Em guerra centenária, Coca-Cola domina. Como a Pepsi ensaia recuperação?
A rivalidade entre Coca-Cola e PepsiCo atravessa mais de um século e segue como uma das disputas mais emblemáticas do mundo corporativo. Mas, nos últimos anos, o jogo tem sido claramente dominado pela dona da Coca — ainda que sinais recentes indiquem que a concorrente pode estar ensaiando uma reação.
Historicamente conhecidas por suas batalhas criativas de marketing e lançamentos de produtos, as duas empresas hoje operam modelos de negócios bastante distintos. Enquanto a Coca-Cola mantém foco concentrado em bebidas, a Pepsi diversificou sua atuação e hoje gera mais da metade da receita com alimentos industrializados, com marcas como Lay’s e Quaker.
Essa diferença estrutural ajuda a explicar parte do desempenho recente, segundo análise da The Economist. Desde o início de 2023, o valor de mercado da Coca-Cola subiu cerca de 23%, enquanto a Pepsi acumulou queda de 15%. Nos Estados Unidos, a vantagem também é clara: a Coca-Cola detém cerca de 17% do mercado de refrigerantes, contra 11% da rival, segundo dados da empresa de pesquisa Beverage Digest, divulgados pelo jornal.
Onde a Pepsi perdeu terreno
Boa parte das dificuldades recentes da Pepsi está ligada à estratégia adotada durante o ciclo inflacionário pós-pandemia. A empresa elevou preços de alimentos e bebidas de forma agressiva — em alguns casos, mais do que concorrentes —, o que acabou afastando consumidores mais sensíveis a preço, que migraram para marcas mais baratas ou produtos próprios de varejistas.
Além disso, a mudança no comportamento do consumidor tem pesado. A crescente preocupação com saúde tem afetado negativamente o segmento de snacks e alimentos ultraprocessados — justamente um dos pilares da Pepsi. O avanço de medicamentos para perda de peso também adiciona pressão: usuários desses tratamentos tendem a reduzir o consumo de bebidas gaseificadas. Somente nos Estados Unidos, essa queda chega a cerca de 7%, segundo informações da consultoria AlixPartners, divulgadas pelo The Economist.
Nesse cenário, a Coca-Cola leva vantagem competitiva. Ainda de acordo com o jornal, a empresa domina o segmento de refrigerantes sem açúcar — os norte-americanos consomem cerca de 2,5 vezes mais Coca Diet do que Pepsi Diet — e se posicionou mais cedo em categorias emergentes, como bebidas funcionais e proteicas.
Pressão de investidores e mudança de rota
A virada estratégica da Pepsi começou a ganhar forma após a entrada do fundo Elliott Management, que adquiriu uma participação de cerca de US$ 4 bilhões na empresa. O investidor pressionou por mudanças profundas, incluindo corte de custos, simplificação do portfólio, foco maior na marca principal e até a terceirização das operações de engarrafamento nos Estados Unidos — modelo já adotado pela concorrente.
Embora tenha resistido a mudanças mais radicais, a Pepsi cedeu em vários pontos: iniciou redução de preços, cortou cerca de um quinto de suas marcas de snacks, fechou fábricas e avalia a venda de ativos com desempenho fraco, como a Quaker. A empresa também estuda testar modelos de engarrafamento terceirizado em algumas regiões do país.
Os resultados mais recentes sugerem que a estratégia começa a dar frutos. No primeiro trimestre de 2026, a Pepsi registrou crescimento de 24% no lucro operacional na comparação anual — acima dos 19% reportados pela Coca-Cola poucos dias depois, em 28 de abril.
Outro movimento relevante foi a aquisição da Poppi, marca de refrigerantes prebióticos voltada ao público preocupado com saúde. A compra, avaliada em US$ 2 bilhões, reforça a tentativa da Pepsi de se reposicionar em categorias com maior potencial de crescimento.
Com isso, diminuíram os temores de que a empresa pudesse perder o posto de segunda maior vendedora de refrigerantes nos EUA para a Dr Pepper.
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