxas de aprovação vêm como a luz no fim do túnel para o LDP, partido que vem dominando a política japonesa por décadas depois da segunda guerra. Todavia, nos últimos 8 meses, o LDP esteve no que muitos consideram como o ponto mais baixo de sua existência: perdeu a maioria parlamentar pela segunda vez em 15 meses; muitos de seus parlamentares estavam envolvidos em um escândalo de fundos, e o premiê Shigeru Ishiba renunciou.
Rixa com Pequim e o “vento Takaichi”
Sanae Takaichi, atual premiê do Japão (Yuichi Yamazaki - Pool/Getty Images) (Yuichi Yamazaki - Pool/Getty Images)
Takaichi, apesar de suas alta aprovação, foi uma figura controversa desde o momento que assumiu o cargo. Pouco após subir ao poder, fez comentários sensíveis sobre uma possível retaliação militar contra a China caso houvesse uma incursão em Taiwan. Líderes japoneses – assim como a maioria dos líderes mundiais – assumem tradicionalmente uma posição ambígua em relação à ilha, nem condenando nem apoiando a posição de Pequim, que busca anexar Taiwan como província da China continental.
Os comentários iniciaram um período de tensão diplomática entre os países, resultando no cancelamento de shows, queda significativa no turismo entre as nações e uma guerra verbal entre os governos. Todavia, Takaichi não foi a única a fazer comentários considerados duros ou grosseiros – membros do governo chinês no Japão e fora retaliaram, fazendo observações que levaram a uma lacuna ainda maior entre os países. A rixa continua sem solução à vista.
Além disso, Takaichi tem posições alinhadas com a direita, como sua oposição a herdeiras imperiais se tornarem imperatrizes ou suas visitas ao Santuário Yasukuni, que honra o nome de soldados japoneses que perderam suas vidas na guerra – incluindo criminosos de guerra condenados. Isso faz com que sua eleição seja considerada uma guinada forte à direita, pondo o Japão em um caminho de controle imigratório, pauta principal da direita do país, e que Takaichi defendeu ardentemente durante sua campanha original.
Todavia, por ser uma defensora dessas causas, também promovidas pelo partido mais radical Sanseito, que vem crescendo a taxas surpreendentes, Takaichi foi capaz de resolver dois problemas simultaneamente, centralizando a direita do Japão ao redor de si mesma: conseguiu reconquistar os eleitores mais conservadores do LDP, que passaram ao jogar seu apoio atrás do Sanseito, conforme o LDP se torna muito moderado nessas pautas aos seus olhos. Ao mesmo tempo, enfraqueceu o Sanseito, limitando seu crescimento e pegando para si assentos que provavelmente seriam do partido.
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